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Vida é substantiva, não aposto

Por Nélson Tucci, Colunista de Plurale (*)

Quanto custa a indenização de uma propriedade destruída? O cálculo é trabalhoso, porém simples e factível. Agora vamos pensar em termos de patrimônio imaterial. Segundo a Unesco (em português - Organização para a Educação, a Ciência e a Cultura das Nações Unidas), o Patrimônio Cultural Imaterial ou Intangível compreende as expressões de vida e tradições que comunidades, grupos e indivíduos em todas as partes do mu ndo recebem de seus ancestrais e passam seus conhecimentos a seus descendentes. Exemplos: O Círio de Nazaré, do Pará, o frevo pernambucano etc. Em termos monetários não dá pra calcular.

E o sonho? Quanto custa um sonho?


Persegui a luz? / Mal segui-a, tendo / onde o sonho pus, /
uma flor morrendo
...” (Alphonsus de Guimaraens Filho).

Esta citação de Tânia Du Bois, em seu blog, vem bem a calhar.

É possível mensurar o valor do sonho de Santos Dumont, materializando o desejo de o homem voar – ao longo de sua linha do tempo? Quanto de ideias, projeções, delírios e fantasias se gastou? Alguém consegue montar uma fiel equação sobre tudo o que passou pela cabeça de um menino de apenas 4 anos de idade, da sua preparação à primeira corrida de kart, em 1978, em Le Mans, na França? E desta estreia, aos 18 anos, até o Grande Prêmio de San Marino, em Ímola, na Itália, aos 34 anos, na fatídica corrida de 1994? Equipamentos esportivos à parte, como mensurar a quantidade de adrenalina produzida? E, ainda que isto fosse possível, qual o peso exato desta adrenalina no coração da pessoa em questão? E para a legião de fãs que Ayrton Senna conquistou? Para o país? Para o mundo?

Há coisas tangíveis em nossa vida. A priori, tudo o que se pode tocar é tangível – daí a expressão valor tangível, mensurando “a coisa”. Mas e aquilo que não é “coisa”, de que trata o substantivo feminino?

Quanto custa o sonho de um menino, louco por uma bola de futebol? E se esse menino nascer em Três Corações, no interior das Minas Gerais, for pra Bauru junto com os pais, e depois jogar em uma dos maiores times do país? E se, de quebra, esse menino der tão certo que será convocado pra Seleção Brasileira, ganhar o campeonato mundial de futebol e desabar em choro, em seus parcos 17 anos, no peito amigo do goleiro Gilmar? Como “monetizar” (palavra da moda) estas lágrimas? Como trazer “a valor presente” o que esse menino ainda haveria de ganhar vida afora? Afinal, como se calcula o valor tangível e o intangível de Pelé, que se transformou em algo muito além de um esportista?

Qual o valor do sonho de alguém que trabalhou 30, 40, 50, às vezes a vida inteirinha para, na velhice, conseguir um naco de terra no interior pra erguer uma casa com uma horta nos fundos, um jardim sempre florido a contemplar? Quanto custa o sonho de se montar uma pousada, em lugar bucólico, para saborear os últimos anos de sua vida – que se imagina sejam ainda suficientes para a purificação da alma e pacificação com a natureza?

Como é que se quantifica o sonho de um menino de rodar 2.000, 3.000 Km para jogar no time do Zico? Que sonhos passam pela cabeça de um gurizinho de 14, 15 anos, de vestir a camisa rubro-negra, ser aplaudido em um Maracanã lotado ou de ter a mesma sorte do Vinícius Jr e brilhar na Europa? Se não dá para calcular o sonho de um menino, tampouco multiplicar isto por 10.

Sonhos não são coisas. A vida precisa ser substantiva, não um aposto entre uma tragédia e outra, porque não é coisa que se compra. A vida só vale se os sonhos forem sustentáveis, ainda que imateriais.

(*) Nelson Tucci é jornalista, com extensão em Meio Ambiente pela ECA-USP; pós-graduado em Comunicação e Relações com Investidores pela FIPECAFI (FEA-USP), diretor da Virtual Comunicação, palestrante e colaborador da Plurale.





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13 comentários | Comente

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Christian Travassos |
Que dias difíceis, Nelson. Bom ter um texto como o seu para aliviar um pouco a carga. Se agrega ainda mais dor por tantas perdas, injeta um pouco de lirismo num cenário cada vez mais materialista; uma dose de poesia na aridez nossa de cada dia.

Eurico Matos |
Uma vida não tem preço. O povo brasileiro está acostumado à impunidade, mas vozes se levantam contra policiais que matam marginais em uma troca de tiros e tem apoio até de aguns políticos. Mas se cala comovido com o ocorrido em Mariana, Brumadinho e até mesmo no Flamengo. E a impunidade gera milhares de mortes, mesmo as que previstas. E populares ainda ficam a pedir liberdade a um corrupto que com suas benesses e investimentos externos e sem retorno desviou nossos impostos que seriam para a saúde, educação e segurança, causando intermináveis filas, acomodação dos doentes no frio chão dos corredores e incontáveis mortes por falta de assistência ou medicação. Uma vida não tem preço, mas continuará sem valor enquanto nossos professores se preocuparem mais com partidarismo e menos com a verdadeira educação e enquanto a justiça (hoje com letras minúsculas) não atuar com a responsabilidade que lhe cabe, na minha opinião.

Antonio Kanda |
Belíssimo texto pra reflexão. Parabéns, Nelson Tucci!

Marcos Carille Lovelli |
E saber que simples medidas poderiam ter evitado o que estamos chamando de tragédia.

Cláudia Sena Trivella |
Sempre lúcido e preciso em seus textos, parabéns Nelson Tucci !

Sandra Mimoto Torres |
Belo texto de Nelson Tucci, em oposição aos tristes eventos que ocorrem neste país. Sonhos interrompidos pela ganância e incompetência de pessoas que não deveriam estar em postos com poder de decisão.

Renato Albuquerque |
Os homens precisam sonhar cada vez mais, realizar cada vez mais e pensar 'fora da caixa', pois é disso que a humanidade está precisando, como bem lembra o ótimo texto de Nelson Tucci.

Subeida |
O valor de um sonho! Sonho que foi interrompido e no sonho de ser alguém virou um minuto de silêncio ????????

Jacqueline |
Sensacional!!!! Sonhos são para serem realizados, não dizimados.

João Garcia |
Na mosca! O sonho como algo intangivel e belo, capaz de ser destruído pela força da grana, como disse o mano Caetano. Uma força bruta e fora de controle, infelizmente.