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Brumadinho, uma tragédia anunciada

Repórter de Plurale conversou com sobreviventes de Mariana e fala da tristeza e revolta diante de novo acidente provocado pela Vale em Minas Gerais

Por Hélio Rocha, Repórter de Plurale

De Minas Gerais

Pensar o desastre de Brumadinho é reviver memórias ainda latentes para quem esteve no jornalismo social e ambiental nos últimos anos. Ele ainda é imensurável em seus danos sociais e certamente será mais devastador em vidas humanas que Mariana e, possivelmente (ainda não confirmado, mas torcemos por isso), menos severo ao meio ambiente que o primeiro, que atingiu o Rio Doce, ao contrário deste, que a princípio não atingirá a bacia do Rio das Velhas através do Paraopeba, o que poderia levar ao São Francisco. No entanto, nada compensa possíveis mais de 200 vítimas fatais (estão falando em até 300 desaparecidos, na manhã deste sábado, dia 26. Nove mortes já confirmadas, cerca de 150 desaparecidos, e, infelizmente, esta contagem só vai aumentar com o passar dos dias.

De “desaparecido” para “morto”, nesse tipo de desastre, vai uma grande diferença oficial, que costuma resultar em mera formalidade prática. Esta é a sensação de quem vem cobrindo esse desastre, que pode ser entendido como um só. O desastre da mineração brasileira, entregue à iniciativa privada sem o devido cuidado e fiscalização desde os anos 1990. Mostra ao país que tanto modelos mais estatistas quanto privatistas de exploração de riquezas naturais, necessária ao crescimento econômico do país, estão sujeitos a imperfeições e, pior, à corrupção e leniência que resulta em mais sofrimento imposto ao povo brasileiro. Este povo que não sabe o que é “andar de cabeça erguida”, como diria certo ex-presidente, já há seis anos, caminhando para uma década.

Relembrando a jornalista e memorialista bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, vencedora do prêmio Nobel de 2015 por um trabalho que, entre muitas obras, retrata a vida dos desvalidos de Chernobyl, “um desastre dessas proporções deixa marcas que não se apagam. A radiação atingiu corpos e levou as vidas de muitos ucranianos, mas principalmente ficou impregnada nas almas daqueles que ficaram”. É exatamente sobre isso que tenho me debruçado nesses primeiros dias de desastre. Como ficam as almas dos mineiros, atingidos, solidários e temerosos de um novo desastre?

Já temos uma Chernobyl para chamar de nossa. Nossa mineração já matou centenas de pessoas, destruiu um manancial importante e ainda pode contaminar outro (ainda não está descartada a possibilidade de o Paraopeba contaminar o Rio das Velhas e chegar a Três Marias, região onde nasce o São Francisco). Nesse sentido, os mineiros passam a viver o medo de tocarem suas vidas à sombra de dezenas de barragens de minério espalhadas pelo estado.

“Como vamos colocar a cabeça no travesseiro para dormir?”, questionou a este repórter o líder Antônio Gonçalves, que representa Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo nas negociações com a Vale e a Samarco. “A sensação de insegurança se soma à indignação pela falta de reparação. Não devolveram nossas casas, muitos não se recuperaram economicamente, as multas não vêm sendo pagas e a empresa pressiona para voltar a operar”, resume Antônio.

Mais um sobrevivente da tragédia de Mariana, que prefere ficar no anonimado - perdeu tudo no rompimento da Barragem da Samarco, há três anos - poderia ter perdido o filho em Brumadinho. Ele iria na noite de quinta-feira passar a noite de sexta-feira e o fim de semana com amigos em sítio na região atingida. Deixou para viajar na tarde do dia seguinte e recebeu a notícia do estouro de nova barragem quando estava em casa, em segurança. No entanto, em seguida ao alívio veio a angústia da busca pelos amigos que, assim que não atendiam ao telefone, entravam na conta dos possíveis 200 a 300 desaparecidos. Alguns, a fonte e o filho localizaram. Outros, não. Segue o drama que não se encerra desde novembro de 2015.

Esta fonte, atingida pelo rompimento da Barragem de Fundão, da Samarco, desabafou: “Muito mais vítimas em Brumadinho do que em Mariana. Sabemos que o caminho da lama não para por aqui. Nós, de Bento Rodrigues e região, somos reféns da tragédia há três anos e três meses. Inúmeras e intermináveis reuniões que nos impedem o curso normal da vida. Não podemos nos ausentar. Estamos sempre à disposição e espera de retornos ou comunicados da empresa ou assessoria. Ainda vivemos de esperança, aguardando a reparação integral, que nunca chega. São prazos, trâmites e burocracias intermináveis para recuperar o que foi perdido em poucos minutos. E agora, sofremos vendo nossos irmãos de Brumadinho viverem o que também passamos. Hoje temos parâmetros estabelecidos com valentia pelo MP de Mariana, na pessoa do Dr. Guilherme (Meneghin, procurador responsável pelo caso). Não havia legislação ou jurisprudências específicas para resguardar os direitos dos atingidos. Fomos exemplo pro mundo e seguimos lutando. Unimos o nosso pranto aos irmãos de Brumadinho e estendemos nossas mãos para que eles iniciem a longa jornada da reparação. Lamentamos e nos solidarizamos com eles pelas muitas vidas perdidas. Bem vindos ao barco da esperança e da fé onde nos unimos nesse mar de lama, sem arrefecer as nossas forças.”

Os homens públicos se posicionaram. O presidente Jair Bolsonaro (PSL) deu breve pronunciamento (como lhe tem sido de hábito) deslocando militares de Juiz de Fora, Zona da Mata, para a Região Metropolitana onde está Brumadinho. Depois, deu palavra a seu porta-voz, o general Otávio Rego Barros, mais esclarecedor quanto aos procedimentos de abordagem do Governo federal por meio do Exército Brasileiro, experiente em gestão deste tipo de crise desde que passou pelo terremoto do Haiti, igualmente com grande contingente de tropas de Juiz de Fora. O governador Romeu Zema (PN), por sua vez, disse que o estado vai trabalhar na recuperação dos corpos e buscará ser o mais eficaz possível nesta tarefa.

A situação, porém, não agrada aos movimentos sociais, que pedem dos órgãos públicos ações rápidas de prevenção e punição. Esta é a opinião do Movimento dos Atingidos por Barragens (Mab), que conversou na tarde desta sexta-feira (25) com esta reportagem de Plurale e disse, na palavra de seu membro da coordenação geral, Joceli Andriolli, que “o que ocorre agora é o resultado do absurdo que são dezenas de audiências públicas realizadas na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) para quase nada, com uma ou outra mudança na legislação (a principal delas, a proibição de novas barragens erguidas a montante, o que facilita deslizamentos em avalanche em caso de rompimento), mas sem a devida punição e exigência de monitoramento das barragens já construídas, com imediata reparação e/ou desativação daquelas periclitantes”. Na mesma linha vão tanto o Greenpeace quanto o especialista em engenharia de barragens Gustavo Mello Cunha, que cobraram fiscalização e punição, muito mais que mudanças na lei, em entrevistas concedidas à Globonews. Segundo Gustavo inclusive, “a lei já existe e é rígida o bastante, mas há muita leniência, especialmente nos laudos de segurança para autorização de operações”.

Tudo conflui com o que vem sendo apurado por Plurale, assim como está sintetizado no livro Desastre de Mariana, da jornalista Cristina Serra, leitora e parceira dessa revista. Foram anos de laudos mal emitidos, autorizações obtidas com conversas aqui e ali, ganhos econômicos como justificativa para vistas grossas à negligência com a segurança.

O trabalho de Plurale em site segue e virá mais detalhado durante a semana e na próxima edição de Plurale em Revista.





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