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Casos e Causos

FLIP 2019 - Plurale presente

Por Maurette Brandt, Especial para Plurale

De Paraty (RJ)

PALETÓ E EU, OU COMO AMAR A DIVERSIDADE

Aparecida Vilaça (foto), antropóloga carioca, foi a campo diversas vezes em nome do conhecimento. E numa delas, definitiva, conviveu com os ‘wari, povo indígena que sobreviveu a muitos massacres pela vida. Chegou sem mais nem dizer, sem conhecer a língua – e sem saber que, lá, ganharia um pai, irmãos e estabeleceria relações para a vida inteira.

Isso foi em Bendegó, a terra da região de Canudos onde caiu o famoso meteorito que ardeu mas não queimou, no recente incêndio do Museu Nacional, e que lhe valeu o nome. Ali a jovem pesquisadora conheceu Paletó, que se tornaria seu pai indígena. - Um intelectual, pensador, curioso e completamente aberto às novidades – orgulha-se. Paletó não só a protegeu como ensinou a língua, apresentou-a à comida e até sugeriu que, para ser mesmo uma deles, se casasse com um ‘wari. A sugestão foi recusada, mas o amor e a amizade criaram raízes.

Aparecida descobriu a vida com os ‘waris e trouxe também o pai para seu mundo urbano. Da mesma forma, as muitas visitas ao Rio de Janeiro o marcaram. Com o tempo, a filha o ajudou a redescobrir o mundo dele sob a perspectiva dos períodos que passava na cidade.

Paletó e eu, o primeiro livro escrito para “falar com todo mundo, porque os acadêmicos são muito específicos”, navega sobre essa poderosa história afetiva.

O apelido ele ganhou quando o povo ‘wari, que sempre andou nu, teve os primeiros contatos com não-indígenas. E esses logo queriam cobrir os índios – observa. – Paletó jamais aceitou as roupas, até que apareceu por lá um paletó desses de terno. Bem formal. Ele adorou e passou a usá-lo sempre, em cima do corpo nu –conta.

Paletó foi avô para os filhos de Aparecida, Francisco e André, que frequentaram a aldeia desde pequenos. André, por sinal, aprendeu tudo que pôde, pois adorava fazer tudo que Paletó fazia. O avô chegou a fazer para ele um arco e flecha, quando era bem pequeno, como reza a tradição da aldeia. Aparecida conta que Paletó sempre dizia, orgulhoso: - Mas esse seu menor é bom pra fazer as coisas, hein?

Apresentado ao pai biológico da filha, passou a chamá-lo “irmão”. - Os dois ficaram muito amigos e costumavam dançar juntos - relembra Aparecida.

Ao falar sobre o livro, que a ajudou a elaborar a morte de Paletó, em 2017, Aparecida alerta para a situação drástica vivida pelos povos indígenas, que vêm sendo constantemente ameaçados e têm suas terras invadidas. – Os indígenas viraram alvo novamente. Estamos vivendo um retrocesso enorme. Todos os direitos assegurados pela Constituição de 1988 estão ameaçados. Felizmente o Congresso Nacional tem atuado pra impedir que muitos decretos passem. Este governo tem desprezo pelas terras e pela cultura indígena. No Matogrosso do Sul e na Amazônia, as invasões tem sido frequentes.

- Precisamos compreender que a luta dos povos indígenas é uma luta de todos nós – alerta. – Muita gente não entende que, se não tivermos diversidade, a gente morre. Essas pessoas que consideram o índio “inferior” não sabem que somos nós que precisamos nos civilizar com eles! Chegam lá, tiram a terra – que é essencial -, evangelizam... e acaba tudo para as populações indígenas!

Aparecida conta que Paletó sempre carregou na alma as marcas do massacre que dizimou sua família e dois terços da tribo, há muitos anos. Sua mulher e uma filha pequena foram mortas ao mesmo tempo, implacavelmente. – A coisa é pesada – reconhece. – As pessoas estão armadas até os dentes. A gente precisa amar a diversidade, abrir a mente e o coração. São intelectuais quee, se estivessem aqui com a gente, ganhariam vários prêmios Nobel. Precisa amar primeiro, gente. A gente sempre defende o que gosta. Então, vamos amá-los para defendê-los!

Pesquisadora do Museu Nacional, Aparecida Vilaça relembra o trágico incêndio e se insurge contra o descaso e o absurdo. – Foi uma tragédia para o Brasil, para os brasileiros e sobretudo para os pesquisadores e alunos – diz, com tristeza. – Foram anos e anos pedindo verbas para os reparos necessários, para a conservação de um dos acervos mais importantes da América Latina, que nunca poderemos recuperar. Mas as verbas nunca chegavam, nem do Estado e nem do Governo Federal. Era um dos museus mais frequentados do país, com coleções respeitadíssimas no mundo todo. Impotentes, colocamos o nosso Museu no colo, num abraço simbólico que representava tudo que sentíamos naquele momento. E é por essas e outras que precisamos amar e respeitar as nossas populações indígenas, para que não sejam dizimadas e para que seu legado não se transforme também em cinzas – finaliza.

BREVES NOTAS E TRAÇADOS DE UM SAMBA QUE DESAFINOU

Pela via da arquitetura trafegam as canções, a modernidade chegando e, com ela, um projeto de país que tinha a cara do futuro. O pavimento aberto no Planalto Central do país parecia garantir tudo que se queria, igualdade, água, alegria. Um infinito vão de possibilidades.

Foi dessa matéria improvável que trataram os arquitetos Guilherme Wisnik, brasileiro, e Nuno Grande, português, que ladearam a cantora e compositora Adriana Calcanhoto, em sua melhor pele da Mulher do Pau-Brasil. A mesa, gratuita e inspirada numa exposição sobre arquitetura brasileira organizada por Wisnik em Portugal, foi chamada de Uauá, outra localidade no caminho de Canudos, e aconteceu no Auditório da Matriz, bem ao meio-dia, bem no meio do mundo.

Entre vãos e pilotis, de Affonso Reidy a Niemeyer, os três esmiuçaram o plano piloto do Brasil que nascia com JK, com a bossa-nova, e com edificações que mudavam a paisagem. Fotos, poemas, canções e um filme sobre a Brasília que nascia, com intenções promocionais, que Joaquim Pedro de Andrade forjou a ferro e fogo em película, marcaram uma conversa firme, compassada, convicta, que emocionou e levantou a plateia, marcando com tintas fortes o tom real do momento presente.







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