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Juliana Estradioto: a pesquisadora brasileira de 18 anos que tem se destacado no Brasil fica em primeiro lugar em Feira de Ciências nos EUA

Jovem cientista desenvolveu uma membrana biodegradável a partir da casca da macadâmia, que pode ser usada em curativos de pele, substituindo o material sintético

Por Ana Carolina Maia, Especial para Plurale

O céu é o limite. Ou será que para a gaúcha de Osório, litoral do Rio Grande do Sul, Juliana Davoglio Estradioto, 18 anos, desenvolver conhecimento é algo que de fato não tenha limite? A estudante do Instituto Federal de Educação Tecnológica do Rio Grande do Sul (IFRS) acaba de chegar da maior feira de ciências do mundo, a Intel ISELF (International Science and Engineering Fair) com o prêmio de primeiro lugar na categoria Ciência dos Materiais. A mocinha desbancou mais de 1,8 mil inscritos de diversos países.

Emoção na Premiação da Intel ISELF (International Science and Engineering Fair)

Desde o ano passado, Juliana vem brilhando, ganhou o primeiro lugar na categoria nível médio o Prêmio Jovem Cientista 2018, promovido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A estudante desenvolveu um filme plástico biodegradável a partir da casca do maracujá, que substitui as embalagens comuns de mudas de plantas, que geram altas quantidades de resíduos na agricultura. Por se tratar de um material orgânico não danifica a raiz da muda como os plásticos convencionais fazem, o projeto é inovador e ecologicamente sustentável.

Plurale esteve presente na premiação do ano passado e conversou com a cientista, que na ocasião contou à publicação que seu estudo aborda o aproveitamento de materiais orgânicos, bem como contribui com a sustentabilidade, além de ser mais econômico.

Ana Carolina Maia (de Plurale) e Juliana Estradioto se conheceram na entrevista em 2018, no Prêmio Jovem Cienteista, em Brasília.

Currículo de Peso

A jovem cientista sempre estudou em escola pública e ingressou no curso de Técnico em Administração Integrado ao Ensino Médio do Instituto Federal de Educação Tecnológica do Rio Grande do Sul (IFRS), em 2015. O primeiro contato com os laboratórios foi através de um trabalho sobre agricultura local, onde há uma grande produção de maracujá, a partir daí, Estradioto se apaixonou pela ciência e deu início à vida de pesquisadora. “Quando realizei o estudo, percebi que os resíduos gerados na colheita do maracujá não tinham uma destinação correta, foi aí que eu achei que poderia criar um projeto para amenizar esse problema”, lembra a estudante.

O projeto de pesquisa deu tão certo que Juliana já conquistou cerca de 40 prêmios científicos nacionais, 5 internacionais, mais de 30 menções e votos de congratulações. Participou de feiras de ciência nos Estados Unidos e a última façanha da cientista: se tornou a primeira jovem brasileira da história a ser selecionada para acompanhar a cerimônia do Prêmio Nobel. E tem mais, devido ao primeiro lugar na Feira de Ciências dos Estados Unidos, a estudante irá batizar um asteroide com o seu nome.

Plástico Biodegradável da casca do Maracujá

O plástico criado por Juliana reduz a poluição causada pelos sacos plásticos convencionais, se decompõe em 20 dias e não precisa ser retirado no momento do plantio. O estudo foi desenvolvido com orientação da professora Flávia Santos Twardowski Pinto. O filme do maracujá, por enquanto, é apenas um experimento. A jovem cientista ainda precisa analisar se é viável patentear do produto. “Quero testar como seria o processo em larga escala, pois o método de produção é custoso”, explica.

Casca de Macadâmia como alternativa aos plásticos e curativos de pele

A casca de noz macadâmia é um resíduo da agroindústria, do processamento da noz, produto que tem como destino o lixo. A membrana da macadâmia possui características, como flexibilidade e resistência, que permitem a utilização em curativos para pele queimada ou machucada. Outro uso possível é na elaboração de embalagens para o recolhimento de fezes de cachorro, em substituição ao plástico.

“Primeiro peguei a casca de noz e produzi uma farinha que utilizei como se fosse realmente o alimento para os microrganismos, responsáveis por produzir a membrana celulose bacterianas, um material biológico que é incrível”, comemora.

Persistência e Dedicação

Juliana sabe que sua trajetória até aqui não foi fácil e faz questão de reforçar o quanto é importante mostrar para a população que a pesquisa no Brasil não é restrita apenas ao ensino superior, mas acessível ao ensino médio tecnológico. “Nós, alunos de escolas públicas podemos sim transformar o mundo, o jovem brasileiro tem capacidade de desenvolver ciência e tecnologia”, afirma. O reconhecimento do trabalho de Juliana é uma conquista de todos: do IFRS, da orientadora que sempre a apoiou e a incentivou, da família que sempre acreditou no potencial da filha e acima de tudo da força de vontade e determinação: “É muito gratificante receber esses prêmios, eu jamais pensei que isso poderia acontecer comigo e tenho certeza que nós podemos mudar o mundo através do conhecimento e pesquisa”, destaca.

Dificuldades de fazer pesquisa no Brasil

De acordo com Juliana Estradioto, realizar pesquisas no país é algo difícil, principalmente na questão de infraestrutura, os recursos são escassos, as instituições são carentes de materiais de laboratório. A estudante conta que no instituto em que estudava não havia laboratórios e ela tinha que se deslocar para outra cidade para conseguir fazer as análises do projeto. “E outras coisas eu também não conseguir fazer justamente pela falta de infra, esse foi um dos maiores empecilhos, já tirei do meu bolso grana pra comprar reagentes, enfim é uma novela. E o sucesso do meu trabalho é devido à paixão pelo que eu faço”, explicou.

A pesquisadora lembra ainda que a instituição de ensino concedeu bolsa de pesquisa para custear o projeto e dar andamento ao estudo. “Eu tive uma professora que acreditou em mim, eu estava numa instituição federal apostando em mim, e realmente tentando promover o meu projeto, eu acredito no meu trabalho, acredito que temos que ter forças para cuidar do meio ambiente, pois senão a gente não vai ter onde viver”, observou.

Lugar de Mulher também é na Pesquisa

Jovem, prodígio, cientista e feminista. Juliana defende que o lugar das mulheres é onde elas bem quiserem, bem como nos laboratórios desenvolvendo ciência e tecnologia. A estudante relembra que na infância não teve estímulos e nem foi incentivada a gostar de matérias como ou ciências, que muitos consideravam “matérias de meninos” e reconhece que as mulheres vivem em uma sociedade machista e muitas vezes são desacreditadas da capacidade que tem.

No entanto, hoje, após se consagrar como pesquisadora, a gaúcha torce para que muitas meninas da idade dela e mulheres se sintam encorajadas a realizar sonhos, a buscarem seu caminho, que pode ser muito bem na ciência: “Por mais que as oportunidades sejam escassas, as mulheres têm que acreditar no seu potencial, de se olharem no espelho todo dia e pensarem que são capazes de fazer tudo, até pesquisa”, reflete.





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