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FLIP 2019 aberta, trilha declarada

Viver em potência máxima

Por Maurette Brandt, de Plurale

De Paraty (RJ)

Eu poderia escolher o relato protocolar, o “abre”. Dar o factual em ordem cronológica. Mas como não reconhecer, nesta Flip tão resoluta, um ineditismo pontuado por energia viva, por necessidade premente de tomar rumo, comer chão de poeira e perceber, com todas as nuances, o que se tem pela frente?

Resoluta é a Profa. Walnice Nogueira Galvão, com o relato – pontuado por uma coloquialidade de confidência e franqueza, deliciosa – de seu percurso para descobrir e revelar o máximo de faces possíveis de Euclides da Cunha. Caminhamos com ela passo a passo, como se a longa e profunda investigação que fez, ao longo dos anos - e que produziu obras seminais como O calor da hora, sua edição comentada e primorosa de Os Sertões, além de vários volumes de cartas – estivesse acontecendo aqui, agora, com todo mundo acompanhando. Sua inflexão determinada remete, a cada dobra do caminho, a um Brasil que se repete, muitas vezes pela pior vereda. Inevitável, para não dizer obrigatória, a comparação entre o ambiente de Canudos e o tempo de hoje. Testemunha e protagonista, a autora se põe em movimento junto com sua trajetória euclidiana, e nos convida a mergulhar nela.

Antes dela, porém, conhecemos Fernanda Diamant e sua transparência radiante. Nos contou por que Euclides da Cunha está aqui entre nós, compartilhado e plurificado. Euclides, na vida de Fernanda, é fruto de uma história de amor com o teatro – mais precisamente, com o Teatro Oficina de Zé Celso Martinez Correa. Foi contaminada nos anos 2000 e, na enxurrada, vieram Canudos e Euclides, sem sabermos em qual ordem. Fernanda se entusiasmou, emocionou todo mundo, homenageou o companheiro Octávio Frias Filho, que nos deixou pouco tempo depois de marcar presença na Flip 2018, e também João Gilberto. Convidou Walnice ao palco e assistiu com uma alegria visível.

Poderia ter sido só isso, mas não: o inesperado nos visita na pele de um Euclides encantado, cercado de anjos e animais, que logo nos envolve e leva de roldão ao Auditório da Praça, onde se inicia Mutação da Apoteose, criação do Teatro Oficina Uzyna Uzona, sob a direção de Camila Mota. No centro de tudo está Zé Celso Martinez Corrêa, um Antonio Conselheiro em plena erupção. O ator e diretor permanece em carne viva, tocando com virulência nas mesmas velhas e novas questões. Seu teatro tem a mesma força que levou à pancadaria generalizada em O Rei da Vela; e qualquer ideia de retorno ao passado se esgota rapidamente quando sentimos que estamos de volta, sim, ao futuro – e sem qualquer sinal visível de algum paraquedas que nos possa amparar.

Amparados pelos atores-músicos, entramos em cena também, caminhando a esmo por Canudos que é aqui, foi e será. Estamos por nossa própria conta e risco. Por entre alegorias que nos lembram o que fomos, fizemos ou deixamos de fazer, ou que acreditamos um dia e voltou a nos acometer por tantas novas e velhas razões, exercitamos a alegria que descobrimos um dia. Levantamos mar e fronteiras, incendiamos a cena quando necessário e voltamos a sentir que podemos ter fé, nem sempre cega e nem amolada, como a faca que ainda guardamos em algum lugar. Somos crianças, somos índios – e dizemos, em alta voz, que não pedimos para nascer, mas também não queremos morrer. Nem de morte morrida, nem de fome, nem de bala e nem por cansaço ou descaso de viver.

Entre agitos e silêncios, momentos de devoção ou revoada, carnaval e procissão, seguimos com a trupe, um pouco atores, um pouco fiéis, até o ato inesperado (e grato) de contrição, aos pés de João Gilberto cantando, daquele jeito só seu, o Hino Nacional.

A um canto guardado da cena, a mais feliz era Fernanda. Cantava de cor todas as músicas, com uma sinceridade de criança, expandindo-se em todas as direções e envolta na certeza de ter feito a escolha certa.

Esta Flip, que evoca o cenário da guerra santa de um ideal, tem passo firme e seguro. Não negocia, não neutraliza, não concede. Em tudo até agora, está a consciência daquilo que se vive e que não é possível, nem viável, ignorar. Se a literatura nos ampara nisso, tanto melhor. E é nos passos de Euclides e daqueles que palmilharam seu chão de palavras e ideias, que haveremos de caminhar, com o teatro de Zé Celso a nos iluminar e a nos lembrar de quem somos.

E tudo porque Fernanda Diamant, um dia, teve a audácia e a lucidez de se apaixonar.







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