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Como aumentar a representatividade feminina no mundo corporativo

Problemas como falta de saneamento básico e educação, principalmente para mulheres negras, foram destaques na roda de conversa conduzida por Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS)

Por Giane Gatti, Especial para Plurale

De São Paulo / Fotos de Divulgação / CEBDS

Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas. Esse é o desafio da Agenda 2030 da ONU no que se refere ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 5.

E chegar lá é fundamental para termos um mundo mais próspero, sustentável e justo.

Esse foi o tema do primeiro debate da série Quebrando Muros, em 2019, organizado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds) no Wework Nações Unidas, em São Paulo, nesse Dia Internacional da Mulher.

A presidente do Cebds, Marina Grossi, ressaltou a importância de atingirmos esse objetivo em 11 anos.

“Temos muito a fazer, mas há coisas que já foram realizadas e estamos no momento de avançar essa pauta. Nossos valores culturais e éticos já não combinam com uma mulher passiva. Mas ainda há muito gargalo”.

Ainda segundo Marina, “a gente acredita que nossa atuação estratégica por meio da liderança tem um impacto grande e as parcerias estão nisso como, por exemplo, com o Senai”.

E continua: “dados globais mostram quem só 5% das CEOs no mundo são mulheres. No Brasil nem há essa estatística. Temos o número de 16% de mulheres em cargos de confiança aqui, mas não CEOs”.

E destaca ainda que “a mulher em conselhos de administração traz mais competitividade para as empresas, porque ela carrega também a diversidade. Então não são só mulheres, são todos os gêneros, a diversidade, todas as gerações...Isso só promove competitividade num mundo complexo em que tem que ter respostas rápidas”.

Saneamento básico: vilão silencioso da prosperidade

“Falar de banda larga, tecnologia, smartphones é uma delícia. Tem um appeal maravilhoso. Falar de energia renovável, carro elétrico é uma delícia. Para falar de esgoto é difícil dar uma motivação. E é legal falar de água e de esgoto, porque isso afeta nossa vida de forma tremenda e ninguém sabe”, garante Tereza Vernaglia, CEO da empresa de saneamento BRK Ambiental.

Tereza compartilhou dados de uma pesquisa feita pela própria companhia em parceria com o Instituto Trata Brasil e Pacto Global.

“Falar de saneamento é abordar mulheres, direitos humanos e negócio. É um problema que repercute na saúde, na educação e na renda”, afirma Tereza.

Seguem alguns dados da pesquisa:

- Brasil tem a maior potencial hídrico do mundo, mas 100 milhões, quase metade da população, não tem acesso à coleta de esgoto;

- Há 200 milhões de aparelhos celulares, de norte a sul, mas 35 milhões de brasileiros não têm acesso à água potável (população do Canadá);

- Num ranking sobre qualidade de saneamento entre 200 países, estamos apenas no 112º lugar, no entanto somos a 9ª economia do mundo;

- 1 em cada 7 mulheres não recebe água em sua residência;

- 1 em cada 4 não dispõe de sistema de coleta de esgoto;

- mais de um milhão de mulheres não têm banheiro em suas residências e milhões de escolas públicas não possuem banheiro;

- o índice de afastamento por diarreia ou vômito em meninas de até 14 anos é 76% maior do que a média de toda a população

“Aqui começa o gap de gênero. Na medida em que a gente tem o maior índice de diarreia, a universalização do saneamento representaria uma redução de 72,2 milhões de horas perdidas pelas mulheres com problemas de saúde. Quem leva às crianças aos postos de saúde normalmente é a mulher. Ela despende mais do seu tempo a ir ao posto. Perde horas de trabalho e para estudar”, revela Tereza.

Usando dados do Enem (cerca de 8 milhões de pessoas) descobrimos que as mulheres sem acesso à esgoto têm nota 25% menor. Isso significa meninas sem acesso ao Sisu e a bolsas nas universidades federais.

“A gente está perversamente condenando aquela mulher, que já sofreu com saúde a também ter restrições da sua mobilidade social.”

Tereza fala sobre a importância dos investimentos pesados em saneamento, assim como aconteceu com a telefonia há 20 anos.

“Precisamos de um marco regulatório. De leis que deem a possibilidade, tranquilidade, transparência e segurança para quem vai fazer investimentos da ordem de R$ 20 bilhões. Por isso que é um esforço público-privado para tirar o país literalmente do esgoto”, conclui Tereza.

Diversidade gera lucratividade

Nina Silva, fundadora do Movimento Black Money, presente na Lista Forbes das Mulheres Mais Poderosas de 2019 e eleita uma das 100 pessoas afrodescendentes com menos de 40 anos mais influentes do mundo pela MIPAD – Most Influential People of African Descent e ONU, se emocionou ao comentar os dados exibidos pela CEO da BRK Ambiental.

Ela lembrou que sua avó e mãe passaram pelas mesmas dificuldades ainda presentes na vida de tantos brasileiros. “Minha mãe fez até a 4ª série e hoje tem uma filha na Forbes. A gente precisa do mínimo, como saúde e educação, para fazer grandes mudanças”, destacou.

Nina destacou que a mulher negra, o maior grupo étnico e de gênero do País (27% da população), ganha apenas 40% do valor do salário de um homem branco com a mesma escolaridade.

“Empresas com maior diversidade de gênero lucram 21% a mais. Com diversidade étnica racial, lucram 33%. Não investir em equidade é burrice. Joga-se dinheiro no lixo por não pagar mesmos salários, deixa-se de ganhar por não incluir diversidade em seus quadros”, afirmou.

E disse ainda que quando não se inclui, não se desenvolve. As mulheres não recebem mentoria, não tem as mesmas condições de se desenvolverem profissionalmente.

“Os homens têm apoio e motivação para chegar na liderança”, afirma.

Nina destacou a importância da tecnologia não redução das desigualdades.

“Com a conexão, com a virtualização, a gente consegue entender necessidades similares em vários lugares. A tecnologia tem que ser fácil, de baixo custo e poder ser reaplicada. Por isso que toda tecnologia tem que ser social. A gente não tem mais a possibilidade de criar sistemas, automações sem impacto social. Falamos de tecnologia na área de saúde, de reconhecimento facial, para segurança, mas precisamos entender que essa tecnologia tem que ser alcançada pelo maior número de pessoas e não aumentar o fosso, como é o caso da inteligência artificial. Mas aí é uma outra fala em palestras que eu costumo trabalhar bastante, que é essa parte de algoritmos e de responsabilidade social”, afirma.

Nina prefere "equidade de oportunidades" à "igualdade", porque “não partimos do mesmo ponto para sermos iguais. E ser igual é bem chato também. Ninguém quer ser igual. Mas precisamos de equidade e ela só vem com intencionalidade".

Ainda segundo Nina, a equidade de oportunidades só vem com intencionalidade. “Não adianta maior empregabilidade, mas mantendo a riqueza nas mesmas mãos. Não adianta querer chegar rápido nas soluções e isso só vem com a diversidade”.

Ambiente saudável e demonstração de números

Questões relevantes como a conciliação de carreira com o desejo da maternidade e a disparidade salarial entre homens e mulheres também permearam a conversa. Flavia Vergili, diretora de RH da WeWork na América Latina, falou da necessidade de excluir o viés de gênero, raça e outras singularidades dos processos de seleção e de promoção nas empresas por meio da mudança da cultura das altas lideranças.

“Hoje na América Latina, nos quadros de trabalho da WeWork, temos 53% de mulheres em cargos desde diretoria até júniores. Não foi uma questão de mudar o processo de seleção, mas de instruir os gestores e colaboradores sobre a positividade de temos maior diversidade nos quadros. Mostrar os números e o impacto.”







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