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Sobre a gratidão e a resposta ao agradecimento: de nada

Por Roberto Patrus-Pena, Colunista de Plurale

A gratidão é uma virtude rara. No Evangelho de Lucas, por exemplo, depois que Jesus curou os leprosos, somente um voltou para agradecer-lhe. Jesus lhe perguntou: “Todos os dez foram purificados, não foram? Então, onde estão os outros nove?” O Tratado da Gratidão, de Santo Tomás de Aquino, é sempre lembrado quando tratamos do tema. Segundo ele, a gratidão tem 3 níveis:

- o primeiro nível é o do reconhecimento intelectual, cerebral, cognitivo. É meramente formal.

- o segundo nível é o dar graças a alguém por algo que ele tenha feito. É o agradecimento propriamente dito.

- o terceiro é o nível da retribuição. Aquele que é agradecido se sente comprometido com quem agradece. É o nível do vínculo.

Antonio Nóvoa, educador português, associa a linguagem e a língua aos níveis de agradecimento. Segundo ele, no inglês e no alemão, o agradecimento se dá no primeiro nível: Zu Danken, em alemão; thank you, em inglês.

No segundo nível, o do agradecimento, fala-se merci, em francês. Dar uma mercê, é louvar, é dar graças. Assim também no espanhol, muchas gracias. Ou, no italiano, gracie. Dou-lhe uma graça pelo que você fez por mim.

Segundo Nóvoa, somente em português se agradece no terceiro nível da gratidão. Dizemos “obrigado”. Fico obrigado perante você. Te fiz algo, você agradece, e eu me sinto vinculado a você, devendo uma obrigação.

O que Tomás de Aquino e Antonio Nóvoa não abordaram foi a resposta ao agradecimento. É a resposta ao agradecimento a contribuição deste artigo sobre o tema da gratidão.

Há três níveis de resposta ao agradecimento. O primeiro nível é o protocolar, uma mera resposta, de caráter formal. Em inglês informal, “don’t worry”; “no problem”, “okay”. Em São Paulo, é comum ouvir: “Imagina”. Em alemão: “nichtz su danken”.

O segundo nível é o afetivo. Estou feliz em fazer o que fiz por você e o fiz com prazer. Em espanhol: “con gusto”; “con mucho gusto”; “es mi placer”. No inglês, “you are welcome”.

O terceiro nível é o mais elevado e de novo voltamos ao português. Quando alguém diz “obrigado”, a resposta habitual é “de nada” ou “por nada”. Ou ainda: “não há de quê”. Quem responde ao agradecimento desobriga aquele que está grato. Essa resposta é a mais elevada. Ela desobriga a pessoa grata da dívida de gratidão. É como se dissesse: você não está obrigado de nada! Não há dívida!

Responder “De nada” ao agradecimento converte uma mera formalidade na demonstração clara de que o gesto merecedor de gratidão foi realizado de coração. Talvez tenha sido essa a resposta de Jesus ao leproso que foi curado e voltou para lhe agradecer: “Levante-se e vá! A sua fé fez você ficar bom!”. Tal resposta é a dispensa do vínculo, a demonstração amorosa de que não há dívida. Ao contrário daqueles que orientam responder ao “obrigado” a maliciosa frase “eu sei que você faria o mesmo por mim”, como quem lembra ao agraciado a sua dívida, responder o “De nada” é o gesto fraterno de quem faz do amor um serviço gratuito.

Temos visto muitas pessoas agradecerem com a palavra “Gratidão”. Que também possam agradecer o agradecimento com um amoroso e agora significativo “De nada”.







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