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FLIP 2019 - Canudos e o Brasil hoje: reflexões sobre Euclides da Cunha

Do Portal da Flip

De Paraty

A noite inaugural da 17ª Festa Literária Internacional de Paraty — Flip fez menção ao Autor Homenageado, Euclides da Cunha, em sessão com a maior intérprete do escritor, a crítica literária Walnice Nogueira Galvão. Antes da professora emérita da Universidade de São Paulo subir ao palco, o diretor artístico do Programa Principal, Mauro Munhoz, deu boas-vindas aos moradores de Paraty e aos visitantes da Festa Literária, e parabenizou a cidade pelo título de patrimônio da humanidade, conferido pela Unesco, este ano. Munhoz citou uma novidade da edição, o módulo de artes visuais da Flip, intitulado Terra Nova. “Artes visuais podem construir novos caminhos para esta cidade”, pontuou ele. Ao fim de sua fala, apresentou Fernanda Diamant, curadora do Programa Principal.

Diamant prontamente evocou o responsável pela obra Os sertões: “Euclides da Cunha, autor de texto exuberante, é muito importante para exercitarmos nossa capacidade de refletir sobre o Brasil e seus problemas”. Dedicou a edição a seu companheiro Otavio Frias Filho, falecido em 2008, e a João Gilberto, morto na semana passada, e o “Brasil que ele cantou”. Agradeceu ao ator e diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa por tê-la guiado pela obra euclidiana ao recontá-la em seu Teatro Oficina.

Na sequência, Walnice Nogueira Galvão — autora de mais de doze obras sobre Euclides — compartilhou reflexões e impressões acerca da obra-prima do homenageado. Contou que o relato se tornou, como disse o próprio autor, um “livro vingador” — que diferentemente das demais versões sobre Canudos, não transmitia um ponto de vista único, o dos militares. A professora reforçou que a propaganda contra Canudos foi uma fraude. “Ao contrário do que se dizia, os canudenses não eram monarquistas e nem queriam derrubar o governo. Queriam ficar quietos, e não apresentavam ameaça: nem arma tinham”. A partir disso, Nogueira Galvão sentiu vontade de, nos anos 1970, durante a ditadura civil-militar brasileira, revelar que o Exército e a imprensa haviam, à época, mentido ao país. “Assim se vê que não foi Donald Trump quem inventou a fake news. Canudos foi uma das maiores fraudes da história do Brasil. Talvez tenha sido a primeira, vocês sabem perfeitamente que não foi a última”.

Ao final, a crítica literária fez considerações sobre o povo que constituía Canudos, formado por trabalhadores praticamente escravizados nas fazendas vizinhas, que fugiam dos serviços forçados. “Logo as fazendas se esvaziaram. Os fazendeiros começaram então a falar que os canudenses tomariam suas fazendas e matariam todo mundo. Pensaram: ‘Vamos matá-los, antes que nos matem.’” Walnice relacionou Canudos ao Movimentos dos Trabalhadores Sem Terra: “Me perguntam o que os canudenses têm a ver com o MST. É a falta de reforma agrária, de iniquidade de terras, de iniquidade de tudo no Brasil”. “Enquanto o capitalismo não acabar, teremos que ler Os sertões para saber o que acontece com os pobres do país — o genocídio de jovens negros, a militarização das favelas no Rio, desastres de Mariana e Brumadinho, por exemplo”, afirmou, sob fortes aplausos.







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