Atenção

Fechar

Destaques

Rio de Janeiro, uma cidade abandonada e sitiada

Por Sônia Araripe, Editora de Plurale

Foto de Stéphani Sani/ Especialmente cedida para Plurale

Era para ser apenas um evento como outros tantos. Boa parte do trabalho de um jornalista envolve comparecer a eventos diversos : seminários, eventos, entrevistas e lançamentos de livros. Foi este o motivo,para a ida até o Leblon e Barra da Tijuca nesta segunda-feira, dia 8 de abril.

Por ironia da vida, apenas um dia após o meu aniversário. Energias renovadas....a força de tantas mensagens lindas da família e amigos.

O primeiro evento da Barra foi bem cumprido. Seminário sobre seguros e resseguros, em Hotel na Praia. O tema foi justamente a questão do clima e prevenção de catástrofes. Estiveram lá especialistas, como estrangeiros e também representante do Centro de Operações da Prefeitura do Rio, espécie de "coração pulsante" com controle eletrônico, por telões e equipamentos de tudo o que acontece na Cidade do Rio.

Alexandre Caderman, Chefe-Executivo de Resiliência e de Operações do COR, discursou sobre o que chamou de "eficiência premiada" do Centro, que, segundo ele segue padrões internacionais, os chamados protocolos.

Não foi isso que nós, moradores do Rio, percebemos nesta segunda-feira de fortíssima enxurrada. Foi a maior chuva de 22 anos na cidade, segundo dados do Sistema Alerta Rio.

Muito pouco adiantaram equipamentos de última geração, radar e satélite: não houve aviso com antecedência pelo COR e Defesa Civil sobre as fortes chuvas.

Nem de meteorologistas. Detalhe que faz TODA a diferença: esta mesma tromba d´água atingiu as cidades de Volta Redonda e Barra Mansa neste fim de semana. Seria fácil prever a chegada ao Rio e a intensidade.

Em alguns bairros cariocas, este alerta foi dado por sms no celular por volta de 14h .Mas, na grande maioria do Rio, este alerta só veio mesmo quando a chuva já tinha começado, em torno de 18h30.

O twitter oficial do COR, Alerta Rio e Prefeitura muito pouco informavam.

O radar oficial ficou parado das 18h30 até de madrugada.

Canais alternativos e a imprensa procuravam suprir esta lacuna total de informações confiáveis.

Em alguns bairros, choveu em quatro horas mais de uma vez e meia o esperado para o mês inteiro, segundo a Climatempo. De acordo com medições do Cemaden (Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), em duas estações da cidade a chuva acumulada em 24 horas passou de 300 milímetros. É quase o triplo da média para o mês.

Levamos um susto quando nos direcionamos para o evento do Leblon e já havia vários carros boiando na Rua Jardim Botânico e alagados na Lagoa Rodrigo de Freitas.

Sinal de que a tal da "chuva atípica" citada pelo nosso Prefeito Marcello Crivella é muito mais frequente do que as autoridades pensam.

Há poucos dias teve uma outra enxurrada deste tipo, com mortes.

Não com tanta água, mas tão forte quanto. Mas nada foi feito, nenhuma ação estratégica foi pensada a tempo.

Só deu tempo de nos abrigar em lugar alto e esperar. Esperar, esperar, esperar.

Levamos SETE horas parados na Lagoa !!

Felizmente em lugar seguro, alto, com comida, tomada para carregar celular e grande o suficiente para abrigar outros motoristas.

Muitos não tinham comido nada desde o almoço. Cerca de 30 crianças na faixa de seis a sete anos de escola na Gávea ficaram "ilhadas" com o ônibus escolar. Também se abrigaram no Lagoon, complexo de cinema e restaurantes na Lagoa, onde era o antigo Estádio de Remo. Pareciam nem entender o que estava acontecendo: brincavam e gritavam de pega-pega como se fosse um grande recreio forçado.

A jovem pedagoga Stéphanie Sani, saiu da Gávea, onde trabalha na Escola Parque, por volta de 18h30. Pegou o ônibus troncal que faria uma curta e rápida viagem até o Humaitá, onde iria encontrar com o namorado. Na Rua Jardim Botânico, altura da Pacheco Leão, o ônibus ficou retido. "A enxurrada foi muito forte. As pessoas abandonavam os carros e buscavam refúgio. A gasolina de uma van próxima começou a vazar...vi alguns de meus alunos sendo resgatados de barco dos bombeiros e não pude fazer nada. Foi o caos, uma loucura. Nunca pensei que viveria este dia", relatou à Plurale. Chegou em casa em torno de meia noite.

Não foi a única. Os relatos de medo, angústia e perigo passado por cariocas de diferentes bairros e idades estão por todas as partes. Gente que passou mal presa no Túnel Rebouças, outros que ficaram com água pela cintura em Botafogo ou Tijuca. Uma cachoeira desceu o Alto da Boa Vista...a encosta da Grajaú-Jacarepaguá também foi atingida...e o pior foi na região do Horto, na Zona Sul.

A crise uniu todos em um misto de sentimentos de revolga, angústia e muito medo.

Volta e meia chegavam informações desencontradas sobre riscos de enxurradas, água com correnteza como se fosse um rio, deslizamentos, ciclovia Tim Maia, na Avenida Niemeyer, derrubada (a quarta queda desde a inauguração)....parecia a fúria da "mãe-natureza" diante deste tal homo sapiens que parece não dar sinais coerentes.

A senhora que tinha ido em um aniversário no Shopping Rio Sul com a neta, ficou no meio do caminho: o táxi que estavam foi atingido por volta de 21h na encosta que fica atrás do shopping. Avó, neta e motorista morreram. Em um requinte de desorganização do poder público, a família é que precisou acionar a Polícia Civil, ir atrás das imagens do shopping até chegar ao local do acidente. E não estamos falando de comunidades mais distantes, como em Guaratiba ou Campo Grande. O local fica entre Botafogo e Copacabana. Atrás de um dos maiores shoppings da cidade.

Ao todo, dez mortes já confirmadas.

A sirene não tocou onde três moradores da Comunidade da Babiolônia, no Leme, morreram soterrados. Segundo a Prefeitura e Defesa Civil porque não tinha chovido tanto "quanto o protocolo estipulava".

Não era melhor alertar mesmo que o protocolo ainda não indicasse?

Que investimentos estão sendo feitos pelas encostas...para evitar catástrofes....para drenar água...??

Os dados mostram a queda acentuada nos investimentos tão essenciais. De acordo com denúncia da imprensa, houve redução de 77% das despesas com controle de enchentes nos últimos cinco anos pela Prefeitura do Rio., Economizaram com a nossa desgraça.

O Rio é um terreno totalmente peculiar, com encostas, praias, lagunas ....e MUITO lixo!

Nunca vi a cidade tão suja. Há lixo por todas as partes. Pessoas morando nas ruas ....árvores correndo o risco de cair....bueiros entupidos....enfim, uma "casa" linda de berço, mas sem conservação.

Os cerca de 750 mil bueiros e 700 mil caixas não são limpos desde que esta gestão começou.

Não adianta ficar empurrando a culpa para o prefeito anterior. Os moradores querem - e MERECEM - ser atendidos imediatamente.

Nota do Observatório do Clima destacou em nota a sua solidariedade com os cariocas, lembrando que este foi o terceiro evento deste tipo no Rio apenas este ano.

E que Todos esses extremos climáticos, cada vez mais graves e frequentes, mostram que o clima do Brasil mudou e atingiu um novo normal, em que o que era raro ficou comum.

Nosso Prefeito, o Bispo Marcelo Crivella, disse, em entrevista à TV Globo, que a "chuva foi atípica" e que tomaram as providências necessárias a tempo.

Será?

A cidade - e seus moradores - falam por si só.

Um só pequeno bote de bombeiros tentava resgatar pessoas ilhadas no Jardim Botânico. O tal do sistema "de ponta e premiado" do COR pouco ajudou: os alertas e informações eram vagos e desencontrados.

O Prefeito anuncia que agora o socorro ficará em alguns lugares críticos. Motos, barcos, botes, drones, helicópteros e até jetskis poderiam ter ajudado a melhorar o caos.

Desde que houvesse comando e plano de contingência a partir do COR. Sem informação, sem direcionamento, ninguém sabia o que fazer.

Parecia um "deus-nos-acuda".

Imprensa cumpriu o seu precioso papel de bem informar.

Parabéns aos incansáveis coleguinhas.

Ficamos - felizmente - bem diante de tantas tragédias. Em local alto, seguro. E quem não ficou? Quem teve fome, sede, frio, medo...

Tempos extremos.

Ao longo do isolamento, vimos muito ao longe alguns funcionários da CET-Rio. E no caminho de volta para casa, em um períplo cruzando toda a cidade, apenas uma equipe..

Não havia UMA SÓ indicação no twitter e mídias oficiais sobre melhores caminhos. Cruzamos dados de contas que cobrem este tipo de informação com o Waze e dicas de taxistas.

Foi na base da "tentativa-e-erro": cruzamos todas as praias da Zona Sul - inacreditavelmente também alagadas - até chegar na altura de alcançar o Aterro do Flamengo. Também alagado. Foi preciso retornar, seguir pelo Túnel Velho, avançar por dentro de Botafogo e chegar no Túnel Santa Bárbara. Já de madrugada.

Se o Prefeito não sabe, sabemos nós: faltou gerenciamento de crise, plano de contigência, administração pública, capacidade para administrar esta que já foi uma "Cidade Maravilhosa".

Bueiros entupidos, encostas sem conservação, ruas esburacadas e sem drenagem e - em pleno Século 21 - sem informação.

Ninguém sabia ao certo a dimensão desta enxurrada.

Estamos, sem dúvida, abandonados e sitiados.

Por favor, Sr. Prefeito, não culpe a natureza.

Não merecemos tanto.





Ir para lista de artigos e notícias


1 comentário | Comente

 Digite seu comentário

*preenchimento obrigatório



Nelson Tucci |
Ontem assisti ao prefeito do Rio falando, na tv. Que coisa lamentável ! Assinou o atestado de incompetência. Por dignidade aos eleitores que lhe confiaram a missão de pilotar esta grande cidade, deveria renunciar. Seria digno, honesto.