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Como é feita a sua roupa? É preciso dialogar a respeito

Do Fundo Elas

O I Diálogo ELAS na Moda e Sem Violência reuniu mais de 40 mulheres de várias partes do Brasil para debater sobre a longa cadeia da moda, que vai desde o plantio do algodão até as passarelas. Nos dias 1 e 2 de julho, agricultoras, trabalhadoras da indústria têxtil, costureiras, artesãs, pesquisadoras e empreendedoras se reuniram no Rio de Janeiro para pensar juntas e contribuir na elaboração do Edital ELAS na Moda e Sem Violência – resultado de uma parceria entre o Fundo Social ELAS e o Instituto C&A.

As mulheres são 75% das trabalhadoras do campo da moda e também são a maioria no subemprego, com menores salários. Além disso, são vítimas diretas da violência doméstica e familiar.

A diversidade das participantes do Diálogo deu a dimensão do desafio e da complexidade da questão, ao mesmo tempo que trouxe a criatividade e resistência de mulheres que tecem cotidianamente suas histórias de enfrentamento às desigualdades.

Uma pesquisa do Observatório do Trabalho do Estado de Pernambuco realizada pelo DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Diagnóstico do Setor Têxtil e de Confecções de Caruaru e Região, divulgada em 2010) constatou que a indústria da confecção é significativa na região do Agreste Pernambucano, mas isso não se traduz na qualidade de vida. Há uma cultura do "trabalho por conta própria", que, na prática, coloca a cadeia da moda fora do mercado de trabalho formal. “Estamos falando de cerca de 80% das mulheres que trabalham no ramo, no estado de Pernambuco, que não contribuem para a Previdência”, alerta Milena Prado, pesquisadora do DIEESE. Ela destaca que “Entrevistar a trabalhadora informal não é fácil... ela está a 12/15 horas na máquina!!”.

Quando as trabalhadoras do setor dizem “Meu sonho é não trabalhar o dia inteiro”, fica claro que elas não conseguem separar a hora do trabalho, do lar e do lazer, e muitas sequer conseguem perceber a violação de seus direitos, segundo Liliana Barros, do grupo Cidadania Feminina. No município de Toritama, em Pernambuco, por exemplo, as atividades laborais giram em torno do jeans. As mulheres trabalham nas suas próprias casas e recebem 25 centavos para limpar o jeans. Não questionam as condições de trabalho por medo de perder esses centavos, sem se dar conta dos riscos à sua saúde e da sua família. É no reflexo da luz que entra nas casas que se vê a poeira suspensa do jeans. Geralmente as crianças que vivem na casa são as primeiras a adoecer.

As desigualdades e violências não estão restritas ao polo nordestino. Existem muitas diferenças regionais e por setor. O setor calçadista é bastante violento, como afirma a pesquisadora da UNICAMP (SP) Mariana Pereira de Castro. Assédio moral e assédio sexual aparecem em pesquisas, mas é preciso lembrar que as mulheres que trabalham no setor lidam com produtos químicos (em quantidade e tempo superiores ao recomendado), têm 3 minutos para ir ao banheiro, esquentam a comida na chapa enquanto trabalham porque não tem tempo para comer... “E são empresas grandes!!”, ressalta a pesquisadora.

São mulheres, em sua maioria, negras, pobres, que dependem desse trabalho para seu sustento e da sua família. Com as mulheres imigrantes essa relação não é menos violenta. “Elas são invisíveis”, conta Soledad Requena, do CAMI – Centro de Apoio ao Imigrante, que trabalha há 20 anos com a temática de gênero. “São bolivianas, peruanas e agora venezuelanas e contribuem com o desenvolvimento do Brasil! A mão dessa mulher invisível está na roupa que usamos!”

Entretanto, Soledad Requena afirma que apesar da grande informalidade, da baixa escolaridade e dificuldades com o idioma, das violências que trazem na bagagem, elas não se sentem “coitadinhas”. A sororidade – solidariedade entre elas – vem se mostrando como uma potência que se traduz no empreendedorismo solidário e coletivo de uma rede de imigrantes solidários.

A moda afro-brasileira também se destacou no I Diálogo ELAS na Moda e Sem Violência. Muito mais do que a confecção de roupas e turbantes, traz a cultura e identidade de uma grande parcela do povo brasileiro que não se vê representado na moda que segue copiando o modelo europeu.

“A Feira Preta é a maior feira em São Paulo e o maior festival de cultura preta na América Latina. 50% dos empreendedores brasileiros são negros e 85% são mulheres!” relata Ludmyla Farias, embaixadora da Feira Preta no Rio de Janeiro e replicadora do AFROLAB. Assim como tantas outras participantes do evento, Ludmyla aponta um caminho quando afirma: "Quando a gente fala de não violência, a maior construção é a escuta."

Escutar. Trocar. Construir juntas. Tecer e costurar a várias mãos e a partir de vários olhares:

Moda afro-brasileira, de comunidades tradicionais, de periferias, produzida por mulheres negras, indígenas, lésbicas, trans... Identidade. Transparência. Trabalho. Geração de Renda. Direitos. Elas defendem que essas questões precisam fazer parte do edital que será lançado em breve.

Fortalecimento foi a palavra chave que representou o sentimento do grupo ao final de dois dias de Diálogo. Fortalecimento é o que o edital ELAS na Moda e Sem Violência buscará ao apoiar projetos coordenados por mulheres que atuem pelo fim da violência nos seus espaços de trabalho, nas localidades onde vivem e comercializam os seus produtos.







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