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PLURALE EM REVISTA , EDIÇÃO 67 - "Encarar 2019"

Por Christian Travassos, Colunista de Plurale

Memes são a linguagem da vez. Um assunto toma o noticiário e eles brotam nas redes sociais. Um bastante popular associava a imagem do ator Keanu Reeves à do saudoso humorista Mussum. Afinal, qual seria a relação entre o astro hollywoodiano e o ícone comediante-sambista? “Que ano horrívis!”. Não é o melhor dos memes, mas aqui nos será útil. Circulou em dezembro de 2014, 2015, como uma brincadeira para fechar mais um ano de desafios – e algumas frustrações.

Neste 2019, março ainda não havia acabado e já se multiplicavam postagens como “Que ano é esse?!”, “Vem 2020!”. E aqui não entra qualquer matiz político-partidário. Colhemos uma safra de acontecimentos cultivada por décadas. É preciso ter chegado há pouco de Marte, ou acordado de um coma de meio século, para ignorar isso.

Comecemos pela cepa de mandatários capaz de manter por 40 anos um esquema de corrupção que desviou do erário fluminense montante estimado pelo Ministério Público em R$ 1,8 bilhão. No estado, os cinco ex-governadores vivos eleitos estão ou já foram presos por corrupção. Deputados estaduais tomaram posse em 2019 no Complexo Penitenciário de Bangu, Zona Oeste do Rio. Não é difícil entender como chegamos até aqui.

Na mesma região carioca, um enredo marcado por falta de investimento público, vista grossa da fiscalização, liberdade para milicianos, vulnerabilidade social, enxurrada tropical resultou na morte de 24 pessoas na comunidade conhecida como Muzema. Sem falar nos demais casos atribuídos, de forma simplista, às chuvas na cidade cartão postal do país, onde o IPTU aumentou em muitos bairros mais de 100% nos últimos dois anos.

A corrupção corrói o bem estar social e o ambiente de negócios por muitas vias: ceifa vidas, prejudica a prestação de serviços públicos, a alocação de recursos, o PIB potencial, encarece a oferta de infraestrutura – quando existe -, afugenta investimentos.

Quando a barragem de rejeitos de uma subsidiária da Vale em Mariana (MG) se rompeu em novembro de 2015, a devastação provocada pelo até então maior desastre socioambiental do país fez muita gente pensar que uma tragédia dessa magnitude jamais se repetiria. Três anos depois, a conduta da empresa e sua influência no quadro de fiscalização em Minas Gerais deram em nova catástrofe, desta vez em Brumadinho. A necrose burocrata desta vez matou mais de 300 pessoas, arrasou a economia da região e seu ecossistema, com impactos num raio de centenas de quilômetros.

Assim como havia ocorrido na boate Kiss, em Santa Maria (RS), o incêndio no Centro de Treinamento do Clube de Regatas do Flamengo, conhecido como Ninho do Urubu, expôs um enredo de gambiarras e subterfúgios somente explicável quando interesses privados contaminam a fiscalização pública. Essa maquiagem míope custou a vida de dez adolescentes. Se a tragédia por si já é inacreditável, o que dizer da forma blasé como a direção do clube lidou com as famílias das vítimas após a barbárie?

Acidentes com aeronaves sem autorização para realizar transporte comercial de passageiros, como indicam as investigações preliminares das mortes do jornalista Ricardo Boechat e do cantor Gabriel Diniz, engrossam as razões para rejeitarmos atalhos.

O país se acostumou a bandalhas, a soluções fáceis, ao imediatismo, o que fica ainda mais atraente em tempos de crise, em meio às muitas emergências, ao (ainda) baixo grau de escolaridade da população e à epidemia das fake news, terreno fértil para discursos populistas. Ora, é muito mais fácil emitir um decreto sobre algo periférico do que aprovar uma reforma estrutural no Congresso.

É preciso encarar 2019. Enfocar, de forma racional e sem simplificações, raízes comuns de nossos problemas. Independente das preferências políticas do leitor, tornou-se consenso a valorização da formação técnica, do controle e da governança no Serviço Público, passo há mais tempo dado pelo setor privado, mas ainda um desafio para parcela das empresas que se relacionam com o Estado.

O avanço da tecnologia, combinado ao trabalho técnico continuado em instituições como Ministério Público, Controladoria Geral da União – sobretudo a partir da Lei da Transparência, de 2009 -, Procuradoria Geral da República, Polícia Federal, entre outros órgãos, rendeu-nos um gosto pela maturidade difícil de abdicar.

Hoje, sabemos, em poucos dias, quanto se gastou numa viagem oficial de um governante, quem o acompanhou, com que objetivo, de que rubrica sairão os recursos. Temos inegavelmente mais e melhores ferramentas de controle.

Uma cultura regida pelo imediatismo, por laços de uma corrupção vista como “tolerável”, pelo interesse privado acima do público em diferentes segmentos da sociedade perpassa as diferentes tragédias que enlutaram precocemente o país neste ano. Reverter esse quadro depende de profissionalismo, do reconhecimento de fatos e dados, de transparência, responsabilidade e soluções estruturais. Não de improvisos.

(*) Por Christian Travassos, economista (Puc-Rio) e mestre em Ciências Sociais (CPDA/UFRRJ)







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1 comentário | Comente

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02/10/2019 09:38
Christian, último trimestre para encarar 2019!! Vamos que vamos!! Bom artigo!