Atenção

Fechar

Artigos e Estudos

PLURALE EM REVISTA , EDIÇÃO 66 - "Fui demitido, devo partir para um negócio próprio?"

Por Marcus Quintella, Colunista de Plurale (*)

O brasileiro é um povo empreendedor por excelência e a abertura de um negócio próprio faz parte do sonho de quase a metade da população, segundo pesquisas especializadas, ainda mais no momento atual de transição política, crise econômica e desemprego elevado no país.

Em 2018, segundo pesquisa do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), principal estudo da atividade empreendedora no mundo, a taxa total de empreendedorismo no Brasil foi de 38%. Isso significa dizer que existem cerca de 38 empreendedores, iniciais ou estabelecidos, em cada grupo de 100 brasileiros pertencentes à população economicamente ativa (idade entre 18 e 64 anos). Assim, podemos estimar que possuímos em torno de 50 milhões de empreendedores no país.

Diante desses números animadores, muitas pessoas demitidas de seus empregos logo pensam em utilizar suas indenizações, rescisões e FGTS para abrir um negócio próprio. A questão é a seguinte: deve-se abrir o próprio negócio por que houve a identificação de uma oportunidade de mercado ou pelo fato de estar sem emprego?

Outro estudo do GEM para o caso brasileiro aponta um aumento do empreendedorismo por oportunidade, vis-à-vis ao declínio dos novos negócios abertos por necessidade. A identificação de uma oportunidade de mercado foi a motivação de 62% de novos empreendedores brasileiros para a abertura do próprio negócio, enquanto que 38% dos entrevistados disseram ter empreendido por necessidade, em virtude da falta de outras possibilidades para geração de renda e de ocupação.

Sem dúvida alguma, a identificação de uma oportunidade de negócio é a opção mais adequada para aqueles que não conhecem bem o mercado empresarial, mas isso não quer dizer o empreendedor terá vida fácil e segurança para os seus recursos investidos. Todo negócio empresarial tem riscos envolvidos, que devem ser minimizados por meio de planejamento, pesquisa de mercado e conhecimento dos produtos ou serviços que serão oferecidos.

Na realidade, o empreendedor tem grande interesse na prosperidade do seu negócio e, por isso, sempre deve partir de um bom plano de negócios. Não obstante, os planos de negócios e os estudos de viabilidade não garantirão o sucesso dos projetos, mas, pelo menos, permitirão ao empreendedor conhecer melhor as suas chances de sucesso e não tomar decisões com base em "achologia” ou “chutologia". Certamente, o processo decisório do empreendedor terá grande dose de subjetividade, pois a sensibilidade pessoal e o “conhecimento” do negócio sempre existirão, para o bem ou para o mal do negócio. Mesmo assim, na prática, os verdadeiros empreendedores precisam de boa visão multidisciplinar e de noções de estudos e previsão de mercado, estratégia de marketing, planejamento estratégico, recursos humanos, contabilidade, economia, tributarismo, informática e finanças. Por isso, uma boa formação acadêmica ou a busca por conhecimento são essenciais para aquele que pretende dar asas ao seu espírito empreendedor.

O Brasil é um campo fértil para o empreendedorismo em qualquer conjuntura política e econômica e as oportunidades sempre existirão, mas dependem muito da identificação do mercado a ser atingido. O panorama atual está muito voltado para o empreendedorismo digital, via Internet, mas também não deixa de existir o negócio físico, especialmente no comércio e serviços, onde podemos citar os setores de alimentação, beleza e cuidados pessoais, reparos domésticos, assistência personalizada, entre outros. O empreendedor deve prestar a atenção nos nichos de mercado, por exemplo, do setor de alimentação, que são bem ativos, como aqueles voltados para diabéticos, celíacos, veganos e vegetarianos. Ele deve olhar também os nichos do mercado de beleza e cuidados pessoais, aqueles voltados para pessoas especiais, negras, ruivas, obesas ou com outras características incomuns. Existem muitos nichos a serem explorados dentro de todos os tipos de mercados existentes.

Cabe ressaltar que os insucessos são mais comuns do que os sucessos, tanto que as taxas de mortalidades das empresas são altas, para os primeiros dois anos de vida. As estatísticas mostram que cerca de 50% dos pequenos negócios “morrem” antes de completarem o primeiro ano e que 75% não completam cinco anos. O problema é que a mídia só mostra os casos de sucesso e as pessoas acham que empreender é fácil. Não é assim, por isso, recomendo muita determinação e estudo do mercado antes de abrir um negócio.

Independentemente de sua motivação para empreender, por oportunidade ou necessidade, recomendo muita pesquisa do mercado alvo antes de começar, pois você precisa saber se realmente existirá aqueles que poderão comprar o seu produto ou contratar o seu serviço, ou seja, aqueles que gerarão a receita que sustentará o seu negócio e retornará o investimento realizado. Visite os concorrentes, observe a área de influência do seu negócio, tente conhecer os hábitos, gostos e características do seu público-alvo. Estude e conheça bem o seu negócio. Não seja apressado nem se apaixone pelo negócio, seja racional para ver as possibilidades de insucesso.

Aliás, a paixão é o pior inimigo do empreendedor ansioso, que quer abrir um negócio de qualquer maneira, sem gastar tempo com pesquisa de mercado, conversa com outros empreendedores, estudo das técnicas e métodos operacionais, entre outros entendimentos prévios necessários. A paixão não permite que o empreendedor enxergue as possibilidades de fracasso e também o impede de abortar o processo de abertura do negócio quando o estudo de avaliação financeira indica inviabilidade.

Outro ponto a ser considerado pelo empreendedor é a doce ilusão de que ser dono do próprio negócio acarretará liberdade de agenda ou inexistência de um chefe controlando sua vida. Muda tudo na vida daquela pessoa que decide investir e empresariar o próprio negócio, pois a dedicação integral é a chave do sucesso. Lembre-se sempre daquele velho ditado popular: “o olho do dono é que engorda o boi”. Não subestime a importância de sua presença à frente do negócio e não delegue a condução do seu negócio a terceiros, como sócios ou parentes. Um negócio requer disciplina e obediência aos padrões e modelos estabelecidos pelo mercado, que, na prática, será o seu novo patrão. Na prática, você passará a ter centenas ou milhares de patrões exigentes todos os dias, que serão os seus clientes. Pense nisso. Sem esses patrões, o seu negócio fracassará, portanto, trate-os bem e invista no relacionamento com seus clientes, pois isso poderá ser um diferencial de sucesso. O seu grau de liberdade será diretamente proporcional à sua capacidade de gerir o seu negócio e aos seus objetivos de sucesso.

Se você decidiu pela implantação do negócio, depois de todos os cuidados citados, não perca tempo e coloque rapidamente o plano de negócios em operação. Após a decisão positiva, o investimento do primeiro real significa, em linguagem popular, que o juiz apitou o início do jogo e a bola começou a rolar. Agora, todo o plano de jogo precisa ser cumprido para se ganhar o jogo. O seu negócio agora não se encontra mais somente no papel, ele precisa materializar-se, ganhar vida. Você agora é um empresário e precisa preocupar-se, em primeiro lugar, com a sobrevivência de seu negócio, em segundo lugar, com o seu crescimento, e, em terceiro lugar, com a sua perpetuação no mercado. Não deixe de investir em treinamento de seus colaboradores e em seu próprio treinamento, reveja permanentemente o plano de negócios, corrija os erros, altere os rumos e gerencie incansavelmente seus recursos financeiros, materiais e humanos. O plano de negócio apresentará uma estimativa de retorno de lucratividade, rentabilidade e tempo de retorno do capital investido.

Em última análise, tenha sempre em mente que o empreendedorismo é uma atividade econômica de risco e que você deve ter consciência sobre a sua disposição em assumir riscos. Lembre-se também de que um plano de negócios utiliza métodos e técnicas não exatas, visto que trabalha o tempo todo com uma variável fora de nosso controle, o futuro. Como não temos condições de prever o futuro com 100% de certeza, tudo que está contido no plano de negócios é probabilístico e parte de premissas e cenários imaginados. Dessa forma, as orientações devem ser seguidas, sem dúvida alguma, como forma de minimização dos riscos, mas elas não garantirão o sucesso do negócio. Pense, então: se um negócio poderá fracassar com todos os cuidados sugeridos acima, imagine sem eles. Boa sorte!

(*) Marcus Quintella é Colunista Colaborador de Plurale, Doutor em Engenharia de Produção pela COPPE/UFRJ. Professor e Coordenador Acadêmico do MBA e Empreendedorismo da FGV.





Ir para lista de artigos e notícias


Veja também

0 comentários | Comente

 Digite seu comentário

*preenchimento obrigatório



Ninguém comentou essa notícia ainda... Seja o primeiro a comentar!