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Reflexões ouvindo Manuel Castells

Por Nádia Rebouças, Colunista de Plurale

“A melhor professora que eu tive na vida! Foi um exemplo de mulher livre para mim e responsável por desenvolver em mim o amor pela Amazônia com 11 anos de idade! Em 68, antes de completar 18 anos realizei meu sonho de conhecer a Amazônia! Tudo influência dela! Nunca vou esquecer os cadernos de capa preta, lambidos nas beiradas das margens das páginas, com vermelha, onde tínhamos que copiar as aulas e com ele visitar os consulados e pesquisar os países, a geografia, a cultura, os hábitos alimentares... aí eu fui nascendo global e sustentável e uma mulher livre! Que presente da vida foi D. Maria José!!! Grata professora!”

Escrevi esse parágrafo no grupo do Facebook que reúne estudantes do Instituto Fernão Dias Paes, uma escola pública de São Paulo, Pinheiros, que existe para provar a qualidade das escolas públicas do passado! Nesse grupo estão reunidos mais de 100 ex alunos, hoje todos na terceira idade, que continuam lembrando e comemorando suas passagens por esse colégio. É bem impressionante como até o pipoqueiro é lembrado por seu papel de educador! Acompanho o grupo por carinho ao colégio, e mesmo sem lembrar de nenhum dos colegas, compartilhamos memórias.

Num certo dia escreveram sobre a professora de geografia, D. Maria José. Na realidade Gilberto, um ativo participante, publicou uma matéria antiga de jornal, onde ela dava uma entrevista, já aposentada. Fiquei espantada no que ela despertou, ainda hoje, passado décadas. Foi capaz de acordar experiências vividas intensamente nos participantes do grupo! Não resisti e escrevi o que leram acima. Ela gerou, em mim, tanta curiosidade e amor pela Amazônia que antes dos 18 anos consegui seguir para lá, como Bandeirante. Usava como método um caderno de capa preta e toque vermelhos nas páginas. Com esse caderno viajávamos pelo mundo! Visitávamos os consulados pegando informações e fotos sobre lugares que conheci e muitos outros que até hoje não pude visitar. Mas, sem internet, ela nos punha no mundo! E eu fui nascendo global, ambientalista, cidadã do mundo e mulher livre! Ela foi um presente na minha vida. Me fez gestora do meu aprendizado.

Por que a conversa, em Niterói, de Manuel Castells me lembrou de D. Maria José na sua recente visita ao Brasil? Deixamos de formar professores e não valorizamos aqueles que já nasceram prontos para encantar alunos. Criamos uma realidade difícil de vencer.

“Não podemos esperar vinte anos para formar novos professores. Como se acelera a formação? Aprender com os alunos, ter humildade. Vamos proibir a internet e o celular na escola? Não! Sigam a aula com o google!! Precisamos criar uma interação intelectual e nunca esquecer que criatividade é a mãe de todas as coisas”!

Castell tocou em problemas claros como o corporativismo e a falta de interdisciplinaridade! Reforça a ideia que nós é que temos que mudar, para gerar um novo sistema de educação: “as disciplinas são como acordos de paz entre facções em guerra”! Esse é o resultado da falta de visão do todo que nos obriga a aprender pelas partes, sem que nossa compreensão alcance todas as possibilidades!

“A criatividade é a base para produtividade nas escolas do século XXI! Os alunos precisam de grande autonomia, não podem ser iguais, a igualização precisa ser mínima. Um mínimo para todos e muita autonomia”

O aprendizado não é só de conteúdo, eu corro o risco que dizer que os alunos, quando entusiasmados, descobrem, fixam e levam o aprendizado pela vida toda. O principal são os valores, o que margeia nossa existência de propósito!

“O século XXI nos traz uma crise moral, de valores fundamentais. A generalização da violência, a falta de empatia com outros seres e o quanto pensamos em valores numa escola? Direito à ecologia: o planeta seria feliz se não existíssemos! Direito às mulheres, não temos uma sociedade igual e isso tem que começar na escola. As mulheres fizeram grandes transformações, mas difícil criar mais igualdade se os homens não mudam! Como montar um mundo de gêneros separados, uma utopia, cada um por sua conta...Chegamos a um ponto que as mulheres têm uma consciência massiva: ou os homens mudam ou vamos para a guerra. Os homens podem mudar, mas não é aquilo de: - Quer que eu tire a mesa para você? Mudança leve, mas não fundamental. É na escola que essa mudança pode começar. O respeito ao multirracial também começa na escola. Direito aos animais, se não respeitamos os animais como podemos respeitar a nós mesmos? A escola tem que fornecer o básico para se viver em sociedade. A internet serve como instrumento de exploração e intercâmbio para tudo isso.”

Para Castells os mestres têm culpa também, e eu assisti muitas vezes, e ele destaca: a pretensão institucional, o conforto dos guetos. Saiam dos guetos, bradou ele!

“A Finlândia é a melhor do mundo. Escolas de alta qualidade, professores valorizados, bem pagos. Professores mal pagos e mau formados, mesmo heroicos, não vão funcionar. Nós professores precisamos compreender, fazer a autocrítica, que não trabalhamos para nós, mas para os estudantes!”

Educação se tornou um setor de muito interesse para especuladores, destaca ele. Completa que precisamos merecer a escola pública, temos que sair em sua defesa e mostrar que o trabalho de educação é para a sociedade, para os alunos!

“A violência está nas grandes cidades e a escola tem que ter um papel; conseguir que a escola seja inteligente. É fundamental que os jovens defendam suas escolas e a defendam da violência. Escola é um espaço neutro, tem que reconciliar medos e violências. “

Cita uma experiência na Rocinha, onde por algum tempo a escola assumiu um papel de pacificação na comunidade. A escola que ele vislumbra tem vida e está na rede, se comunicando.

“A escola tem que alertar, anunciar, compartilhar nas redes. A escola tem que ser capaz de conectar a cultura jovem. O jovem sabe, não diga a ele o que tem que fazer e que nós velhos é que temos experiência, temos que partir da experiência da autonomia dos jovens. Tecnologia é cultura de autonomia, empodera para o bem ou para o mal. Dá capacidade para o indivíduo se organizar, buscar outros mundos, por isso jovens tem muita capacidade para se organizar. Escola tem que estar presente nas redes sociais com diálogo... a nova cultura digital: respeito com autonomia”.

A escola que emerge de suas palavras é muito diferente da maioria que temos hoje no Brasil. Precisamos, para fazer a transformação, reconhecer que a educação é a mais importante organização da sociedade. Falamos muito de educação, mas falta confirmar no real a sua prioridade.

“Corre no Brasil ventos de barbárie. Um estado dominado pela corrupção. Não podemos assaltar o estado, temos que mudar as pessoas”.

Respondendo à uma pergunta da plateia: que conselho daria a um negro brasileiro?

“Ser um revolucionário tranquilo. Mudar as pessoas é o desafio. Não podemos assaltar o estado, temos que mudar as pessoas. Cuidar da segurança e ter paciência. Não querer impor que haja maioria comprometida com uma ideia”.

Para ele a relação entre pais e escola é fundamental. Pais e professores fazem parte do mesmo sistema. Nem escola, nem pais. Juntos. E temos que educar para a tolerância e inserir a tecnologia.

“Não é só a crise climática, mas a crise humana! Não se transmite valores com discurso, mas com exemplos. Temos que ser exemplares para educar com valores exemplares. Os meninos, no princípio de sua vida refletem a violência que assistem. O mal humor, o cansaço, a falta de paciência .... repetem tudo.... O exemplo dá a capacidade de educar.... por isso as máquinas não podem ensinar...”

O tempo especial que vivemos exige vencer preconceitos... até a negação da ciência! Rechaçar a ciência, para ele, é uma incapacidade objetiva de conhecer a nós e ao mundo.

“O rechaço à ciência, os analfabetos e ignorantes criam possibilidade de estranhos chegarem à presidência... como Trump e Bolsonaro... Eles dizem que não há ciência ... é tudo subjetivo.... Como se combate? Educação é fundamental! Conhecimento científico.... desde pequenos, levar os jovens a se apaixonarem pela ciência. A ciência não pode ser burocrática... crianças precisam fazer trabalhos científicos... a internet está cheia de obscurantismo.... Que a criança vá a internet acompanhada!”

Não temos uma escola para nosso tempo. O mais desafiador depois de ouvir Castells é que temos que começar de novo. Temos muito a fazer para sairmos dos guetos institucionais, das facções das disciplinas e pode perceber o que é ser multidisciplinar, valorizar a escola que ajuda a fazer experiências, a ter valores, a enfrentar a violência que saiu da porta e adentrou as salas. Muita coragem para ver e muita disposição e paciência para transformar.

“A escola do século XXI não é a que existe, mas a que poderia existir. Ela é um projeto, não uma mercadoria... um projeto das famílias e da sociedade. Que deveria abandonar ideologias, mitos, consumismos e se preocupar com o principal valor: a educação. Mobilização e luta... se não mudarem a instituição não vão conseguir boa educação. Só pode mudar com política, que não é luta de partido, mas questionando os grandes problemas das instituições. A escola do século XXI é inclusiva... por exemplo para os surdos, cegos, mas conseguir nunca segregar é o conhecimento maior. Não criar castas, estigmas sociais. Adaptar-se às necessidades de cada aluno, e alguns precisarão de ajuda individual, e a tecnologia pode ajudar muito..., mas se não sonharmos não poderemos transformar nada”!

Estamos vivendo um momento decisivo para a educação no Brasil. Vivemos um novo tipo de ditadura: notícias falsas e constantes ataques à Educação. Escaparmos de um futuro totalitário exige que as escolas estejam ativas. Precisamos inovar nossos valores de gestão da educação e entender o protagonismo nas ruas e nas redes. Temos novos protagonistas, a eles toda visibilidade para que inspirem coragem e disposição para mudar. Educação é assunto para toda sociedade. Qual o valor de uma professora como D. Maria José, que inspira tantos décadas e décadas depois? O país conheceu: Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, entre outros. Esses viraram pessoas públicas. Você teve um professor/a para lembrar? Fale. Conte. Vamos reverberar exemplos!







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1 comentário | Comente

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Paulo Augusto |
Muito bem pontuado, Nádia. Quem não teve a sua profa. Maria José? Quem pode discordar das ponderações de Castells? Estamos juntos! Abraços !