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PLURALE EM REVISTA - EDIÇÃO 64 - Uma carta por twitter entre dois mundos

Matéria publicada originalmente no portal www.vilaweb.cat

Prefácio e tradução: Maurette Brandt

Publicada em PLURALE com autorização do Portal Vilaweb

Uma carta muito particular foi escrita, entre 10 e 17 de junho deste ano, por meio de 92 tweets de 280 caracteres cada. Amizade, coragem, força e denúncia foram a tônica dessa correspondência por via tecnológica, que trilhou os passos do Twitter e, assim, foi compartilhada com milhões de pessoas enquanto era construída, dia após dia. São capítulos de uma escrita amorosa e humana, documentada por imagens de tirar o fôlego e o sono da gente também.

O remetente: Gervásio Sánchez(foto), consagrado e premiado fotojornalista espanhol, especializado na cobertura de guerras e conflitos. O destinatário: seu velho amigo Raül Romeva, conselheiro do governo autônomo da Catalunha até outubro de 2017, além de ter sido consultor das Nações Unidas/Unesco na Bósnia-Herzegovina e observador eleitoral naquele país, a convite da Organização de Segurança e Cooperação da Europa.

Romeva (foto) é um dos nove políticos catalães que estão em prisão preventiva desde os acontecimentos que se seguiram ao referendo popular que, em outubro de 2017, levou à Declaração de Independência da Catalunha, rapidamente sufocada. Preso em 23 de março deste ano, Romeva foi enviado ao presídio de Estremera, localizado a 70 km de Madri, ao lado de Joaquin Forn, Oriol Junqueras, Jordi Sanchez, Jordi Cuixart, Jordi Turull e Josep Rull, todos presos pelo mesmo motivo. Todos eles, além das conselheiras Carme Forcadell e Dolors Bassa, foram trasladados há poucos meses para prisões próximas de suas casas e das famílias, em cumprimento a uma decisão judicial.

Essa carta telegráfica, em pílulas contundentes e cheias de humanidade, me fez pensar naquelas mensagens trocadas com extrema dificuldade, em outras guerras ou em campos de refugiados, por rádio ou por telégrafo, sempre com o risco de serem interceptadas pelos inimigos. Estas, no entanto, podem ser lidas no mesmo instante e acompanhadas por todo mundo, em nossos tempos tão virtuais e imediatos.

Graças à parceria com o site www.vilaweb.cat, pude traduzir a matéria, complementá-la e compartilhá-la com os leitores de Plurale. Procurei também por Sánchez no Twitter, que me atendeu com toda atenção, em meio ao intenso trabalho em que esteve envolvido na Bósnia. – Trata-se de uma simples carta de uma pessoa a outra, que conhece há mais de duas décadas, e a quem conta lembranças de uma cidade e de um país que ambos conhecem. Nada mais – me respondeu, com humildade.

Compaixão, amor, indignação, luta, dignidade e tantos outros sentimentos mais que humanos brotam desse confessional relato, que fala das injustiças e da crueza do mundo sem perder de vista o amor e a esperança. Gervásio Sánchez é um repórter fotográfico que vem de uma tradição na qual se insere o nosso Sebastião Salgado: suas imagens e impressões não apenas dialogam com o sofrimento ou o abandono. Antes de tudo, extraem deles a força e a dignidade daqueles que lutam pela vida, pelas causas da humanidade e pela sobrevivência do planeta, entre tantas outras razões pelas quais lutar. (Maurette Brandt)

O reconhecido fotógrafo da guerra da Bósnia, Gervasio Sánchez, publica uma contundente carta diária a Raül Romeva

“Querido Raul, decidi te escrever esta carta de Sarajevo e enviá-la em doses de 280 caracteres”, explica o fotojornalista

O fotojornalista Gervasio Sánchez, famoso por sua cobertura da guerra da Bósnia e, em especial, do cerco de Sarajevo, voltou à capital daquele país a trabalho em de lá, decidiu escrever uma carta pelo Twitter ao conselheiro Raül Romeva, preso desde 23 de março.

– Espero que possa lê-la e, melhor ainda, que possas me responder”, escreveu.

Segundo Sánchez, quem o convenceu a escrever foi um amigo comum, Manel Vila Tomllo, Diretor Geral de Cooperação e Desenvolvimento do governo autônomo da Catalunha. Em um de seus primeiros tweets, explica que sua companhia, nesta viagem, é o romance Ponte de Cendra, ambientado na Bósnia, que Romeva publicou em 2015, ainda sem tradução no Brasil.

– Você se equivocou na hora de escrever a data da dedicatória e colocou fevereiro de 2018, em vez de fevereiro de 2017. Sinto muita tristeza pelo que está passando” – diz Sánchez.

O vínculo do conselheiro Romeva com a república balcânica começa em 1993, quando decide colaborar, como voluntário, nos campos de refugiados na Croácia. Mais tarde, em 1995 e 1996, trabalha como responsável pelo programa educativo e pela promoção do programa de Cultura de Paz da UNESCO na Bósnia. Foi também observador nas eleições de 1996 e de 1997 naquele país.

Sánchez dedica cada tweet da carta a um de seus muitos testemunhos da guerra da Bósnia. Conta a história de seus personagens e complementa os relatos com fotos de sua autoria, disponíveis no Twitter (@gervasanchez). Fala também de outras questões urgentes do mundo.

A carta de Gervásio Sánchez para Raül Romeva, tweet por tweet

1) 10 de junho - Querido Raül: Decidi te escrever esta carta daqui de Sarajevo e enviá-la em porções de 280 caracteres. Espero que possas lê-la e, quem sabe, dê para me responder. Pode me perguntar o que quiser. Tentarei mandar as respostas durante o tempo em que estiver por aqui.

2) 10 de junho - Há três semanas almoçava em Barcelona com nosso amigo comum @ManelvBcn. Perguntei por ti. Ele me disse que estavas muito bem, muito animado e também muito sarado, porque dedicava muitas horas ao esporte. Me alegra que saibas como ocupar o tempo em um lugar tão fechado.

3)10 de junho - Foi o @ManelvBcn quem me pediu que te escrevesse. Quero que saibas que eu trouxe na viagem o Ponte de Cedra, aquele livro seu que me deste de presente no ano passado, quando almoçamos juntos. Você se equivocou na data da dedicatória e escreveu “fevereiro de 2018”, em vez de fevereiro de 2017. Estou muito triste pelo que está passando.

4) 10 de junho - Quero te agradecer por me homenagear em teu livro e por criar para ele um personagem feminino: uma fotógrafa de guerra chamada Ariadna Ribas. Sempre falei que as melhores coberturas da guerra da Bósnia Herzegovina foram feitas pelas mulheres.

5) 10 de junho - Comecei a ler seu livro na viagem de Barcelona para Sarajevo. Vim para começar um projeto do qual vou te falar quando nos encontrarmos de novo. Você vai se emocionar. E também estou aquí porque vai nascer o segundo filho de Adis Smajic, o protagonista de Vidas minadas.

6) 10 de junho - Você se lembra de Adis Smajic, não? Tinha 13 anos quando o encontrei no hospital, em 19 de março de 1996, a ponto de morrer, depois de ser ferido por uma mina. Quando soube que eu era espanhol, me contou que torcia para o Barça e me repetiu toda a escalação de gala.

7) 10 de junho - Adis perdeu um olho, uma mão e grande parte da visão do outro olho. Teve o corpo metralhado. Passou por 30 cirurgias, sete das quais na Clínica Quirón, graças à generosidade da @DKVSeguros. Hoje tem 35 anos e já é pai de Alen, de cinco anos.

8) 10 de junho - Quero te contar que foi Pilar Muro – a esposa de Publio Cordón, aquele empresário aragonês que foi sequestrado pelo Grapo em 1995 e cujo corpo nunca apareceu – quem decidiu, sem pestanejar nem por um instante, que sua empresa, a @DKVSeguros, se encarregaria de custear as cirurgias de Adis em Barcelona.

9)10 de junho - A esposa de Adis se chama Naida. É uma das mulheres mais impressionantes que conheci em minha vida. Transmite uma grande dignidade. Também sofreu o cerco de Sarajevo. Teve de cuidar de suas irmãs pequenas quando ainda era uma menina. Naida e Adis sobreviveram.

10) 10 de junho - Este é o último tweet de hoje. Espero que te agrade esta forma de nos comunicarmos. Te mando a foto de Adis e Naida, que fiz em 2007. Repara que beleza. A dignidade que envolve os seus olhares. A VIDA, em lugar da morte. Amanhã te falarei de Nalena. Boa noite.

11) 11 de junho - Bom dia, querido Raül. Sabe qual é a primeira coisa que faç, toda vez que venho a Sarajevo, desde 1995? Ponho flores na tumba de Nalena Skorupan. Um projétil se estatelou contra sua casa no dia 6 de janeiro de 1994. Dia de Reis. Dia de festejos e de bombas.

12) 11 de junho - Nalena tinha 81 dias de nascida quando a feriram. O atirador foi muito preciso, na Páscoa ortodoxa. Fui até o hospital vê-la. Respirava com dificuldade. Um médico me mostrou sua radiografia. Pareciam ferimentos superficiais. Mas Nalena morreu no dia seguinte.

13) 11 de junho - O que faz com que um bebê morra quando não tem que morrer? Me pergunto isto sempre que visito sua minúscula tumba. Nalena morreu porque estava cansada de um mundo de bombas, no qual se atira contra bebês órfãos. Seu pai havia morrido antes de ela nascer.

14) 11 de junho - Ponho as flores lá e acaricio a terra que cobre o corpinho dela. Estou contente, porque sempre choro quando me sento no túmulo de sua tia Mirsada, que estava ninando o bebê quando, naquele 6 de janeiro, o projétil destruiu a casa. Mirsada morreu na hora e caiu, decapitada.

15) 11 de junho - Num dia de outubro de 2008, encontrei um senhor vestido de preto diante do túmulo de Mirsada. Me disse que se chamava Mirsad, tio de Nalena e esposo de Mirsada. Me contou que foi ele mesmo quem colocou o corpinho de Nalena no fundo da cova, no dia do funeral.

16) 11 de junho - Enterraram Nalena de noite, porque os artilheiros que sitiavam a cidade bombardeavam os cemitérios durante os funerais. Voltei no dia seguinte e o coveiro estava aplainando os túmulos de Nalena e de sua tia Mirsada. Nunca encontrei flores no túmulo da tia.

17) 11 de junho - Em 2010 me reencontrei com Mirsad, o tio de Nalena. E ele me deu o melhor presente que poderia esperar: uma fotografia de Nalena e de sua esposa Mirsada, dias antes de serem assassinadas. Nalena teria hoje 24 anos. Imagino-a apaixonada, sorrindo, estudando... Continuo a vê-la e a sentir sua presença.

18) 11 de junho - Como dizia o bispo brasileiro Dom Hélder Câmara, nós, que trabalhamos em contato direto com o sofrimento, acabamos impregnados pela dor – e algo de nós morre em cada cobertura. É difícil contar o que acontece dentro da gente. É uma espécie de zona escura, que nunca compartilhamos com ninguém.

19) 11 de junho - Boa noite, querido Raül. É junho, como aquele junho de 1992, quando entrei pela primeira vez na Sarajevo sitiada. E num carro que não era blindado. Nunca esquecerei aquele sábado, 6 de junho. A cidade foi bombardeada com 3 mil projéteis. Foi nesse dia que fiz minha primeira fotografia de Sarajevo.

20) 11 de junho - Foram três semanas dormindo na mesma cama de casal com Santi Lyon. Escutando seus pesadelos. Sem comida, sem esperança. Tremendo, porque as bombas caíam cada dia mais perto do nosso hotel. E com medo, ainda que o medo seja o melhor antídoto contra a estupidez.

21) 11 de junho – Você deve se lembrar de que o primeiro jornalista que morreu se chamava Jordi Pujol (nada a ver com aquele seu homônimo que é a corrupção em figura de gente). Santi Lyon foi a pessoa encarregada de buscar seu corpo no necrotério e tirá-lo da cidade. Cheguei a fazer uma foto de Eric Hauck e Jordi Pujol em Sarajevo.

22) 11 de junho – Devo te confessar que, naquele momento, não queria vir para Sarajevo. Tinha coberto a guerra da Croácia. Fui um dos poucos jornalistas que conseguiu entrar em Vukovar. Vi a morte planar várias vezes sobre a chamada “Stalingrado da Croácia”, e também sobre Osijek, Vinkovci, Karlovac…

23) 11 de junho – Jantei em Belgrado com Santi Lyon. Vinha do funeral de Jordi Pujol, em Barcelona, e queria voltar a Sarajevo. Me pediu que o acompanhasse e eu disse que não. Mas passei a noite toda acordado e, no dia seguinte, estava à espera dele na recepção de seu hotel. Dali fomos juntos para o inferno.

24)11 de junho - Convertemos a morte num bacanal de números, num negócio de cifras. Escorrendo obscenidade. Falamos de milhares de mortos, de centenas de milhares de refugiados. Renunciamos a personalizar a morte. Cada pessoa que morre deixa uma história inconclusa.

25) 11 de junho – Quando formos capazes de colocar todas estas histórias inconclusas numa estante infinita, começaremos a nos dar conta de que falamos de mortos que poderiam ter sido nossos futuros inventores, esportistas, prêmios Nobel, escritores, políticos incorruptíveis…

26) 11 de junho - Em seu romance Ponte de Cendra, a personagem Dragana, de apenas 12 anos, escreve, em fevereiro de 1992: “Era coisa dos políticos, como sempre. Eu não entendia nada de política. Meu pai dizia: Quando se derem conta de que tudo isto não conduz a nada, vão parar, com certeza.”

27) 11 de junho - Mas os “caros fedelhos” (é assim que você se refere aos políticos, no livro) foram incapazes de pôr fim às tensões. Até que começaram os disparos – e Suada inaugurou a longa lista de mortos, ao ser atingida na ponte. Hoje mesmo vi o nome dela, lavrado em uma placa.

28) 12 de junho – Boa noite, querido Raül. Falamos do que ocorreu há um quarto de século, mas você não pode imaginar o quão incrustada está a dor no subconsciente dos cidadãos. Não querem falar do assunto porque intuem que não suportariam. Sentem-se sobreviventes.

29) 12 de junho - Bom dia, querido Raül. A minha especialidade está íntimamente relacionada à cobertura de guerras, de desastres, calamidades, dor, desespero, mas também da dignidade e da luta pela sobrevivência. A intensidade com que odeio a guerra e suas consequências é maior a cada dia.

30) 12 de junho - Não me interessam as matérias exclusivas empapadas de sangue. Nos momentos mais absurdos do homem, quando não existe piedade, há que reivindicar e mostrar dignidade. Mas encontrei poucas pessoas que preferissem morrer antes de matar. A imensa maioria, com certeza, mataria antes de morrer.

31) 12 de junho – Estou cada dia mais interessado nos pós-guerra e nas consequências, a longo prazo, dos conflitos armados. Por isso é que voltei a Sarajevo. Cobrir esta fase é mais complicado, porque a falta de interesse na informação te obriga a trabalhar completamente às cegas.

32) 12 de junho - O espaço imprescindível, o financiamento e o olhar autônomo para contar as histórias de dor dispersas pelo mundo, são condições que contradizem os interesses da maioria dos meios de comunicação e as promoções dos grandes investidores em publicidade.

33) 12 de junho – Viver entre as vítimas te dá outra perspectiva do conflito. Muitas vezes a gente se encontra com combatentes, sobretudo civis, que são incapazes de explicar as causas das guerras. Que morrem, ficam incapacitados ou traumatizados por razões incompreensíveis.

34) 12 de junho – Se você não sente a dor, se não escuta o grito das vítimas, o seu silêncio digno, como poderá transmitir os fatos com alguma decência? É preciso ir à guerra disposto a ser ferido por dentro. A ser capaz de fazer a mediação entre a dor e o esquecimento, entre o sofrimento e a banalidade.

35) 12 de junho – Boa noite, Raül. Fico feliz em saber que você conseguiu ler minha carta e que se emocionou. Muito obrigado por sua mensagem carinhosa. Há poucos dias te disse que sinto muito pela tua situação. Não concordo com o teu encarceramento. Espero que logo possas voltar para casa.

36) 12 de junho – Esta noite quero te falar sobre a crise no Mediterrâneo. A União Europeia se parece cada vez mais com um espetáculo de circo. É incapaz de buscar soluções para os problemas mais dramáticos. E chega sempre tarde: hoje é assim com os imigrantes. Há 25 anos era a mesma coisa com os radicais da Bósnia.

37) 12 de junho – A União Europeia tem demonstrado sua incapacidade desde o final de 2014, quando a ACNUR advertiu que enfrentaríamos a mais dramática crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial, e que deveríamos preparar um plano de emergência sério, que evitasse o sofrimento gratuito e os afogamentos.

37) 12 de junho – As centenas de milhares de refugiados de hoje fogem das guerras na Síria, no Afeganistão, no Iraque, na República Centroafricana, de regimes brutais como os da Eritréia e do Sudão, e também de situações de violência jihadista na Nigéria, em Níger, na Líbia etc. Fogem, como nós também fugiríamos.

38) 12 de junho – Em 2015, a União Europeia tinha que ter habilitado uma rota terrestre segura para os refugiados que queriam chegar à Europa, a partir da Turquia. Teria sido fácil: pela Bulgária e pelos Bálcãs, até chegar à Áustria. Isso teria evitado que as máfias ficassem com as economias dos refugiados.

39) 12 de junho - Com milhares de euros no bolso – pois chegaram a pagar até 2.000 euros por cabeça para cruzar o mar da Turquia até Lesbos -, estas famílias de classe média, muitas das quais fugiam de guerras brutais, poderiam ter começado uma nova vida com maior segurança econômica.

40) 12 de junho – Chegamos a esta situação porque a maioria dos cidadãos silencia diante da falta de sensibilidade de seus governantes e diante da dor alheia. Talvez até acreditemos que estamos fazendo muito, apenas por reclamar ou por participar de alguma manifestação, de vez em quando.

41) 12 de junho – Somente com mudanças estruturais sérias nos países de origem é que se poderá frear essa avalanche. Após viver na miséria por gerações, muitos jovens – 250 milhões de africanos, hoje, têm menos de 20 anos – decidiram se arriscar para chegar a um Primeiro Mundo idealizado.

42) 12 de junho - A primeira coisa que se deve saber é que a União Europeia é a principal exportadora de armas leves do mundo. E suas multinacionais – junto com as dos Estados Unidos, China, Índia, Rússia etc. – se dedicam a corromper governantes para conseguir contratos com preços cada vez mais elevados.

43) 12 de junho - A riqueza do subsolo transformou muitos países ricos em regiões pobres e violentas. A maior parte da população não usufrui dos beneficios dessa riqueza. E os governantes continuam em seus cargos, porque o nosso sistema democrático age com cinismo e sem qualquer escrúpulo.

44) 13 de junho – Bom dia, Raül. Hoje, 629 imigrantes se dirigem a Valência: 100 no barco original de resgate, o Aquarius, e o resto em dois barcos militares italianos. De novo, o destaque é para o drama. Todos opinam. Com certeza não haverá manchete nenhuma quando as pessoas forem expulsas.

45) 13 de junho – Os meios de comunicação “decidem quem morre e quem vive”, como disse Mike Duffield, especialista britânico em solução de conflitos. E converte os espectadores em “prisioneiros de uma linguagem reduzida, pobre e limitada”, como escreveu Kapuscinski.

46) 13 de junho - Você se lembra do que ocorreu com Aylan Kurdi, o menino sírio de três anos que se afogou, no início de setembro de 2015, junto com sua mãe e o irmão menor? Centenas de apresentadores de televisão e de rádio, e outras dezenas de colunistas do mundo inteiro consumiram varias horas e preencheram incontáveis páginas com suas impressões sobre o fato.

47) 13 de junho – Aquilo foi uma orgia de declarações, um concurso de engenhosidade literária, de prosa piegas e de postagens cínicas e hipócritas. É mais digno manter silêncio quando se desconhece o que é a guerra e seus dramas.

48) 13 de junho - Mas será que ninguém imaginava como uma criança se afoga? Antes de Aylan se afogar, dezenas de imagens de crianças afogadas, de diferentes nacionalidades, já tinham sido divulgadas. E também houve outras imagens depois que o menino sírio foi convertido na vítima mais midiática. Que desastre!

49) 13 de junho - Era todo mundo buscando a frase mais chamativa sobre Aylan, mas ninguém arranjava tempo para falar do escandaloso mercado de armas liderado pelos países da União Europeia, junto aos Estados Unidos, Rússia e China, mercado este que financia os nossos bancos (na Espanha, encabeçados pelo Santander).

50) 13 de junho – Eu teria gostado se pudesse dizer a Abdula Kurdi, o pai do menino afogado: “Sei que você disse que só te resta morrer, depois de enterrar Aylan, seu outro filho Galib, de 5 anos, e sua esposa Rihan, mas tenta pensar positivo. A morte de Aylan não foi em vão.”

51) 13 de junho – “Você perdeu sua família, mas abrandou o coração de ferro da nossa União Europeia. A morte de seu filho pequeno permitiu que fossem aceitos, neste continente de […] chamado Europa, 160 mil refugiados, em vez de 40 mil. Este é o triunfo do pequeno Aylan.”

52) 13 de junho – Boa tarde, Raül. Te escrevo rápido porque tenho um jantar com uma amiga que passou toda a guerra em Sarajevo. Vivia num prédio onde havia famílias muçulmanas, ortodoxas, católicas, ateias - e também uma mulher judia que falava ladino, o antigo espanhol.

53) 13 de junho – Nos reuníamos debaixo de nuvens de fumaça. Você sabe muito bem como se fuma por aqui. Até as mulheres grávidas fumam. Pois durante a guerra se fumava o dobro, ou o triplo. O melhor agrado que se podia fazer a alguém era trazer caixas de cigarro. O americano, então, dava para trocar por cinco no mercado negro.

54)13 de junho – Hoje nasceu Tarik, o segundo filho de Adis Smajic, que esteve à beira da morte em 1995 por culpa de uma mina. Amanhã vou com ele ao hospital, para ver e fotografar o recém-chegado. É tão emocionante quanto há cinco anos, quando nasceu Alen. Este, aliás, acaba de perder seu reinado!

55) 13 de junho – Te recomendo este documentário da série Imprescindíveis (quem é imprescindível? Ou todo mundo, ou ninguém!), da TVE espanhola. Tem uma hora de duração, mas vale a pena assistir. Há cinco anos, uma equipe me acompanhou a Sarajevo, para ver o nascimento de Alen. É comovente.

Link do documentário: http://www.rtve.es/alacarta/videos/imprescindibles/imprescindibles-gervasio-sanchez-testigo-guerra/3332991/

55) 14 de junho – Bom dia, Raül. As guerras são um grande negócio. Não existe um único período da história sem guerras. Os mercadores da morte se ocupam em preparar contratos a milhares de quilômetros. São governos, empresas, bancos, homens bem vestidos aplaudindo e gemendo de prazer.

56) 14 de junho – Governos como o da Espanha, convertidos em grandes potências do mundo em venda de armas. O “pacifista” José Luís Rodrigues Zapatero sextuplicou a venda de armas entre 2004 e 2011. Saltamos de um patamar de 405 milhões de euros para 2.437 milhões de euros em vendas.

57) 14 de junho – Em 2008, denunciei este comportamento em meu discurso na entrega dos Prêmios Ortega y Gasset. Os eleitores do PSOE custavam a crer que o seu maravilhoso presidente estivesse multiplicando sem parar o volume do negócio. Me viam como um crítico perigoso.

58) 14 de junho - Os meios de comunicação olhavam para o outro lado. Os pró-socialistas não falavam do assunto. Preocupavam-se apenas em divulgar os temas positivos da agenda de Zapatero. “Melhor a gente vender do que a concorrência”, me disse um alto executivo do PNV há alguns anos.

59) 14 de junho – Vimos bem a forma como jornalistas influentes criticavam o PP de Mariano Rajoy pelos contratos bélicos com a Arábia Saudita, que tinham sido firmados com seu adorado ex-presidente socialista. Mariano Rajoy, por sua vez, não ficou atrás e continuou a ampliar os benefícios.

60) 14 de junho – Vender armas é o único grande negócio que soubemos fazer, em plena crise econômica. Milhares de pessoas sem trabalho, enquanto nossas empresas armamentistas multiplicavam contratos. Uma vergonha sem paliativos, que somente algumas ONGs especializadas denunciaram.

61) 16 de junho – Bom dia, querido Raül. Às vezes me perguntam se a revolução tecnológica melhorou o jornalismo. Sempre digo que teria gostado de ter correio eletrônico, WhatsApp, Twitter e Facebook durante o cerco de Sarajevo. Teria transmitido tudo com mais contundência.

62) 16 de junho – Teria sido menos perigoso, também. Na Sarajevo sitiada, só existia meia dúzia de telefones via satélite das grandes agências. Cada um tinha de esperar a sua vez. E isso podia demorar várias horas. A Reuters cobrava 40 dólares o minuto. A France Presse, 40. E a AP, 25. A Eurovisão cobrava 20 dólares, assim como a BBC.

63) 16 de junho – Durante a guerra eu tinha que percorrer sete quilômetros, do centro da cidade até o edifício da televisão bósnia, para transmitir minha crônica. Pedia carona quando não tinha carro. Atravessar a Avenida dos Franco-Atiradores. Extremamente perigoso.

64) 16 de junho – Creio que hoje não se faz um jornalismo melhor. A tecnologia joga contra qualquer reflexão. Há uma obsessão desmedida por ser o primeiro a transmitir as notícias. Para dizer que se está na linha de frente, quando na verdade mal se chegou aos arrabaldes. As fraudes são um mau negócio.

65) 16 de junho – Sim, é verdade que as imagens e as crônicas chegam ao público com grande velocidade, muitas vezes em tempo real – num “direto” que chega a ser obsceno, pois se desvia da honestidade com que devem ser tratados os seres humanos que circulam pelos campos de batalha.

66) 16 de junho – Convertemo-nos em estrelas midiáticas, obcecados por navegar nas redes sociais; e reduzimos as vítimas a uma simples equação numérica, que se perde na habitual fragmentação de cifras que apresentamos, de forma cínica, nas comemorações anuais.

67) 16 de junho – Durante uma entrevista, me perguntaram: - Você vive da guerra? Na verdade, foi mais uma afirmação do que uma pergunta. Respondi que odeio a guerra, mas que é necessário cobri-las e denunciar as atrocidades, para que o público seja informado.

68) 16 de junho – Num dia de junho de 1992, um cidadão de Sarajevo nos interpelou: “Estão esperando os mortos?”. Comecei a gritar e a insultá-lo. No dia anterior, um companheiro esloveno havia sido morto e uma fotográfa alemã fora gravemente ferida. Dias depois, um jornalista francês perdeu a perna.

69) 16 de junho – Minutos depois, começaram a cair morteiros. Houve vários mortos e dezenas de feridos. Fizemos fotografias brutais. Não gosto de falar de minhas intimidades, mas aquele dia quase morremos mesmo. A onda expansiva de uma explosão me atirou no chão. Tivemos sorte.

70) 16 de junho – Horas depois, ainda muito cansado, pensei nas palavras daquele homem. O que haveria de pensar de nós? Estávamos esperando os mortos? Estávamos tentando documentar? Éramos testemunhas? Ou vivíamos da morte?

71) 16 de junho - Andei remoendo muito aquilo nos meses seguintes. Um dia tomei uma decisão: parei de mostrar os mortos e me concentrei nos vivos. Cheguei à conclusão de que os mortos são o menor problema da guerra. Te matam, te velam, choram por ti e te enterram. E os vivos, o que acontece com eles?

72) 16 de junho – O que acontece com essas crianças que vêem suas vidas serem sacudidas para sempre? O que ocorre com esta mulher, minha vizinha, que não saiu de sua casa durante quase quatro anos por puro terror, O que acontece com os que ficam mutilados e cegos? Com os que, anos depois, ainda têm pesadelos?

73) 16 de junho – Creio que minha decisão de não fotografar mortos me obrigou a me concentrar nos vivos e em sua luta pela sobrevivência. E tive que me esforçar muito para conseguir que as imagens tivessem mais força testemunhal. Meu objetivo, na guerra, é fotografar a dignidade.

74) 17 de junho - Bom dia, querido Raül. Quero falar da Biblioteca de Sarajevo, que foi queimada em 26 de agosto de 1992, com bombas incendiárias, pelos ultranacionalistas sérvios. Cinco dias depois consegui entrar lá dentro, graças a um molecote de cinco anos chamado Edo.

75) 17 de junho – Fui acompanhado do jornalista Alfonso Armada, que batizou Edo de “guardião das cinzas”. O garoto nos ajudou a nos movimentarmos pelo interior da biblioteca, contornando os obstáculos, em um autêntico mar de escombros. Os livros, pura cinza, desmoronavam com as correntes de ar.

76) 17 de junho – Juan Goytisolo escreveu: “A imagem tomada por Gervásio Sánchez capta perfeitamente o quadro de horror e desolação do lugar. Foi um mais um memoricídio na lista que as guerras inserem na história inumana da humanidade. Chamas sobre a memória coletiva do povo bósnio.”

77) 17 de junho – A armação metálica da cúpula de vidro, pela qual caíram os foguetes, parecia uma gigantesca teia de aranha, pela qual se filtrava a luz. Os pórticos do pátio interior mostravam apenas seu fino trabalho de gessaria, envolto em um amontoado de escombros e destroços.

78) 17 de junho – Juan Goytisolo recordava o que dissera um poeta aos seus inquisidores: “Podeis queimar meus livros, mas não o espírito que eles contêm.” Os conflitos começam com a desumanização do contrário. Convertendo o vizinho, o companheiro de trabalho, o amigo, no inimigo.

79) 17 de junho – As pontes de convivência começam a desmoronar antes dos tiros começarem. Pessoas que viviam juntas e compartilhavam tudo acabam em trincheiras distintas quando a insensatez se impõe. E não há como voltar atrás. Isso ocorreu nos Bálcãs e em Ruanda, nos anos noventa.

80) 17 de junho – Quando é que uma guerra acaba? Eu suspenderia todos os alunos que, num exame de seleção, me dissessem que a guerra da Bósnia-Herzegovina acabou no dia 14 de dezembro de 1995, com a assinatura do acordo de Dayton. Eles viriam protestar: “É o que diz a Wikipédia, professor.”

81) 17 de junho – E eu lhes diria: “Querida aluna, querido aluno: as guerras não acabam quando diz a Wikipédia, e sim quando se superam suas consequências.” Hoje, na Bósnia, cadáveres de executados continuam a ser exumados e a ser enterrados em Srebrenica, a cada 11 de julho. Ano após ano.

82) 17 de junho – Já comemoramos um quarto de século desde o início daquela guerra cruel, que destruiu a convivência. Em 2020 falaremos dos 25 anos de Dayton. A paz é melhor do que a guerra – como é melhor a vida que a morte. Ainda que a paz seja sempre imperfeita.

83) 17 de junho - Boa noite, Raül. Hoje é meu último dia em Sarajevo, uma cidade que conheço melhor do que Córdoba, minha terra natal, e do que Barcelona e Tarragona, as cidades onde cresci e me tornei homem, e melhor do que Zaragoza, onde vivo há mais de três décadas, por imperativo do amor pela minha família.

84) 17 de junho. A cidade vive uma primavera turística. Segundo me disse uma amiga que trabalha no Ministério do Turismo, o número de visitantes cresce 20% a cada ano. Ao longo desses dias, vi grandes grupos de asiáticos (malaios, sul-coreanos, chineses, japoneses), turcos e búlgaros.

85) 17 de junho – A Bósnia-Herzegovina necessita de uma grande injeção econômica que lhe permita superar os estragos do desemprego, que é muito elevado. O que me preocupa é que as potências vizinhas – como a Sérvia, muito prejudicada economicamente, e a Croácia – têm muito pouco interesse por seus vizinhos muçulmanos.

86) 17 de junho – Dar as costas ao vizinho pobre é deixar de aproveitar as possibilidades de desenvolvimento e de consumo, o que acarretaria uma melhoria econômica na situação de toda a região. Veja como os macedônios são rápidos: já pactuaram com a Grécia uma mudança do nome de seu país!

87) 17 de junho – Estão sendo pragmáticos, com o intuito de entrar na Comunidade Europeia. Assim como a Albânia, que há 20 anos era o país mais pobre da Europa. A população fugia em massa. Visitei o país no ano passado, durante uma viagem: a melhora é ostensiva. Os imigrantes retornaram e vêm montando pequenos negócios e hostels.

88) 17 de junho – A Bósnia tem três milhões e meio de habitantes. Seu PIB é de 4.356 euros e ocupa a 101ª posição na lista de 196 países. É um nível de vida bem baixo, se o comparamos com os países da Comunidade Europeia, inclusive os mais pobres. O salário mínimo é de menos de 400 euros.

89) 17 de junho – A palavra mais usada na Bósnia é corrupção - generalizada e produzida com a conivência do poder político. Corrupção que foi gerada durante a guerra e com os negócios obscuros que muitos desses políticos fecharam. Alguns cidadãos garantem que é preciso pagar inclusive para conseguir um trabalho.

90) 17 de junho – Como você sabe, os Acordos de Paz de Dayton impuseram à população duas entidades políticas: a Federação da Bósnia-Herzegovina, que agrupa – dizem – as comunidades de origem bósnia e croata; e a República Srpska (de origem sérvia). Essa dupla institucionalidade é inviável.

91) 17 de junho – Seria lógico que o país caminhasse para a unificação administrativa, porque o atual sistema não é eficaz. É um quebra-cabeça territorial, com corporações policiais distintas, com o poder judiciário separado e com influência dos partidos nacionalistas em ambas as partes.

92) 17 de junho – Querido Raül, hoje me despeço. Esta acabou sendo uma longa carta, escrita durante uma semana inteira e diretamente de Sarajevo, uma cidade que você conheceu, em tempos de total obscuridade. Em 90 e poucos tweets, tentei contar-te histórias que fizeram de mim uma pessoa melhor. Boa noite e boa sorte!

Leia a versão integral da carta de Gervásio Sánchez para Raül Romeva na versão online, disponível em Portal Villaweb.







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