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Tragédia em Brumadinho

FLIP 2019 - Encontro marcante de jornalistas ambientais

Cristina Serra e David Wallace-Wells foram destaques na Festa Literária Internacional de Paraty

Por Maurette Brandt, Especial para Plurale

De Paraty (RJ) / Foto de Divulgação

Presença vibrante na última mesa de sábado, 13/7, da Flip 2019, que dividiu com o norte-americano David Wallace-Wells, a paraense Cristina Serra – cujo rosto e competência marcaram presença no jornalismo da Globo por 26 anos - reflete sobre a tragédia ambiental de Mariana, que retratou em livro e cujos danos incalculáveis e injustiças ainda persistem

- Eu aposto com você que ninguém será punido – declara. – O processo judicial de Mariana está literalmente parado. Na pequena jurisdição de Ponte Nova, que inclui Mariana e cidades próximas, quanto tempo vai levar para o juiz ouvir as mais de 200 testemunhas e percorrer milhares de páginas do processo? Como esperar que um processo tão importante e da dimensão do de Mariana possa ser agilizado sem criar, para isso, uma força-tarefa com vários juízes e uma estrutura especial, dada a importância dele? Ainda tem famílias que não receberam suas indenizações. Isso sem falar no fato de suas terras e raízes terem sido arrastadas junto com a lama – diz, sem esconder o desânimo.

Cristina Serra sabe do que está falando. Desde 5 de novembro de 2015, quando a barragem de Mariana se rompeu, foram três anos e dois meses, com duas licenças do trabalho na Rede Globo, dedicados a apurar e escrever o livro Tragédia em Mariana, lançado este ano (Editora Record), obra de estreia que vem abalando alicerces e convicções sobre o tema.

Logo que chegou a Mariana, em 2015, para cobrir a queda da barragem para o Fantástico, Cristina Serra sentiu que a questão merecia muito mais do que apenas reportagens. – Merecia uma grande investigação, apuração de responsabilidades – conta. – Por mais que a Samarco e a Vale tentassem, não daria para sustentar uma versão de “desastre natural”, pois ficou claro que houve omissão e irresponsabilidade, passíveis de apuração, julgamento e condenação.

Entre o início do drama de Mariana e a conclusão do livro, Cristina Serra percorreria duas vezes o Rio Doce, desde a nascente, em Ressaquinha, Minas Gerais, até sua foz, na vila de Regência, município de Linhares, no Espírito Santo. – Até chegar ao ponto onde a barragem rompeu, mais ou menos em Ponte Nova, não houve problemas, mas a partir daí a lama soterrou vários afluentes. Rios menores, como o Rio do Carmo e o Rio Gualacho do Norte, por exemplo, sofreram danos irreversíveis, por terem menos potencial de sobrevivência e reação – relata. – Já o Rio Doce é bem mais largo e tem mais chance. Mesmo assim está muito assoreado e assolado por especulações ao longo das margens – explica Cristina, que acompanhou a lama até a cidade de Governador Valadares.

De Mariana a Brumadinho

Na comparação entre as duas catástrofes, Cristina Serra explica que, se em Brumadinho a tragédia humana foi muito mais grave – 200 mortos, contra 19 em Mariana - no terreno ambiental a situação é muito mais séria nessa última. – O Rio Paraopeba está morto. A lama chega no São Francisco e dizem que já está em Três Marias – lamenta. – Algumas teorias acham que, por ser um lago tão grande, poderá, talvez, absorver a lama. Mas não há certeza.

Para Cristina, que conviveu longamente com a população da região de Mariana e realizou incontáveis entrevistas para contar no livro as histórias humanas, não há nada que se compare à tragédia pessoal que aquelas pessoas viveram e ainda vivem.

- É uma grande depressão, não dá pra imaginar – revela. - São pessoas que tiveram suas raízes apagadas, que foram privadas do local onde nasceram e viveram a vida inteira, porque esse lugar foi tragado pela lama. Foi o caso de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, por exemplo. Muitas delas ainda não receberam suas indenizações, pra você ver – indigna-se. E o impacto emocional vai continuar enquanto essas feridas não forem devidamente tratadas, enquanto houver impunidade e enquanto essas pessoas não receberem o devido respeito – avalia.

Catástrofes anunciadas

Em sua participação na mesa 19 (Corobó) da Flip 2019, no sábado, 13/7, Cristina Serra explicou que os riscos para o meio ambiente começam já no processo de licenciamento ambiental das minerações.

São muitas facilidades que as empresas têm. Os governos não exigem que elas cumpram todas as exigências da Lei de Licenciamento Ambiental. Na verdade, desde o Ciclo do Ouro que a mineração, no Brasil, tem sido uma máquina de moer gente – relata. – Segurança nunca é prioridade das empresas. O sistema de alteamento a montante, usado na construção da maioria das barragens, não é usado em nenhum outro lugar do mundo.

E cita o caso da mina de Itabira, no século dezenove, que foi inundada para diminuir o “impacto” de um desabamento interno. – Quem não morreu soterrado morreu afogado, é a triste realidade – relata. Na época, a mina era de capital inglês.

- As empresas são o poder público nesses locais, não tenhamos ilusões – explica. - Para se ter uma ideia, 80% dos deputados regionais da atual legislatura foram eleitos com dinheiro dessas empresas. E tem mais: as sirenes não eram obrigatórias em Mariana. O atual modelo de gestão, conhecido como “autodeclarado”, está claro que não funciona – e que precisa mudar. Portanto, a Lei de Licenciamento Ambiental é o novo campo de batalha para tentarmos garantir que tragédias como essas sejam evitadas no futuro – afirma.

A moderação da roda de diálogo foi da também jornalista da GloboNews, Júlia Duailibi.

Autor de A terra inabitável: uma história do futuro (Companhia das Letras, 2019), produzido a partir de uma reportagem-bomba sobre o aquecimento global que teve mais de 6 milhões de acessos, o norte-americano David Wallace-Wells, que dividiu a mesa com Cris Serra, é especialista em mudanças climáticas e editor literário da The New York Magazine. Trouxe para nós a triste constatação de que a Terra está no limite do esgotamento – e que, se não interrompermos já as emissões de carbono, não haverá salvação. E mais: os últimos 30 anos foram responsáveis por esse estado de calamidade. Até as décadas de 1970 e início de 1980, a situação estava estabilizada.

- Temos de avaliar o que nós fizemos e encarar o desafio – alerta. – O clima é a situação mais grave. Se as pessoas estão engajadas em qualquer outra causa ambiental, é o clima que tem de vir na frente, pois se chegarmos ao limite final, não será possível sobreviver – afirma. – Mas as pessoas não querem abandonar seus confortos, suas viagens etc. Só que, se continuar assim, a queima de combustíveis fósseis vai matar 153 milhões de pessoas.

David Wallace-Wells disse que adoraria acreditar que a Terra sobreviverá e ainda será habitável quando seu filho crescer, mas que, infelizmente, isso é altamente improvável. – Já não temos mais tempo – resigna-se.

Cristina vê com preocupação as novas políticas ambientais para a Amazônia. – A recente tentativa de desqualificar, internacionalmente, interlocutores respeitados e legítimos, como Raoni, ou mesmo de macular a memória de Chico Mendes, são muito preocupantes. A luta, agora mais do que nunca, é pela preservação e ampliação da legislação ambiental – alerta.

- Pouca coisa resta do cerrado original – aponta Cristina. - E temos apenas 12% da Mata Atlântica original. As sinalizações positivas do governo para o agronegócio são evidentes. Será que estamos dispostos a pagar o preço de perder o que ainda resta das nossas florestas? – questiona, deixando a pergunta no ar, ao final da mesa.







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Antonio Bento |
Parabenizo a equipe de Plurale em revista pelos 12 anos, especialmente a matéria sobre a Festa Literária de Paraty, por Maurette Brandt.