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PLURALE EM REVISTA , EDIÇÃO 66 - Paris e sua caminhada em direção à cidade do ar puro

Por Giane Gatti, Especial para Plurale

Fotos de Giane Gatti e Prefeitura de Paris/ Divulgação

De Paris

De acordo com a Comissão de Meio Ambiente da União Europeia (UE), 400 mil mortes prematuras por ano estão ligadas ao ar poluído e 130 cidades de 23 dos 28 membros da UE excedem os padrões de qualidade do ar.

A UE multou seis países, no ano passado, por não fazerem o suficiente para impedir que seus cidadãos sejam "envenenados por ar tóxico". São eles Grã-Bretanha, França, Alemanha, Hungria, Itália e Romênia.

O comissário de Meio Ambiente da UE, Karmenu Vella, afirmou que os estados encaminhados ao Tribunal receberam “suficientes 'últimas chances' ao longo da última década para melhorar a situação" e que "não poderia esperar mais" para agir.

Esforços parisienses

Uma cidade que está tentando correr atrás do prejuízo é Paris, capital do sexto país mais rico do mundo, com uma população de 2,2 milhões, mas que tem até 5 milhões de pessoas circulando diariamente e que deu o nome ao mais importante Acordo Climático (COP 21) aprovado pelos 195 países parte da Convenção -Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC em inglês) em 2015.

Segunda a própria prefeita de Paris, Anne Hidalgo, primeira mulher a ocupar o posto na cidade e que teve como mote de campanha em 2014 melhorar a qualidade do ar, 2.500 pessoas morrem por ano em Paris como consequência da poluição. Trata-se de uma questão de saúde pública.

A Agência de Saúde Pública da França estima que cinco mil mortes prematuras por ano poderiam ser evitadas na metrópole.

Anne Hidalgo preside o grupo C40 de Grandes Cidades que combate as mudanças climáticas e é uma das principais vozes no país sobre a necessidade de reduzir a presença dos veículos nas metrópoles que geram “dois terços das emissões de dióxido de nitrogênio e 56% das partículas finas na capital francesa”, diz ela.

Não faltam críticas por parte da oposição de olho nas próximas eleições municipais de 2020 sobre as medidas tomadas por ela, como as obras focadas em mobilidade para ampliação das ciclovias, que geram engarrafamentos. A reclamação também vem dos usuários de automóveis da capital francesa e arredores.

Muita coisa na cidade ainda precisa ser feita, mas se levarmos em consideração que 70% da população mundial viverão nas cidades até 2050, quando seremos cerca de 10 bilhões de pessoas (dados da Organização das Nações Unidas – ONU), acho salutar ressaltar as boas iniciativas implementadas. Passei dez dias em Paris conhecendo as ações da prefeitura para tornar a cidade com ar mais puro e também mais sustentável. Belos exemplos para o Brasil se inspirar.

1ª Zona de Baixa Emissão na França (oficialmente conhecida como Zona de Circulação Restrita).

Já estamos cansados de saber que os combustíveis fósseis são os grandes responsáveis pela emissão de CO2 na atmosfera junto com a produção de carne industrial (desmatamento para pastagens e produção de grãos, além das emissões de metano pelo gado). Esses dois vilões estão destruindo o planeta!

E para piorar, mais de 70 mil compostos químicos diferentes utilizados na indústria acabam indo parar na atmosfera e no meio ambiente. E muitos deles são prejudiciais à saúde. A poluição atmosférica mata 3,3 milhões de pessoas por ano, de acordo com estudo do Instituto Max Planck da Alemanha (dados de 2016).

Paris foi a primeira cidade francesa a ter Zona de Baixa Emissão. A medida, que atinge 5,61 milhões de habitantes e cobre 79 unidades administrativas, é um dispositivo apoiado pelo Estado para reduzir as emissões de poluentes especialmente nas grandes cidades, melhorar a qualidade do ar e garantir que os moradores respirem ar que não prejudique sua saúde. Já adotada por 200 cidades europeias, é reconhecida como bastante eficaz na redução de emissões de poluentes do tráfego rodoviário, sendo o carro uma das principais fontes de poluição da cidade.

Seu princípio é limitar a circulação dos veículos mais poluidores dentro de um perímetro definido. Para circular, um adesivo da Crit'Air deve ser afixado no para-brisa e ele distingue os veículos com base no nível de emissões de poluentes atmosféricos. Os mais poluentes e os "não classificados" não poderão (exceto as derrogações) circular na Zona de Baixa Emissão em determinados intervalos de tempo.

Desde julho de 2016, os carros com 19 anos ou mais não têm vez na capital francesa. A prefeitura proibiu a circulação dos veículos construídos antes de 1997 e das motos fabricadas antes de 1999, apontados como os mais poluentes. A medida vale para os dias úteis, das 8h às 20h, e integra um plano de médio prazo para reduzir as emissões geradas pelos automóveis - a fonte de poluição mais grave na cidade.

O plano atinge cerca de 420 mil veículos, do total de 6 milhões de carros que circulam na região parisiense, incluindo a periferia. Há várias categorias de multas. Os carros de colecionadores estão excluídos por não passarem de algumas centenas em todo o país e circularem excepcionalmente nas ruas.

Em julho deste ano novas interdições acontecerão nos dias úteis, das 8h às 20h:

- veículos motorizados de duas rodas, três ou quatro anteriores a 1º de junho de 2000;

- carros e veículos utilitários leves a diesel fabricados anteriores a 1º de janeiro de 2001;

- veículos à gasolina anteriores a 1º janeiro de 1997;

- veículos utilitários leves à gasolina anteriores a outubro de 1997;

- veículos pesados e ônibus a diesel anteriores à 1º de outubro de 2006;

- veículos pesados e ônibus à gasolina anteriores a 1º de outubro de 2001

“Paris respira”

“Paris respira” é uma iniciativa que impede a circulação de veículos em vários locais da cidade. Alguns acontecem apenas no primeiro ou no último domingo do mês e outros em todos os domingos e feriados do ano. Em algumas áreas apenas durante o verão e em outras durante o ano todo. São vias em mais de 15 bairros, incluindo a turística Avenida Champs Élysées.

Durante os bloqueios de tráfego, as áreas permanecem acessíveis aos residentes mediante apresentação do cartão de registo do endereço de moradia em questão.

Há também o Dia Sem Carro (em 16 de setembro, das 11h às 18h) em que apenas bicicletas elétricas e convencionais e patinetes podem circular. Os veículos de serviços essenciais, de pessoas portadoras de necessidades especiais também estão liberados e exceções em que é necessário solicitar autorização junto à prefeitura.

A data foi criada em 1997, na França, e aos poucos passou a ser adotada por outros países. Um dia pode parecer pouco, mas na ação do ano passado, Paris registrou 40% de queda nos níveis de poluição do ar e 50% na poluição sonora em diversas partes da cidade. A iniciativa afetou apenas um terço da capital francesa, mas os resultados das aferições foram suficientes para que a prefeita Anne Hidalgo planejasse novas ações do tipo.

"Eu fixei para Paris a meta de se tornar a primeira cidade respirável rotulada pela Organização Mundial da Saúde, reduzindo para metade o número de dias que ultrapassavam os limites de poluição", afirma Anne Hidalgo.

Em 2018, Hidalgo recebeu o prêmio anual da Fundação Europeia de Pulmão, que reúne os profissionais de saúde e pacientes dos países membros da UE, pelo seu engajamento e resultados em favor da qualidade do ar e da redução das doenças respiratórias. Honraria concedida no passado ao ex-prefeito de Nova Iorque, Michael Bloomberg.

Subvenção para carros elétricos novos ou usados

A prefeitura disponibiliza algumas formas de ajuda para apoiar os motoristas automobilísticos e de veículos de duas rodas em direção a uma mobilidade mais sustentável.

Um parisiense que renunciar ao seu veículo poluente pode se beneficiar de um auxílio de € 400 para a cobertura parcial do passe Navigo (tipo de bilhete único para transporte público) por um ano e da assinatura por um ano do Vélib (bicicletas compartilhadas - falarei mais adiante) ou reembolso de até € 400 para a compra de uma bicicleta elétrica ou bicicleta convencional.

Um habitante da chamada Grande Paris (que engloba as áreas de carro com placas 75,92,93 e 94) que renunciar ao veículo poluente por um carro (novo ou usado elétrico, a hidrogênio, híbrido recarregável ou GNV) ou transporte de duas rodas novo ou com menos de cinco anos recebe da prefeitura ajuda que vai de € 500 a 5 mil, limitando-se a 25% do preço de compra.

Um link no site da prefeitura permite calcular e avaliar o custo da troca de carro. Por exemplo, um modelo básico elétrico que custa € 23.500 pode sair a € 7.500, levando-se em conta a ajuda de até € 5 mil da prefeitura, mais € 2.500 de bônus pela conversão, mais € 2.500 de bônus para 20% dos lares mais modestos e € 6 mil de bônus ecológico.

Bélib

Belib é a rede de estações para veículos elétricos e híbridos recarregáveis. Há cerca de mil pontos na cidade, sendo que 200 são responsáveis por 80% dos carregamentos usados.

O serviço funciona com ou sem assinatura. O tempo de carregamento e o valor da hora depende da potência selecionada da estação: 3kW ou 22kW. E o valor da hora de carregamento, dependendo da modalidade escolhida, custa € 1 a € 4. Em alguns casos o carregamento é gratuito entre 20h e 8h.

Eu conversei com alguns motoristas, inclusive de táxis elétricos, que se dizem muito satisfeitos com a quantidade e qualidade das estações de carregamento, além do preço acessível.

Serviço Free to move
Lançado em novembro do ano passado por meio de uma parceria entre a prefeitura e o grupo PSA (Peugeot-Citroën), o serviço de mobilidade Free to move disponibiliza 550 veículos elétricos no sistema free-floating – o usuário aluga um carro sem prévia reserva e o devolve escolhendo locais disponibilizados em um perímetro determinado. A ideia é aumentar a quantidade de veículos e levar também para os arredores da cidade.

Já existente em Washington, o serviço foi facilitado pelas antigas vagas e estacionamento de carros elétricos do Autolib´ (serviço de compartilhamento de carros lançado em 2011 que deu muito prejuízo e surpreendeu os assinantes com o término, gerando enormes críticas a Anne Hidalgo) e das mil estações de recarga. Ele está disponível 24h/dia e baixando o aplicativo é possível identificar o veículo mais perto, reservá-lo, abri-lo e descobrir onde pode deixá-lo após uso.

Há duas formas de pagamento:

- usuário regular: € 0,32/minuto com mensalidade de € 9,90/mês


- usuário ocasional: € 0,39/minuto sem mensalidade

Não é necessário um período mínimo de aluguel e seguro e taxas de estacionamento na área coberta estão incluídos.

SVP - Serviço de Veículos Compartilhados (sigla em francês)

O SVP incentiva os serviços de veículos compartilhados, oferecendo às operadoras mais de 200 vagas de estacionamento. Cada estação tem dois veículos e depende de um único operador (Communauto, Ubeeqo ou Zipcar). Todos os veículos atendem aos requisitos do plano de controle de poluição.

Você reserva o carro de acordo com suas necessidades, faz o registro junto ao operador (consulte os termos e condições aplicáveis a cada um deles) e os veículos podem ser emprestados e reportados à mesma estação.

Ainda tem a vantagem de custar menos do que ter seu próprio veículo e arcar com seguro, manutenção, estacionamento, etc.

Segundo a prefeitura, um veículo compartilhado substitui uma média de sete carros em circulação, contribuindo na redução dos gases de efeito estufa e as emissões de poluentes.

2020: Paris, capital da bicicleta

Um plano ambicioso 2015-2020 e investimentos da ordem de € 150 milhões vão permitir duplicar a extensão das ciclovias até 2020. Um total de 61 km são previstos até o ano que vem com pistas de tráfego nos dois sentidos.

Anne Hidalgo, que foi braço direito do antecessor Bertrand Delanoë por 13 anos, entende bastante da pasta de urbanização.

Algumas das principais ações são:

- € 63 milhões para o desenvolvimento de ciclovias;

- € 30 milhões para financiar o programa "Paris a 30 km/h", incluindo o ciclismo de duas vias de todas as ruas, fora das principais estradas que são mantidas a 50 km/h;

- € 7 milhões para a criação de mais de 10 mil lugares de estacionamento para bicicletas;

- € 10 milhões para assistência na aquisição de bicicletas e ciclomotores elétricos, scooters e bicicletas de carga;

- Cerca de € 40 milhões dedicados a instalações de ciclismo no contexto de projetos de transportes públicos e reestruturação dos principais eixos e criação de uma rede de bicicletas expressas.

Vélib

É um sistema de aluguel de bicicleta mecânicas e elétricas (com autonomia de 50 km e velocidade de 25 km/h), que já existe na cidade desde 2007, mas que vem sendo aperfeiçoado. As “magrelas” verdes são convencionais e as azuis elétricas. Ele funciona 7 dias/semana, 24h/dia e, segundo o operador, ainda na primavera parisiense, haverá 1.400 estações espalhadas pela cidade.

Para se ter uma ideia, apenas no dia 4 de abril foram percorridos 170 mil km e realizados 65.500 trajetos com o uso do Vélib. Também nesta data foram disponibilizados novos 1.236 pontos.

Há três categorias para usuários frequentes:

- V-Libre: sem mensalidade e a hora de uso da bicicleta convencional e da elétrica é de € 1,30 e € 2,30, respectivamente;

- V-Plus (mais de quatro trajetos mensais): mensalidade de € 3,10 e a hora de uso da bicicleta convencional e da elétrica é de € 1,30 e € 2,30, respectivamente; nessa categoria é possível ganhar minutos de bônus

- V-Max: assinatura de € 8,30 e paga-se o mesmo valor € 1,30/hora para bicicleta mecânica ou elétrica, além dos minutos de bônus.

Também há duas modalidades para usuários ocasionais:

- um dia: pagamento de € 5 de taxa e a hora de uso da bicicleta convencional e da elétrica é de € 1,30 e € 2,30, respectivamente;

- sete dias: pagamento de € 15 de taxa e a hora de uso da bicicleta convencional e da elétrica é de € 1,30 e € 2,30, respectivamente.

Paga-se uma caução de € 300 e é preciso cadastrar um cartão bancário.

O serviço é operado pelo consórcio Smovengo, formado por quatro sociedades internacionais de mobilidade urbana: Smoove (que atua em mais de 20 cidades na França e no mundo), Moventia (empresa espanhola que atua no país, mas também na Itália, México, entre outros), Mobivia (líder europeu de novas mobilidades) e Indigo (líder mundial de estacionamento e de mobilidade individual).

O segundo lançamento do Vélib aconteceu no começo do ano passado. Usuários reclamaram da qualidade da bicicleta do prestador anterior, das poucas vagas de estacionamento e das poucas bicicletas elétricas disponíveis. Houve ainda greve dos funcionários do consórcio atual. O que mostra que o caminho da transição ecológica é complexo, mas é um caminho sem volta!

SoliCycle, oficinas solidárias de bicicletas

Nos ateliês SoliCycle, os usuários aprendem a consertar as bicicletas às quartas e sábados.

Lá também é possível doar as bicicletas não usadas para serem recicladas, recondicionadas e revendidas ou recuperadas como peças de reposição. A SoliCycle promove a economia circular e trabalha para reduzir o desperdício do ciclo. No local, você também pode comprar ou alugar uma bicicleta usada a um preço baixo. O valor da venda varia entre € 5 e € 150.

Patinetes e scooter elétricos

A cidade assinou acordo com empresas que oferecem soluções compartilhadas de duas rodas além das bicicletas. São as patinetes e scooters elétricos. Mas isso requer uma convivência harmoniosa com os pedestres, usuários de veículos, etc. Por isso há termos de compartilhamento do espaço público com possibilidade de multas a quem desrespeitar as regras.

Vários prestadores estão disponíveis por meio de aplicativo no celular. São eles: Lime, Bird, Bolt (ex-TxFy), Wind, Voi, Tier, Flash, VOI e Wind.

De acordo com a prefeitura, há 15 mil patinetes elétricos disponíveis na cidade e que podem chegar a 40 mil até dezembro de 2019, mas isso tem gerado problemas de segurança aos pedestres, principalmente idosos e crianças, além do estacionamento desordenado pela cidade.

Por isso, foram adotadas quatro medidas no dia 3 de abril, enquanto se aguarda a votação de um projeto de lei.

- Os usuários que estacionarem as patinetes em locais que perturbem a circulação dos pedestres pagarão multa de € 135 (cerca de R$ 570);

- Serão criadas, nas próximas semanas, áreas específicas de estacionamento demarcadas no chão. Até o fim do ano, devem ser disponibilizadas 2.500 locais;

- Foi elaborada uma cartilha de boas práticas junto aos nove operadores na cidade baseada nos mesmos princípios da feita anteriormente para as empresas de bicicletas e scooters. Os operadores de patinetes serão convidados a assinar o documento até maio;

- Para regulamentar as milhares de patinetes pela cidade, a prefeitura instaurou uma taxa às empresas de € 50 a 65 por veículo, conforme o número disponível por operadora.

Gratuidade do Transporte Público

Em março de 2018, a prefeita Anne Hidalgo solicitou um estudo sobre gratuidade e/ou redução do valor do transporte público. Baseado nele, quatro medidas passarão a valer a partir de 1º de setembro:

- gratuidade do transporte público para parisienses de 4 a 11 anos;

- gratuidade do transporte público para parisienses portadores de necessidades especiais com menos de 20 anos;

- reembolso de 50% do passe Navigo (bilhete único) para estudantes dos ensinos fundamental e médio;

- gratuidade da assinatura do Vélib (bicicletas compartilhadas) aos parisienses dos 14 aos 18 anos.

As novas ações custarão € 5 milhões apenas este ano e serão financiadas por meio de redistribuição de receitas.

Fica claro o foco da prefeitura em engajar as novas gerações sobre a necessidade da transição energética na cidade. A melhora do poder de compra também é reivindicação antiga, não só por parte dos parisienses.

Plano Climático

Em 2007, a cidade de Paris adotou um Plano Climático que previa reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e o consumo de energia em 25% e aumentar a quota de energias renováveis e de recuperação para 25% entre 2004 e 2020.

Mas a urgência devido aos efeitos das mudanças climáticas em todo o mundo fez com que ocorresse a 21ª Conferência Internacional pelo Clima (COP 21), que reuniu, em 2015, 20 mil representantes de quase 200 países em Paris.

Com as novas ações acordadas na COP 21, a cidade lançou um novo Plano Climático após consulta pública que durou quase um ano.

Os participantes identificaram três temas prioritários: alimentos sustentáveis, eficiência energética e adaptação territorial. As principais ações apresentadas foram: reciclar e recuperar 100% dos resíduos, transporte público limpo em 2025, alcançar 90% de alimentos sustentáveis, renovar instalações públicas, fazer de Paris 100% a capital de ciclismo, entre outras.

Até 2030, será implementado um plano de ação operacional com o objetivo de reduzir as emissões de GEE em 50%, o consumo de energia em 35% e as energias renováveis em 45%. A meta para 2050 é construir uma cidade neutra em carbono e 100% de energia renovável.

Cidade mais sustentável

O mundo produz cerca de 300 milhões de toneladas de lixo plástico a cada ano. E somente 9% desse lixo gerado foi reciclado e 14% coletado para reciclagem, segundo a ONU Meio Ambiente.

A ONU informa ainda que 99% dos produtos que compramos são jogados fora dentro de seis meses.

Diariamente três mil toneladas de lixo são coletadas pela prefeitura de Paris, que tem como obrigação a retirada dos resíduos domésticos.

Desde 1º de janeiro de 2019, novas diretrizes de reciclagem foram introduzidas na cidade para facilitar a ação. Elas visam melhorar a taxa de reciclagem dos resíduos parisienses. Hoje, apenas 20% são reciclados na cidade, contra 39% na França e 45% na Europa.

Há três tipos de contêineres: amarelo, verde e branco.

O amarelo é para os resíduos recicláveis, onde pode-se colocar papel de embalagem, papelão, plástico e metal.

Como cerca de 15% dos prédios na capital não possuem esse tipo de contêiner por falta de espaço nas áreas comuns, a prefeitura disponibiliza estações chamadas Trilib, onde os cidadãos podem levar o lixo para reciclagem.

No contêiner verde coloca-se tudo o que não passou por uma triagem. Após recolhidos, os resíduos são enviados direto à incineração e transformados em eletricidade e aquecimento.

Não se sabe ao certo quanto tempo o vidro leva para se decompor na natureza, mas estima-se de três a quatro milênios. E ele pode ser reciclado facilmente, por isso é tão importante os cidadãos se conscientizarem sobre a importância desse gesto ecológico. Há mil contêineres para vidro na cidade.

Em 2010, a taxa de reciclagem de vidro na França era de 60% enquanto que na Alemanha chegava a 70%.

Reciclagem têxtil

Há 300 contêineres específicos para reciclagem têxtil. Neles podem ser colocados roupas, toalhas, lençóis, calçados, bolsas, luvas, etc.

Após uma triagem, o que ainda pode ser usado é revendido a um preço acessível e o restante vai para a reciclagem.

Lixo orgânico para compostagem

“Comer é quase um ato político, pois as decisões que tomamos sobre a nossa alimentação provocam impactos ambientais, sociais e econômicos nas cadeias de produção de alimentos”, diz Carolina Siqueira, analista sênior do WWF-Brasil.

Dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação – FAO apontam que aproximadamente 30% da produção mundial de alimentos é perdida no processo ou vai para o lixo no final da cadeia. Usamos um terço da superfície do mundo para produzir alimentos.

A cada ano, 7,3 bi de pessoas consomem 1,5 X mais do que os recursos naturais da Terra podem fornecer. Cerca de 45% de todas as frutas, legumes, raízes e tubérculos são desperdiçados. É o equivalente a 3,7 trilhões de maçãs e 1 bilhão de sacos de batatas.

Na França, quase 70% do conteúdo do lixo pode ser evitado, com ações de redução, reutilização e valorização, segundo a própria prefeitura.

Paris adotou uma estratégia de "desperdício zero" em 2014, que consiste em não enviar ao aterro e à incineração os resíduos que podem ser recuperados.

Para os habitantes que não dispõem de espaço para uma composteira foi criado um sistema de reciclagem de resíduos orgânicos que vem se expandindo e pode ser encontrado em alguns pontos da cidade. Mas há também associações que recolhem o lixo orgânico nas casas e apartamentos.

Regime “Flexitariano”

De acordo com a prefeitura, para alcançar os objetivos de reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) oriundos dos alimentos, o equilíbrio alimentar dos cidadãos terá que evoluir para um regime "flexitariano". Ele consiste em ter menus que incluem mais frutas e verduras e menos carne e peixe, ao mesmo tempo em que favorece canais de circuitos curtos do produto ao consumidor que, além de terem menor impacto no meio ambiente, garantem melhor qualidade de vida e de renda aos produtores.

A estratégia alimentar sustentável de Paris, que surgiu após a assinatura do Pacto de Milão em 2015 por 160 cidades, visa promover um sistema inclusivo, resiliente, seguro e diversificado, mitigando e adaptando-se aos efeitos das alterações climáticas.

Através da implementação de 40 ações em colaboração com os atores do sistema alimentar do território, a cidade de Paris se compromete até 2030:

- reduzir em 40% a pegada de carbono "alimentar" do território;

- contribuir para a mudança do equilíbrio alimentar dos cidadãos para um regime "flexitariano";

- eliminar qualquer situação de insegurança alimentar;

- difundir a participação do transporte elétrico e fluvial para o abastecimento de alimentos;

- apoiar o desenvolvimento da agricultura biológica a fim de atingir 20% das terras agrícolas orgânicas na Île-de-France (composta por sete departamentos além de Paris).

Segunda Verde

Somos 7 bilhões de humanos, mas criamos e abatemos mais de 70 bilhões de animais terrestres — e um número ainda maior de animais aquáticos — todos os anos para consumo, informa a Sociedade Vegetariana Brasileira.

Só no Brasil, são quase 6 bilhões de animais terrestres abatidos por ano (IBGE). A manutenção desses animais como estoque de alimento exerce uma pressão sem precedentes sobre todos os ecossistemas, além de produzir resíduos sólidos, líquidos e gasosos em grande quantidade: 83% das terras agrícolas do planeta são usadas como pastagens ou produção de ração.

As vendas de produtos vegetarianos e veganos aumentaram 24%, gerando € 380 milhões em 2018 na França, segundo o Instituto de Estudos Xerfi. "Diversas causas explicam o crescimento: escândalos da indústria alimentícia, os questionamentos sobre os benefícios do leite e da carne e, sobretudo, a banalização do ideal do “flexitarianismo”, que propõe uma abordagem menos radical no consumo de produtos de origem animal".

Na França, 500 personalidades como o fotógrafo e ativista Yann Arthus-Bertrand e a atriz Isabelle Adjani participam da campanha “Segunda Verde”, nem carne nem peixe, para estimular a população a uma mudança de comportamento no país.

A campanha ressalta a produção industrial, grande responsável pela deflorestação e que agrava o aquecimento climático, a sobrepesca que destrói os ecossistemas, os riscos de câncer aliados ao consumo de carne vermelha, mas também o sofrimento animal.

Para haver uma transformação por meio da conscientização é preciso conhecer e se conectar com o tema em questão. Adultos e crianças estão cada vez mais desconectados da natureza.

A Fazenda Mobile é um projeto em que cada mês ela vai a um distrito de Paris dando a possibilidade ao público de ver cabras, galinhas, coelhos e outros animais, mas também tirar dúvidas sobre criação, etc.

Minha conclusão é de que ainda há muito a ser feito na cidade, mas os esforços e melhorias para se tornar uma cidade com melhor qualidade de vida são evidentes! Cabe também à população fazer sua parte ao tomar consciência de que todos os nossos atos têm um impacto no planeta e há décadas essa conta não está fechando.

Ressalto também o empenho da cidade para que se compre dos pequenos produtores e por uma alimentação orgânica. Mesmo com a diferença de câmbio do euro para reais, encontrei muitas frutas e legumes mais baratos em Paris do que no Rio de Janeiro, além da farta oferta de produtos orgânicos a um preço acessível em supermercados, bem diferente da realidade brasileira.

Yann Arthus-Bertrand afirma que é tarde demais para sermos pessimistas e que precisamos agir. Ele ilustrou a Encíclica Laudato Sí do Papa Francisco sobre meio ambiente. É a única autoridade espiritual a falar sobre o tema no mundo.

Precisamos reduzir o consumo desenfreado e insustentável. Entender que tudo está conectado e fazemos parte de uma única família global. O que está em risco é a vida humana na Terra. O planeta vai ficar muito bem obrigado sem nós. Nós é que dependemos dele!

“O meio ambiente é um bem coletivo, patrimônio de toda a humanidade e responsabilidade de todos. Quem possui uma parte é apenas para administrar em benefício de todos. Se não o fizermos, carregamos na consciência o peso de negar a existência aos outros.” Papa Francisco

Fontes: Prefeitura de Paris, RFI, ONU, Unicef, AFP, Le Point, OMPE (Organisation Mondiale pour la Protection de l’Environnement) et Le Monde.





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