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PLURALE EM REVISTA - EDIÇÃO 65 - Em Santa Catarina, ponto para as baleias

Por Nícia Ribas, de Plurale

De Garopaba (SC)

Fotos do Instituto Australis, Karina Groch e Berna Ribas

Ameaçadas de extinção, as baleias saíram vitoriosas da reunião da Comissão Internacional Baleeira (CIB), ocorrida em setembro em Florianópolis. Países como Japão, Islândia e Noruega defenderam a flexibilização da moratória imposta à caça das baleias em vigor desde 1986. Mas perderam por 47 votos contra 21. A Declaração de Florianópolis reafirma o banimento da caça comercial de baleias em águas internacionais. São permitidas apenas a caça para fins científicos e a caça aborígene de subsistência praticada por povos tradicionais em determinadas regiões.

“A caça comercial não é mais uma atividade econômica necessária e a caça com fins científicos não é mais uma alternativa válida para responder às questões científicas, dada a existência de abundantes métodos de pesquisa não letais”, diz a Declaração. O argumento dos caçadores em potencial foi o crescimento da população desde a proibição pela CIB.

Na mesma ocasião, a proposta brasileira para a criação do Santuário de Baleias do Atlântico Sul foi novamente rejeitada pela Comissão Baleeira Internacional. O texto alcançou a maioria dos votos válidos, 60%, com 39 a favor, 25 contra e três abstenções, além de duas ausências. Ficou abaixo da proporção de 75% necessário para aprovação. Após a votação, o ministro do Meio Ambiente, Edson Duarte, agradeceu o apoio recebido e garantiu que o país não abdicará da ideia.

O Brasil discute a criação do santuário desde 1998 e sempre reapresenta a proposta ao plenário da Comissão. Ao longo dos anos, o texto foi refinado e ganhou força com apoio da Argentina, Uruguai, África do Sul e Gabão. Em todas as votações, o projeto conseguiu a maioria dos votos, mas nunca os 75% necessários.

Cada vez chegam mais baleias ao litoral brasileiro

Municípios como Imbituba e Garopaba, com suas praias paradisíacas, no litoral sul de Santa Catarina, recebem cada vez maior número de baleias da espécie franca no período de junho a novembro. Foi registrado um crescimento anual de 12% aproximadamente. Os mamíferos marinhos, que chegam a medir de cinco a oito metros, vêm das águas geladas da Patagônia em busca de um lugar tranquilo e confortável para dar à luz. E depois ficam por ali amamentando e brincando com seus filhotes para encanto dos moradores e turistas. Em setembro, no auge da temporada reprodutiva, através de sobrevoos, foram registrados 284 indivíduos.

O Programa de Pesquisa e Conservação das Baleias Franca foi criado em 1982 e atualmente é mantido pelo Instituto Australis. Desde o seu mestrado, há 20 anos, a bióloga Karina Groch (foto abaixo), diretora de Pesquisa do Instituto, mantem pontos de observação na região. Atualmente são 10 pontos, com seis funcionários e 15 voluntários fazendo o monitoramento a partir da terra. “Pelas calosidades de cada uma podemos identificá-las e chegamos a dar-lhes nomes e números. Algumas voltam para cá a cada três anos. Uma baleia pode ter até nove filhotes”, informa Karina. Ela explica que os japoneses não tem interesse na baleia franca, mas sim nas da espécie minke, cuja carne comercializam. O interesse comercial nas baleias franca seria pelo seu óleo.

Do seu ponto de monitoramento na Enseada do Porto, o biólogo Fábio Pereira, funcionário do Instituto Australis, mantem-se atento, juntamente com sua equipe, munidos de potentes binóculos e máquinas fotográficas. “Este ano o movimento está bem maior, elas vêm para cá para ter seus filhotes e ficam por aí amamentando-os”, diz ele, sem esconder a satisfação com a profissão que escolheu.

O Instituto Australis presta serviços de consultoria sobre preservação ambiental para o Porto de Imbituba e com isso obtém recursos para viabilizar a observação e estudo da baleia franca. Os cetáceos escolhem a região por três motivos, segundo a bióloga: “nosso litoral recortado que garante mais proteção, a temperatura amena da água e a ausência de predadores como orcas e tubarões.”

Turismo em alta

A temporada das baleias no sul catarinense costuma incrementar o turismo. Caminhadas culturais guiadas para observação no Costão da Vigia atraem turistas para a avistagem da baleia franca no período de junho a novembro. No entanto, a recente proibição do turismo embarcado fez cair esse movimento. Para Karina, o turismo embarcado bem controlado poderia gerar lucros e fazer crescer ainda mais a empatia dos humanos com os cetáceos. “As baleias pertencem à megafauna carismática, isto é, animais de grande porte que têm um forte apelo para o público, por sua aparência ou docilidade”, explica ela.

Em Caravelas, Bahia, o Banco dos Abrolhos assiste com entusiasmo ao retorno das baleias jubarte para sua temporada de reprodução. O turismo de observação de baleias, oferecido por 10 operadoras, recebeu em 2018 mais de 10 mil turistas entre julho e outubro. Para comemorar 30 anos do Projeto Baleia Jubarte, patrocinado pela Petrobras, foi realizada a Semana Cultural da Baleia Jubarte, de 29 de outubro a 3 de novembro. Entre as principais atividades realizadas por turistas estão mergulho para visualização da vida marinha e a observação de baleias. Essas atividades geram renda e valorizam a preservação dos cetáceos.

Moradores da Região curtem as visitas anuais e acabam se apaixonando pelas baleias e seus filhotes. Alguns, como Maria Bernadete Mader Ribas munidos de máquinas fotográficas, tripés, binóculos, tornam-se observadores voluntários, ficando horas na vigia até conseguir as melhores fotos. Bernadete, moradora de Garopaba, vibra com as melhores avistagens e possui um arquivo com mais de cinco mil fotos. Ela tem até um blog sobre o tema: Fotos da Berna.

Abrolhos luta para crescer

Há seis anos tramita o processo de ampliação do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos. A área cobre apenas 1,8% do maior banco de corais do Atlântico Sul – refúgio da biodiversidade marinha brasileira, com espécies endêmicas, ameaçadas, vulneráveis e em recuperação, como a baleia jubarte. Além do incremento ao turismo, a área é fundamental para a manutenção de estoques pesqueiros e da garantia do equilíbrio ambiental.

O Instituto Baleia Jubarte lançou a campanha #MaisAbrolhos durante o IX Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação (CBUC), em Florianópolis. Uma moção foi aprovada por unanimidade e foi encaminhada para a Presidência da República, Ministério do Meio Ambiente (MMA) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio.

Na ocasião, o presidente do Instituto Baleia Jubarte, Eduardo Camargo, informou que diversas instituições estão dando seu apoio para que esse processo seja concluído o mais rápido possível: “Focamos animados com o compromisso do Presidente do ICMBio, assumido publicamente durante o IX CBUC, de realizar as Consultas Públicas logo após as eleições de outubro. Pretendemos colaborar com ele e o MMA para conscientizar a sociedade e os demais órgãos de governo de que essa ampliação é boa para todos, dos pescadores artesanais ao setor de Turismo", disse.

Engajado na campanha #MaisAbrolhos, José Truda Palazzo - que na época da entrevista para Plurale, no fim de 2018, ainda era vice-presidente do Instituto Augusto Carneiro, do Rio Grande do Sul , não tendo ainda assumido cargo no Ministério do Meio Ambiente- demonstrou a sua “indignação com a lerdeza do processo.”

Desde 1º. de janeiro, através das redes sociais, as pessoas começaram a manifestar-se junto ao novo Governo, exigindo a conclusão desse processo.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), existem mais de 15,3 mil áreas marinhas protegidas no mundo, cobrindo o equivalente a 7,2% da superfície total do oceano. Somente no Brasil, até 2020, deve-se proteger pelo menos 10% dos mais de 8,5 milhões de quilômetros de litoral, segundo a meta 11 de Aichi estabelecida pela Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB-ONU).







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