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Tempo de aprender, uns com os outros

Monitores, gestores e colaboradores mergulham fundo nas questões que mais afetam o programa Monitora e a preservação de cada dia

Por Maurette Brandt, Especial para Plurale

De Brasília (DF)

No segundo dia de trabalho do II Seminário CCAC – Construção Coletiva de Aprendizados e Conhecimentos, que aconteceu em Brasília de 4 a 6 de junho, por iniciativa do Ipê e do ICMBio, a ideia geral foi “aprofundar o conhecimento sobre nós mesmos”, como colocou o facilitador Leonardo Rodrigues, do Ipê. O grupo foi convidado a exercitar espelhamentos diferentes e buscar conexões mais profundas, em novos níveis de entendimento. Praticamente tudo que diz respeito à atividade do programa Monitora – gestão, produção de materiais, programação de encontros, a estrutura do monitoramento em si, educação ambiental, pontos a aperfeiçoar, comunicação e outros temas – foi analisado em um conjunto de atividades que mesclou debates, discussões em grupo, apresentações e uma potente mesa redonda para encerrar. E teve lançamento de livro também! Confira os destaques do segundo dia dessa jornada.

Em grupos, participantes analisam o dia a dia do monitor

Vários grupos foram formados para discutir os aspectos mais importantes para os monitores: participar das análises de dados junto com os pesquisadores, mobilizar constantemente as comunidades, incentivar futuros monitores, promover atividades junto às escolas – como gincanas ecológicas e excursões às praias no dia da soltura dos quelônios, para citar apenas alguns exemplos - e sobretudo encontrar a melhor forma de intensificar o diálogo com as comunidades, para que a informação e a mobilização fluam constantemente.

Ao final, cada grupo apresentou à plateia suas sugestões e conclusões num grande painel. Foram muitas as contribuições, comentadas com alegria e com a energia sempre vibrante dos participantes.

Mesa-redonda: Um panorama da gestão e dos desafios do programa

Gestores e analistas ambientais falam das grandes questões que perpassam o trabalho nas Unidades de Conservação. Na leitura de pequenos trechos de seus depoimentos, podemos tentar “ouvir” um pouco essas vozes, que evocam alguns dos dilemas e questões mais prementes para quem enfrenta o cotidiano da preservação ambiental, em realidades tão amplas e distintas, por este imenso país afora.

“No parque Nacional da Serra da Bodoquena, que atravessa as cidades de Bodoquena, Murtinho, Bonito e Jardim, no Mato Grosso do Sul, o monitoramento é estratégia de gestão. Criamos nosso mascote, que é o kaluanã, uma espécie típica da região. E desenvolvemos um programa de voluntariado em parceria com a Universidade, que deu super certo: é o PARÇA, que vem de “parceiro” e também faz referência à nossa condição de Parque Nacional [PARNA].” ­– Naiara Stachesky, analista ambiental, PARNA da Serra da Bodoquena (foto acima)

“A Resex de Tapajós-Arapiuns tem 75 comunidades, 3.500 famílias, 18 mil habitantes, sete etnias indígenas e mais de 50 associações formalizadas. Nosso acesso é fluvial. A mobilização das comunidades é um fator essencial para nós. É muito importante que as pessoas não vejam o monitoramento como “fiscalização” e “punição”, mas sim como um processo vital de preservação dos recursos da reserva. Já estamos adotando um protocolo mínimo para animais (dizer os bichos que tem na mata) e outro de caça (dizer o que sai da mata). E estamos batalhando na gestão de conflitos territoriais e interpessoais também, um fator inevitável no nosso dia a dia.” – Jackeline Nóbrega Spinola, gestora da Resex Tapajós-Arapiuns (foto acima)

“É impressionante a inserção do programa Monitora no nosso cotidiano, em tudo que a gente faz. Tem um aspecto bem interessante, quanto a essa questão de ‘monitoramento’ versus ‘fiscalização’: a simples presença física da equipe, por algumas horas, dá a maior moral. Ninguém chega quando estamos lá. A gente se posiciona no caminho principal de acesso ao parque. E quanto ao uso científico, tem crescido demais. Sempre levamos nossos visitantes para campo e eles ficam conhecendo nossa forma de trabalhar. O monitoramento mudou a nossa forma de pensar. Agora pensamos em escala temporal. Não é mas foto, é filme!” Christoph Bernhard Jaster, Chefe do PARNA Montanhas do Tumucumaque/ICMBio (foto acima)

“Desde o início vi a dificuldade que seria implementar o Monitora, e até duvidava do resultado. O desafio era bastante grande. Mas reconheço a importância e a transversalidade desse grande programa nas atividades do ICMBio. Meu coordenador era o Sandro, que veio cheio de gás: abriu três trilhas e, pouco depois, foi ‘redistribuído’. Ficamos só eu e a Ilnaiara (Sousa, analista e pesquisadora local do Ipê na Resex de Cazumbá-Iracema). Os alvos locais, em princípio, seriam os felinos e a castanha, e foi esta última que vingou. O MPB permitiu um maior envolvimento das comunidades e dos monitores. Desde o segundo ano da coleta contamos com voluntários em parceria com a UNESP, que participam de tudo. Recebemos alunos voluntários em todos os períodos de férias. E recentemente – viva! O nosso pesquisador Herison Medeiros descobriu no Cazumbá uma nova espécie vegetal, aparentada com o guaraná, que está descrita e em fase de pesquisa! Aliás, a aproximação entre monitores e pesquisadores tem dado tão certo que estamos encaminhando até um acordo de cooperação técnica!” – Tiago Juruá, Coordenador Geral UCs Rio Branco/ICMBio (foto acima)

“A autonomia e a criatividade das Unidades de Conservação é a nossa maior riqueza. Estamos aperfeiçoando nossa plataforma, que é bem amigável, para incluir aos poucos tudo que os monitores e pesquisadores precisam. E estamos partindo para o protocolo de caça também.” – Kátia Torres, Coordenadora Geral de Pesquisa e Monitoramento/ICMBio (foto acima)

“Muitos processos estão sendo incorporados ao sistema; no caso do Plano de Manejo, agora temos um formulário único para que todas as coordenações possam complementar as informações que caracterizam cada unidade, e a verificação é feita pelo Sistema de Avaliação e Monitoramento da Gestão (SAMGE). A Oficina de Planejamento, por exemplo, é um recurso que consideramos indispensável. A gente monitora muito de perto todos esses recursos que facilitam a organização e análise dos dados do programa.” - Érica Coutinho, Coordenadora de Elaboração e Revisão de Planos e Manejos/ICMBio (foto acima)

“É preciso entender o recurso, saber para que ele serve e utilizá-lo de modo que não se esgote. Tem um exemplo ótimo: o Ibama, no Médio Juruá, estava usando a medida de 1,5 m como adequada para a pesca do pirarucu. Foi o monitor da comunidade que alertou o Ibama que a medida estava errada, pois um piracuru de um metro e meio ainda é juvenil, não pode ser pescado. Então, o conhecimento tradicional veio com autoridade para mostrar um erro que estava prejudicando a conservação da espécie. Isso é uma evidência de como o monitoramento pode ajudar na tomada de decisões. ” – Bruna De Vita, Coordenadora Geral de Populações Tradicionais /ICMBio (foto acima)

“As informações do Monitora servem para qualificar as decisões. Em Educação Ambiental, é preciso traduzir a ciência para o leigo. Nos processos formativos em gestão socioambiental no território, nós fizemos jogos reproduzindo as trilhas! Os alunos pegaram giz, recriaram a trilha o pátio e eram, eles mesmos, os peões do jogo. Na hora de juntar as informações para elaborar ações nas escolas, todas as áreas – manejo, etc. - miraram na mesma lógica de construção. Foi um sucesso! – Paulo Russo, Coordenador Geral de Gestão Socioambiental/ICMBio (foto acima)

“O entrosamento entre comunidade e pesquisadores é vital. A comunidade se sente bem quando é valorizada pelos ‘de fora’. Com a união dos conhecimentos, a informação chega mais rápido na comunidade. A capacitação acaba de credenciar 120 agentes ambientais no Médio Juruá. Um deles veio me dizer: ‘Eu não tinha profissão, mas agora eu tenho!’ O agente voluntário não quer só preencher formulário; ele quer saber por que precisa preencher daquele jeito específico. O interesse em aprofundar o conhecimento é muito grande. E em todos os manejos do Médio Juruá, homens e mulheres recebem igual, o que considero uma informação muito relevante!” – Manoel Cunha, gestor da Resex do Médio Juruá/ICMBio (foto acima)

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IPÊ E ICMBIO COMEMORAM O 5 DE JUNHO COM LANÇAMENTO DE LIVRO

Em segunda edição revista, livro documenta história do programa Monitora

Muita comemoração, por parte das equipes do IPÊ e do ICMBio, marcou o lançamento oficial, no dia 5 de junho – não por acaso o Dia Mundial do Meio Ambiente - do livro Monitoramento Participativo da Biodiversidade: Aprendizados em Evolução.

A publicação, cuja organização ficou a cargo de Cristina F. Tófoli, Pollyana Figueira de Lemos, Rafael Morais Chiaravalloti e Fabiana Prado, é uma edição do IPÊ, com o apoio financeiro da USAID e da Fundação Gordon & Betty Moore, e a parceria do Programa ARPA e do ICMBio/MMA.

O lançamento aconteceu ao final do segundo dia do II Seminário de Construção Coletiva de Aprendizados e Conhecimentos, realizado em Brasília, entre os dias 4 e 6 de junho deste ano.

São mais de 150 páginas de um verdadeiro roteiro de viagem que documenta, em vivas cores e textos empolgantes, a trajetória do Programa Monitora, ou seja, do Monitoramento Participativo da Biodiversidade, até agora. Daí o subtítulo “aprendizados em evolução”, porque o programa evolui a cada dia, do ponto de vista de cada colaborador, seja ele monitor, membro da comunidade, analista ambiental, pesquisador, gestor de unidade de conservação ou colaborador no preparo da edição.

O livro é organizado como uma bússola para os caminhos do programa, com paradas e registros em cada lugar. Seria talvez uma versão contemporânea das notas de viagem que os grandes exploradores tornaram famosas no passado. Mas o Monitora acontece agora, já – e o livro lança mão de todas as tecnologias de última geração para cativar os leitores mais exigentes. É quase vivo, alegre, colorido – sem deixar, contudo, de cumprir sua função de transmitir toda a carga de emoção, ciência, determinação, rigor, energia e informação colocada ali por cada pessoa que contribuiu para sua elaboração e produção.

A ficha técnica tem centenas de nomes, de perder a conta. Mas a sensação é de que cada exemplar foi assinado de próprio punho por todos eles, dada a vibração e o orgulho que transparecem no resultado final.

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JULIANA, BRUNO E GABRIEL: SENSIBILIDADE A TODA PROVA

Estes sorrisos vibrantes são de Juliana Nogueira (USAID) e Bruno Bimbato (ICMBio), clicados por Gabriel Schulz (ICMBio) - que, justamente por isso, não está na foto. Fotógrafos, câmeras e repórteres sensíveis, fazem tudo ao mesmo tempo, com rara competência e sempre com a mesma simpatia.

Os três assinam e gentilmente compartilham com Plurale o registro fotográfico do II Seminário de Construção Coletiva de Aprendizados e Conhecimentos, realizado em Brasília, entre 4 e 6 de junho passado. E as fotos da matéria sobre a Reserva Extrativista de Cazumbá-Iracema, no Acre -que mais parecem fotogramas de um filme extraordinário nas páginas de nossa edição 66 - são de Juliana e Bruno.

Nossos agradecimentos e parabéns pelo belo trabalho! E Gabriel, esperamos que, da próxima vez, você esteja na foto também!







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