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Casos e Causos

FLIP 2019 - Olhos de sereno, raízes de aroeira

Por Maurette Brandt

Especial para Plurale

De Paraty (RJ)/ Foto de Divulgação (Grupo Editorial Record)

Arquiteta urbanista, carioca, 32 anos. Deixou brevemente o Rio por Brasília, mas a vida na capital federal alterou seus meridianos e o retorno é iminente. Anotem: é pontualíssima, além de divertida e espirituosa. Quando emprestava livros, agia como uma verdadeira biblioteca: etiqueta no livro com a data da retirada e a data estipulada para devolução, que anotava num caderno para cobrar, com rigor, o retorno do volume. Gosta de uma boa conversa e rouba a cena sem intenção. Uma criança grande que ultrapassa o metro e oitenta na forma, mas que no conteúdo está quilômetros além. E quando é apresentada a alguém, diz apenas “muito prazer, Mônica.”

Mesmo o ser mais distraído não conseguiria tirar os olhos dela, desde o primeiro momento. Mais difícil ainda seria identificá-la, assim à primeira vista, com o papel que forçosamente passou a ter, no cenário recente da violência nacional, a partir do brutal (e ainda não devidamente esclarecido) assassinato de sua companheira, a vereadora Marielle Franco.

Em Paraty - onde participou no dia 12/7 da mesa “Sobre lutas e lágrimas”, na Casa Libre, uma das instituições parceiras da Flip, ao lado do escritor Mário Magalhães - Monica Benício desabrocha num almoço informal, promovido pela editora Record, para alguns jornalistas e parceiros. E lá estou eu, de frente para ela, de frente para o mundo.

Numa algazarra divertidíssima que tem Brasília como foco e alvo, Mônica confessa suas amplas dificuldades com o cerrado. – Sou arquiteta urbanista e não consigo conviver com aquilo! – diz, entre risos. – Tou voltando para o Rio, onde consigo me situar. As opiniões mais diversas sobre a capital federal circularam, entre risos, pelo pequeno grupo de quatro ou cinco pessoas. E foram dando lugar, devagarinho, a capítulos de uma história pessoal de fundas marcas. Mônica revela então, aos poucos, o tanto que há por trás de uma alegria que não é disfarce, mas ponte. Fala de um livro que está gestando para a Record, na companhia de sua editora Lívia. – Já perdi a conta das ofertas de livro, filme e série que já recusei – conta. – Eu só me decidi porque, neste agora, eu vou contar a história da nossa vida, minha e da Marielle, do jeito que a gente viveu, mesmo. E não é nada fácil pra mim, gente, eu garanto. Por isso é que não sei direito quando é que esse livro vai ficar pronto, mas quando ficar, será uma coisa bem verdadeira, que não tem a ver com essa Marielle inventada pelo imaginário das pessoas, depois de sua morte.

- A gente não tinha histórico, nem eu e nem ela, de relacionamentos com mulheres – conta. – E, até mesmo em função da educação que recebemos, nós mesmas tínhamos dificuldade em aceitar isso sem uma ponta de vergonha interna, mesmo. Isso sem falar da rejeição da família e de muitos amigos. E no caso da Marielle, sendo uma mulher negra, essa rejeição era ainda maior.

As duas se conheceram num aeroporto, reunidas por uma viagem de um projeto social. – Eu conto cada segundo depois da hora marcada – ri Mônica. – A Mônica é pontualíssima – interrompe, confirmando, a editora (e já amiga) Lívia. – Então me fizeram esperar duas horas porque a tal da Marielle estava atrasada! Imagina isso! Então eu já estava bem brava quando ela chegou, com a filha pequena. Mas eu estava com um ursinho de pelúcia na mão – e a criança, lógico, correu pra mim. As crianças me adoram! Aí comecei a brincar com a menina, que se chamava Luyara, mas eu, como sou péssima em nomes, esquecia toda hora. Por fim, alguém me disse que ela tinha apelido de Lulu e pronto, resolveu o meu problema – relembra, rindo.

Quando a mãe da criança, enfim, dirigiu-se a ela, Mônica nem sequer a olhou, pois ainda estava chateada com o longo atraso. – A gente só começou a conversar depois, mas nos demos bem e ficamos amigas. Tínhamos muita afinidade e começamos a nos ver mais e mais. O chato é que algumas pessoas começaram a maldar – e aquilo ofendia a gente! Digo de coração, porque não havia nada além. A gente se sentia mal, sabe como é, aprendemos que era feio, que era errado. Levou muito tempo pra gente entender que o que estava acontecendo, na verdade, era amor mesmo. E aí começou o inferno.

Enfrentar o mundo já não era fácil para moças da periferia, que tinham de lutar de todos os modos e maneiras para conquistar seu lugar. O que dizer, então, de duas mulheres que se descobrem enamoradas? - Fui rejeitada pela minha família. Parecia que eu tinha uma doença. Imagina, meu irmão quis me agredir! Virou-se pra mim e perguntou: ‘Você quer ser homem, né?’, e já ia partir pra cima de mim. Só não me agrediu porque eu disse: ‘Não quero ser homem, não! Mas se vai me bater, capricha na porrada pra não se arrepender, porque daqui eu vou direto na DP dar queixa de você! – rememora, com um véu de tristeza no olhar.

- Podemos falar de três Marielles: aquela que começou, menina ainda, nos projetos da comunidade, estudou, começou a batalhar por justiça em várias frentes e se elegeu vereadora. Existe a Marielle que era minha companheira, com quem eu vivia, que eu amava. E existe essa nova Marielle, essa que a mídia criou, que não tem nada a ver com as outras duas. Talvez essa Marielle inventada seja importante pelas bandeiras que carrega, pelo senso de justiça que inspira, mas ela na verdade não existe.

- Eu posso falar, posso testemunhar, posso explicar os projetos da Marielle, defender tudo que ela acreditava, falar sobre a investigação etc., em qualquer lugar do mundo. Isso tudo eu tiro de letra. O difícil é quando alguém me pergunta: ‘Mas e você, Mônica? Como é que você está?” – Aí é barra. Eu ainda nem sei direito como é que eu estou. É muita coisa pra digerir, muita coisa pra lidar, para enfrentar... O projeto desse livro, ele vai ajudar. Mas eu sei que vai demorar. Por que só eu é que posso abrir as caixinhas, mexer, cuidar do que dói, transformar em palavras.

- Não sei, tem horas que eu penso que as pessoas acham que a gente é só um corpo que anda por aí, que representa alguma coisa. Eu, enquanto mulher lésbica, sou uma pessoa inteira, que sente, que sofre, que se indigna, que se levanta contra as injustiças. Sou uma mulher que estava em casa, fazendo o jantar, e tinha falado com minha companheira há cinco minutos e, de repente, recebo a notícia de que ela não vai voltar! Que ligava, ligava pro telefone dela e não atendia mais! Quem é que vai me explicar por que é que a minha mulher não vem jantar? Como lidar com isso????

- Eu tinha três opções: ou ficar me lamentando, entrar em depressão e não sair da cama; ou me fechar completamente, negar, sei lá; ou fazer o que eu estou fazendo hoje. E estou fazendo isso, falando com as pessoas, defendendo as causas que eu e Marielle sempre defendemos, procurando fazer a minha parte nesse cenário tão dilacerado, tão dividido como é o Brasil hoje. E buscando justiça para Marielle. Sei lá, é questão de sobrevivência! Eu só consigo enxergar sobrevivência na luta. É o que eu consigo fazer.

Entre os risos e intervalos desse abrir de alma, os olhos de Mônica serenam. O brilho das pupilas varia entre a confiança, a fé, a tristeza, o ‘me ajude’, o ‘sou forte’, o ‘estou frágil’, o ‘cacete’... São muitos, todos de uma nítida sinceridade. O que se percebe é que, em suas veias, deve correr seiva de aroeira. Aquela mesma árvore que, segundo reza o mestre Ivan Lins, “mesmo depois de morta, ela brota/só pra desafiar”.

Mônica Benicio é verdade em estado bruto, em véspera de aurora. E mesmo numa conversa tão eventual e intensa como essa, com pessoas que talvez não venha a encontrar novamente, não deixa a menor dúvida de que vai chegar exatamente aonde deseja e precisa chegar.







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1 comentário | Comente

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Keli Vasconcelos |
Uau, que reportagem linda. Parabéns! A Maurette escreve bem demais. Obrigada sempre !