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PLURALE EM REVISTA , EDIÇÃO 67- Jalapão: a rota bruta

TEXTO E FOTOS DE GIULIANA PREZIOSI, ESPECIAL PARA PLURALE

DO JALAPÃO, TO

O Brasil é surpreendente e o Jalapão é um exemplo disso. Há cerca de três horas de Palmas em uma estrada cheia de chacoalhões e solavancos, fica o Parque Estadual do Jalapão, uma região que mistura uma abundância de águas cristalinas com cachoeiras e seus famosos “fervedouros” com dunas e formações rochosas inusitadas. Curiosamente, o nome do local veio da batata “jalapa” típica da região, que por ser grande, acabou dando origem ao nome “Jalapão”.

Por ser uma região rústica, de difícil acesso, com uma natureza diferenciada, tudo começou há cerca de 10 anos quando o realilty show de aventura “Survivor” gravou uma de suas temporadas por lá. Aos poucos foi chamando atenção de pessoas interessadas em ecoturismo. Mais recentemente outro reality chamado “Largados e Pelados” também resolveu explorar as riquezas desse lugar. Mas o “boom” mesmo foi com a novela da Globo em 2017 “Do outro lado do Paraíso”, dando visibilidade ao Jalapão para muitos brasileiros que nunca tinham ouvido falar das belezas que se escondem nessa região.

Segundo a Naturatins, atualmente o Jalapão recebe cerca de 33 mil visitantes por ano, há 5 anos atrás eram apenas 4 mil visitantes. Em 2016, eram 18 agências de turismo cadastradas, hoje são 190. Esse rápido crescimento trouxe um grande dilema em relação ao desenvolvimento local.

Mesmo sendo um parque estadual criado pelo governo do Tocantins em 2001, algumas áreas ainda são propriedades particulares que cobram taxas de visitação. O acesso ao Jalapão é difícil, é preciso um carro 4x4, o que faz com que a maioria das pessoas contratem guias locais e agências especializadas. Não é recomendável arriscar alugar um carro e ir sozinho, porque não tem sinal de internet e nem uma extensa sinalização nas estradas, além dos inúmeros buracos que requerem um excelente motorista com habilidades de mecânico para o caso de qualquer eventualidade.

Tudo isso faz com que cerca de 80% dos habitantes de Palmas e outras cidades próximas não conheçam o Jalapão. Para eles é mais fácil, acessível e mais barato ir para as praias da Bahia, por exemplo. As comunidades locais, seja em Palmas ou nas cidades de Mateiros e São Félix, por exemplo, que ficam dentro da região do Jalapão, brigam por estradas melhores que facilitem o acesso e a locomoção em todo o estado do Tocantins.

Por outro lado, ambientalistas temem o que poderia acontecer se houvesse um aumento considerável de visitantes na região, muito maior do que o já existente atualmente.

Para compreender essa preocupação, vale apontar alguns atrativos que fazem do Jalapão esse local tão repleto de belezas naturais. O principal deles são os chamados “fervedouros”, tecnicamente são nascentes de rios subterrâneos que, não tendo espaço para vazão da água, formam uma espécie de piscina natural. Através do fenômeno da ressurgência, a pressão exercida pela água que jorra do lençol freático é tão intensa que, atrelada a uma camada de areia muito fina que cobre o solo, causa resistência terrestre e não deixa você afundar. Em outras palavras, são piscinas naturais de água doce, extremamente relaxantes e curiosas. Imagine você de pé na água com uma temperatura super agradável, sem sentir os pés no chão, percebendo que não há o que temer porque simplesmente não afunda, recebendo uma espécie de massagem esfoliante natural e relaxante dos joelhos para baixo. Que tal?

Outro ponto alto são as dunas que surgiram a partir da erosão das serras rochosas ao longo do tempo e somada a baixa densidade demográfica são as razões pelas quais a região é chamada de deserto. Um espetáculo natural, cuja altitude varia de 200 a 400 metros, principalmente no pôr do sol quando a paisagem de areia reflete a luz solar em tons variados de dourado meio avermelhado mesclando o azul dos rios e o verde da vegetação rasteira típica da região. Das dunas é possível ver as veredas de capim dourado, matéria prima de artesanatos maravilhosos facilmente encontrados na região e pequenos lagos como oásis no meio do deserto.

Quer mais? Cachoeiras não faltam! E cada uma tem sua beleza e particularidade. Uma das mais visitadas é a cachoeira do formiga (nome dado em função do rio formiga). A queda d’água não é das maiores, mas o que impressiona é a água muito transparente em tons esverdeados, é possível ver a areia calcária branca e fina ao fundo. A vegetação é composta de palmeiras, samambaias e muitas árvores com pássaros e pequenos animais pulando para cá e para lá.

Como o acesso é difícil muitas pessoas optam por roteiros longos de 6 ou 7 dias no Jalapão, mas é possível conhecer as principais atrações em 3 ou 4 dias. Para acomodar os visitantes, pequenas cidades como Mateiros e São Félix começaram a se organizar para o turismo e oferecem várias opções de pousadas confortáveis e aconchegantes e restaurantes com aquele tempero caseiro. Cada agência de turismo tem seus parceiros nestas cidades, então vale ficar atento e procurar informações sobre quais as melhores opções. A maioria dos pacotes já incluem tudo, hospedagem, alimentação, taxas de visitação, guia etc. A dica é perguntar sobre quais os locais inclusos para hospedagem e o que eles oferecem, comparando opções de cada agência.

Conversando com guias locais, o Jalapão tem capacidade de receber cerca de 1500 pessoas, mais do que isso poderia comprometer a biodiversidade. Há um controle feito pela Naturatins na entrada das dunas para mensurar o número de turistas. Além disso, cada fervedouro tem capacidade de receber cerca de 4 a 10 pessoas no máximo. Como a maioria dos fervedouros fica em propriedades particulares e cobram taxa de visitação, é como como se tivesse na fila do parque aquático. Os guias organizam seus grupos de acordo com a capacidade permitida e cada grupo tem 20 minutos para curtir o fervedouro. Em alta temporada é possível ficar até 2 horas na fila. A boa notícia é que tem muitos fervedouros e os guias conversam entre eles para encontrar as melhores opções nos melhores horários. Outro ponto importante para manter a preservação destes locais tão incríveis é que não é permitido usar protetor solar e repelente antes de entrar nos fervedouros. Como o sol é forte e o calor intenso, 20 minutos é tempo suficiente para curtir cada fervedouro.

Conhecer o Jalapão foi para mim uma grande experiência não somente pela sensação indescritível de seus fervedouros, ou pelo pôr do sol avermelhado das dunas, ou ainda pela pureza de suas cachoeiras, mas principalmente pela reflexão sobre as belezas não tão exploradas desse Brasil frente à necessidade de preservação ambiental e o fomento ao desenvolvimento local. O Brasil surpreende em cada canto seja na sua pluralidade de seu povo ou na sua singularidade da natureza de cada lugar.

Referência

Instituto Natureza do Tocantins: naturatins.to.gov.br/

SERVIÇO

COMO CHEGAR E O QUE FAZER?

O ponto de partida para conhecer o Jalapão é a cidade de Palmas que possui aeroporto. De lá saem todos os passeios. É muito difícil chegar na cidade e conseguir um passeio de última hora, então verifique antes as opções que melhor atendem as suas necessidades. É possível encontrar agências que trabalham com datas pré-definidas e você terá que ajustar a sua agenda em função da deles. Também é possível encontrar agências que organizam grupos de acordo com a sua disponibilidade de agenda, mas para este caso dar certo, verificar tudo com antecedência é fundamental.

Uma dica preciosa: grupos muito grandes podem ser mais baratos, mas trazem uma certa morosidade principalmente nas filas dos fervedouros, pergunte para a agência qual o tamanho do grupo antes de fechar o pacote.

Fale com pessoas que já foram para buscar indicações de boas agências e confira os reviews na internet. No meu caso, fui com o Silvio, um excelente guia e dono da empresa Jalapão Rota Bruta, adorei o roteiro, hospedagem, alimentação e principalmente a flexibilidade em fazer coisas diferentes. Se não sabia por onde começar a busca, fica a dica!

Qual a melhor duração? Varia de acordo com o objetivo de sua viagem. Três dias é o mínimo, e para quem não tem muito tempo, vale a pena, quatro a cinco é o ideal, e para quem quer curtir mais cachoeiras e ficar menos tempo no carro pode pegar um roteiro de seis ou sete dias.







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