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Coalizão da sociedade civil em prol do desenvolvimento sustentável na Irlanda

Ideia é promover as melhores práticas e inspirar organizações a adotarem iniciativas para o atendimento da Agenda 2030

Por Flávia Ribeiro, Colunista de Plurale, de Dublin/ Irlanda ( *)

Incluir a sociedade civil no debate e no processo de educação para o desenvolvimento sustentável é um desafio cada vez maior e crucial em diversos países. Na República da Irlanda, foi criado o movimento “Coalizão 2030”: uma aliança entre mais de 60 grupos da sociedade civil com o objetivo de ampliar o engajamento de stakeholders e fomentar o compartilhamento de ideias inspiradoras para o alcance das metas dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Lançada oficialmente em 2017, a Coalizão 2030 é composta por membros representantes de diversas instituições da sociedade civil, como ONGs nacionais e internacionais, e tem feito um apelo ao governo e corporações para que as metas previstas pela ONU sejam alcançadas no País. No último ano, a rede tem crescido com o suporte de organizações e redes como a Dochas, que possuem dezenas de associados, e fóruns de stakeholders interessados no avanço das políticas públicas para ampliar a implementação do Plano dos ODS 2018-2020, que compromete o Governo a estabelecer um Fórum Nacional das Partes Interessadas dos ODS.

Na opinião de Jennifer Thompson, coordenadora do Coalizão 2030 (foto acima), o grande desafio é promover a conscientização da população sobre os benefícios de uma comunidade, uma empresa, uma nação em adotar atitudes em prol da sustentabilidade. “Sem dúvida, a força da Coalizão 2030 está na união de todas essas vozes, mas o poder transformador será o entendimento da sociedade civil sobre os ganhos no rumo ao desenvolvimento sustentável”, comenta Jennifer.

A proposta do Coalizão 2030 é apresentar recomendações de como empresas e governo podem avançar no trabalho que vem sendo realizado. O movimento funciona como se fosse um grande observador do governo, propondo melhorias para os fóruns e comitês, que discutem a questão da sustentabilidade no País. Afinal, o que pode ser aprimorado atualmente? “O plano de implementação das metas pelo governo poderia ser fortalecido. Lançado em 2018, a previsão é que haja uma revisão do plano de metas pelo governo da Irlanda em 2020”, informou Jennifer. “Ainda temos o grande desafio de incluir representantes de movimentos de direitos humanos como LGBT e comunidades do turismo no País”, complementou.

Desenvolver um relatório com indicadores que demonstrem transparência no progresso do alcance das metas, e a relação econômica e o impacto disso na sociedade é realmente desafiador. Na Irlanda, cinco metas são prioridades (metas 1, 5, 8, 12 e 13) que tratam sobre questões sensíveis como a equidade de gênero e a regulamentação das condições de trabalho. “Atualmente, temos mais de 100 mil irlandeses vivendo na faixa da pobreza ou exclusão social. Existe uma série de questões como a crise imobiliária que necessitam de apoio e do governo”, alertou.

Em 2017, o PIB nominal per capita na Irlanda foi de US $ 62.085 tornando-se o sétimo país mais rico do mundo, enquanto o PIB com paridade de poder de compra foi de U$ 72.529, colocando-o no sexto lugar no ranking global. Apesar disso, os dados mais recentes do escritório central de estatísticas da Irlanda mostram que uma em cada seis pessoas no país está em risco de pobreza, mesmo com a recuperação econômica.

Recentemente, o governo realizou o terceiro Fórum Nacional de Stakeholders dos ODS em Dublin. Os chamados “SDG Champions” são organizações ou líderes inspiradores para disseminação de modelos de melhores práticas em diversos segmentos. Um dos temas do encontro foi “Comércio Justo” que traz reflexões sobre melhores preços, condições de trabalho decentes e termos de troca justos para agricultores e trabalhadores. A sociedade civil foi convidada para participar do processo e cerca de 10 instituições serão eleitas para um programa de capacitação com duração de 12 meses a partir de junho de 2019.

Atualmente, a Irlanda é um mosaico de controvérsias. O que mais impressiona é ver como o País é hoje sede na Europa de grandes gigantes de tecnologia, que geram muitos empregos através de incentivos fiscais, mas que ainda funciona como uma grande “fazenda” com características muito peculiares.

Um País que conquistou sua independência há menos de 100 anos e com uma história marcada por períodos críticos como a Grande Fome em 1850 e a enorme recessão de 2008. Na última década, a abertura do mercado para imigrantes e a atração de novos investimentos fez com que a “ilha da esmeralda” experimentasse uma nova realidade: como gerenciar os problemas sociais com o crescimento econômico avassalador?

Um celeiro de oportunidades: a Irlanda precisa enfrentar questões cruciais como melhorias na oferta de habitação para população de baixa renda, alto desperdício de alimentos, reciclagem de resíduos e condições decentes de trabalho. Para atender essa agenda, o Coalizão 2030 possui cerca de 10 comitês divididos em dois grandes públicos: Public Engajament (engajamento da sociedade civil) e Policy working group (grupo dedicado à advocacia social para influenciar políticas públicas). Os grupos se reúnem mensalmente ou bimestralmente, de acordo com a necessidade, e promove campanhas com o lema “Go green for global goals”.

Uma das recomendações da Coalizão 2030 é o desenvolvimento de um segundo Plano Nacional de Implementação dos ODS, que deverá ser entregue até ao final de 2019, com uma visão de longo prazo para o alcance dos resultados da Agenda 2030 entre 2020 e 2030.

Baixo nível de conscientização: grande oportunidade para Comunicação da Sustentabilidade

Em julho passado, um relatório anual de progresso chamado “Together 2030” reuniu a análise de 43 ONGs sobre os pontos do plano de governo para o alcance das metas das Nações Unidas. Uma característica essencial para a implementação da Agenda 2030 é a participação ativa e inclusiva das partes interessadas na negociação e adoção de iniciativas.

De acordo com o relatório “Together 2030”, a participação da sociedade civil está intimamente ligada ao baixo nível de conscientização dos ODS na Irlanda. Segundo as estatísticas mais recentes da Comissão Europeia, a Irlanda tem um dos níveis mais baixos de conscientização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável na Europa. Apenas 36% dos pesquisados afirmaram já terem ouvido falar dos ODS em comparação a 73% na Finlândia, 62% em Luxemburgo, seguidos de 61% dos respondentes nos Países Baixos.

Segundo Jennifer, essa é uma sinalização da necessidade de uma comunicação efetiva e massiva para a população sobre o tema, além de representar uma grande oportunidade para a educação do público na promoção da conscientização e apropriação do conceito de sustentabilidade no dia a dia. “Necessitamos de um plano abrangente de educação e comunicação para ampliar o engajamento das pessoas na Irlanda”, afirmou.

Como monitorar o progresso? Índices de Progresso Social 2019

A Irlanda lançou seu Índice de Progresso Social no último dia 25 de fevereiro, baseado no desempenho dos ODS. Atualmente, o País ocupa o 11º lugar entre 15 países da União Europeia. O “Measuring Progress: The Sustainable Progress Index 2019” classifica 15 países comparáveis da UE com base na entrega dos ODS. O trabalho foi proposto pela Social Justice Ireland, um think tank independente para advocacia social, que faz análises sociais para promoção e desenvolvimento eficaz de políticas públicas em prol de um futuro sustentável na Irlanda.

Mais informações:

Sobre o trabalho da Coalizão 2030, acesse o website https://www.ireland2030.org/coalition-2030/

Plano Nacional de Implementação dos ODS 2018-2020:

https://www.dccae.gov.ie/en-ie/environment/topics/sustainable-development/sustainable-development-goals/Pages/National-Implementation-Plan-2018---2020.aspx

Fórum Nacional das Partes Interessadas dos ODS:

https://www.dccae.gov.ie/en-ie/environment/topics/sustainable-development/sustainable-development-goals/stakeholder-forum--/Pages/default.aspx

Social Justice Ireland:

https://www.socialjustice.ie/

*Jornalista e consultora na área de sustentabilidade.





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