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Artigos e Estudos

Sentidos da Partilha: entre o capital social e os negócios

Daniela Viegas

Professora do Centro Universitário UNA

Doutora em Administração pelo PPGA da PUC Minas

Armindo dos Santos de Sousa Teodósio (Téo)

Professor do Programa de Pós-Graduação em Administração da PUC Minas

Doutor em Administração pela FGV EAESP

Embora a prática da partilha não seja recente em sociedade, ao remontar práticas das comunidades e da vida das trocas interioranas, na contemporaneidade a partilha converteu-se em negócio. Abrir a casa para um estranho se hospedar ou dividir o trajeto com outro passageiro em um carro compartilhado por meio de um aplicativo de celular são possibilidades e novas configurações de uma economia que usa, e às vezes abusa, do compartilhamento como forma organizativa.

A economia da partilha se diferenciaria das práticas tradicionais de mercado ao atuar por meio da alteridade e colaboração entre os atores sociais e possibilidade de ganhos sem fins monetários. São formas de interação que podem envolver a troca, cessão, aluguel, venda de usados e empréstimo, dentre outras. O significado da partilha se altera de acordo com o envolvimento das pessoas na distribuição de recursos. Torna-se relevante entender quais associações e sentidos as pessoas geram ao se envolverem em processos de partilha. No lugar de comprar ou possuir, as pessoas optariam pela experiência de acessar temporariamente bens e serviços, mas essa concepção da circularidade teria potencial para induzir uma mudança transformadora em direção à sustentabilidade?

Existe um movimento crescente de atores aparentemente interessados na mudança social em direção à difusão da economia da partilha. São experimentos que buscam um equilíbrio entre trabalho, missão, paixão e interesses públicos e privados. Os empreendimentos contemplam o comércio justo, consumo sustentável, sistemas em rede e não hierárquicos, novos modelos de educação, ocupação urbana, intercâmbio de conhecimentos, participação, inclusão social, agricultura urbana, bem como a valorização dos mercados locais e a defesa de causas socioambientais, dentre inúmeros outras dimensões da vida em sociedade. A reflexão atenta em direção a essas iniciativas é importante para que não configurem novos discursos interessados sob a conhecida estrutura exploradora do sistema em que vivemos.

Um olhar em direção ao rol de iniciativas que compõem a chamada economia da partilha pode levar a um encantamento pela proposta. Diante de um discurso que se vale de termos como colaboração, compartilhamento e, no original em inglês, sharing, para descrever práticas que, em alguns casos, recuperam antigas dinâmicas de troca entre pessoas em uma comunidade, muitos acabam por serem seduzidos e apoiarem, pelo menos no nível discursivo, esse tipo de ação social.

A confiança entre os indivíduos, o fortalecimento de comunidades e o empoderamento de pessoas e movimentos sociais são alguns dos elementos que os defensores da economia do compartilhamento reproduzem em seus discursos. Esses princípios trazem implicações também para a forma como a vida social nas cidades se reproduz, por isso é preciso refletir se o ter e o possuir seriam convertidos no trocar e o acessar. O movimento da partilha vem se traduzindo como uma área que tem atraído investimento por parte de empreendimentos e organizações que atuam de forma tradicional nos mercados. Isso indica que a colaboração tem se tornado um fator para a difusão de negócios no mundo de hoje. Entretanto, dúvidas importantes residem sobre qual dinâmica impacta mais qual dinâmica: a partilha estaria transformando os mercados tradicionais em espaços mais sensíveis e articulados às lutas sociais e ambientais ou as formas tradicionais de geração de negócios estariam alterando processos tradicionais de compartilhamento e ampliando o espaço de reprodução de lógicas tradicionais de produzir, trabalhar, viver e consumir em sociedade?

Para a partilha ter condições de proporcionar mecanismos para a mobilização da sociedade civil, a fim de conduzir a melhorias nos modos de vida é preciso entender quais potências ela carrega e quais contradições ela (re)cria. Considerando as necessárias transformações do modo economicista para atingir essas condições, deveríamos pensar em uma economia além da própria economia, como um conjunto de práticas sociais ao redor dos desafios de organização social para produzir, trabalhar, acessar bens e serviços e conviver em sociedade. Essa visão, entretanto, é permeada por contradições e desafios que exigem o esforço coletivo para barrar os processos de desconstrução de direitos que presenciamos ao redor do mundo de hoje. A economia da partilha está relacionada à ação, à prática cotidiana, e essa pode ser a potência do sistema da partilha para gerar transformação em direção a sociedades mais justas, democráticas e sustentáveis.

A realidade, desta maneira, é firmada por meio das práticas do comum e das resistências. Apesar das práticas da economia da partilha apresentarem concepções que fogem à lógica estritamente financeira da maximização individual de egoísmos e rendimentos, uma visão apurada e crítica dessa dinâmica desvela que os pilares da economia tradicional permanecem no seio da economia da partilha.

O valor social da partilha seria minimizado frente à possibilidade de ganhos individuais por meio da ampliação do acesso, e não necessariamente da partilha, o que reforçaria a essência do sistema de acumulação hegemônico, aprofundando estruturas de dominação e renovando conflitos e contradições na construção de sociedades justas, democráticas e sustentáveis. Nesse contexto socialmente construído, é preciso enxergar as fontes de enganação, de poder e de crítica para pensar a troca e como enxergá-la.

Superando visões ingênuas que buscam classificar ou separar em dois lados de forma dicotômica o que é e o que não é partilha, é preciso ter sempre em mente que as motivações dos atores sociais são multidimensionais, sendo que as ações seriam determinadas tanto por valores quanto por interesses. São diversas as faces da partilha. Desde as mais mercadocêntricas (como o Uber, por exemplo), até as menos mediadas pelo dinheiro (comunitaristas, como as trocas de alimentos entre vizinhos numa comunidade), intercedidas ou não por tecnologia, de bens tangíveis (produtos, bens, espaços etc.) e não-tangíveis (serviços, horas de dedicação/ trabalho/ contribuição), e/ou de exploração/excesso. Essas faces da partilha podem se manifestar em uma mesma iniciativa, empreendimento, instituição ou fenômeno, sendo complexa a separação entre suas orientações altruístas e autointeressadas, cooperativas e competitivas, culturais, sociais e econômicas na ação social. Pelo contrário, considera-se que essas dimensões são imbricadas e híbridas, por isso, talvez, o fenômeno da partilha seja tão intrigante.

Portanto, partilha em que sentido? Para responder ao questionamento, é necessário discutir as transformações que estamos vivenciando a partir desse velho/novo movimento da partilha, entendendo que ele se apresenta, muitas vezes, como mais uma forma de exploração capitalista, encoberta pela ideia de comunhão, sustentabilidade e paridade, quando, na verdade, a desigualdade permanece e se reafirma, velada ou aparente nas relações de troca. A economia da partilha pode assumir diferentes sentidos a partir dos contextos em que opera, maneiras que se organiza e relações que são construídas. Assumir respostas prontas e definitivas para o fenômeno da partilha, sem analisar em quais contextos e grupos de atores sociais envolvidos, se ela amplia potências de transformação social em direção à sustentabilidade e democracia e em quais situações isso não se manifesta ou é mitigado, torna-se essencial. Cabe ao leitor que nos acompanhou até aqui se indagar se está preparado para conviver com perguntas que não têm respostas prontas, pois o futuro da sustentabilidade não pode estar pronto. Se estiver – se estivesse – não haverá sustentabilidade no tempo futuro. O futuro está por construir e exigir de todos nós respostas complexas e contextuais para questões complexas, sempre. No que tange ao fenômeno da partilha, um dos mais expressivos de nossos tempos, essa incompletude pode ser o motor para a transformação social que tanto ansiamos.







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