Atenção

Fechar

Destaques

PLURALE EM REVISTA , EDIÇÃO 67 - Entrevista Especial com Denise Pires de Carvalho, Reitora da UFRJ

“Cria” da UFRJ, a Professora e cientista planeja uma gestão capaz de alterar a dinâmica atual de escassez de verbas até para custeio para focar em pesquisas e projetos em parceria com o setor privado e trazer mudanças significativas para a verdadeira Cidade onde está instalada a Universidade, na Ilha do Fundão

Por Sônia Araripe, Editora de Plurale

Foto de Artur Moés - Coord. de Comunicação da UFRJ

O auditório lotado com cerca de 1 mil convidados para a posse da Dra. Denise Pires de Carvalho como a primeira Reitora mulher da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) foi um excelente cartão-de-visitas. Parlamentares de diferentes partidos, autoridades, empresários e a comunidade universitária fizeram questão de prestigiar o começo do mandato de quatro anos. No discurso, a Professora e Pesquisadora, que foi também a primeira mulher a dirigir o renomado Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ, destacou seu orgulho de ser “cria da casa”.

“Fui a primeira pessoa da minha família a concluir o ensino superior, em 1987, e a primeira diretora do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, em 2010, ano do centenário do nosso fundador, o grande humanista professor Carlos Chagas Filho. Pela primeira vez, em quase 100 anos, uma mulher é investida no cargo máximo da UFRJ.” Há, atualmente, 20 reitoras de instituições federais de ensino superior no Brasil; porém, dentre as 73 instituições, pelo menos 24 universidades brasileiras nunca tiveram mulheres como reitoras.

Nesta conversa com Plurale, em seu laboratório de pesquisa, pouco antes de assumir a Reitoria, Denise avaliou haver um certo preconceito com pesquisadoras mulheres, especialmente em cargos mais elevados. “Parece que há um funil, mas acho que não é só isso. As mulheres, mesmo em condições de igualdade, acabam sendo mesmo preteridas.” Um cenário que, acredita, está sendo revertido. O seu maior desafio será, sem dúvida, tentar equilibrar as finanças da mais antiga Universidade brasileira, que completará 100 anos em 2020. Acredita que foi escolhida especialmente pela “capacidade de gestão.” Otimista, a Reitora se orgulha ao ver os avanços obtidos e promete lutar firme – com o Vice-Reitor, o economista Carlos Frederico Leão da Rocha e seus pares – para tentar reverter o cenário de verdadeira penúria da UFRJ e de outras instituições de ensino federal. Com uma universidade autônoma, com ensino público de qualidade, mas que possa definir parcerias com o setor privado.

“É preciso acabar com o tabu que a verba privada é diferente. A verba que vem da empresa, no momento em que ela é investida no público, ela se publiciza, fortalece o público, diminui a desigualdade social. Não é uma verba com carimbo diferente.” Denise trabalhará firme para que a Cidade Universitária possa dar exemplo. “O nosso projeto é de uma Cidade Universitária do futuro. Não adianta querer só aumentar o orçamento para pagar uma conta de luz mais cara. Isso não é inteligente. Precisamos de transporte e energia sustentáveis. A sustentabilidade é uma prioridade da nossa gestão. ” A nova reitora sonha com transporte para os alunos que não polua e ainda com energia solar em escala no campus.

Aos 54 anos, a filha de professora alfabetizadora herdou o gosto para lecionar: formou-se como médica-professora e pes - quisadora, tem Mestrado em Ciências Biológicas (Biofísica), Doutorado em Ciências (1994), ambos pelo Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, e Pós-doutorado no Hôpital de Bicêtre, Unité Tiroïde, Paris, e na Universitá Degli Studi di Napoli, Itália. A “filha de Minerva” – símbolo da UFRJ - , casada com Professor e Pesquisador da Universidade aposentado, mãe de duas filhas, acredita que terá um desafio e tanto pela frente, mas assegura estar pronta para os desafios. “Faremos o nosso melhor.” Confira os principais pontos desta conversa exclusiva com Plurale.

Plurale - Você é “cria da UFRJ”. Formou-se aqui, fez carreira acadêmica aqui. Fale um pouco sobre a sua formação.

Denise Pires de Carvalho – Fiz Medicina na UFRJ, me formando em 1987. No último ano da Faculdade, já tinha ingressado no Mestrado. Fiz uma interseção entre a Graduação e a Pós-Graduação. E não foi só eu, mas também vários outros colegas que queriam ser professores, faziam assim, de forma extra-oficial, com a permissão dos Diretores, o Chefe do Laboratório e Coordenadores da Pós-Graduação. Este programa MD-PHD foi um dos primórdios do que existe hoje: alguns alunos da Faculdade de Medicina já ingressam, agora, oficialmente, no Doutorado direto, a partir do nono período da Faculdade. Eu ingressei no Mestrado. Enquanto nos EUA e em outros países do mundo, como o curso médico é muito longo e tem ali embutido atividades que se assemelham à pós-graduação, como o internato é uma especialização, nem passam pelo Mestrado. Aqui nós mantemos o Mestrado mesmo para quem cursa Medicina, e isso atrasa a formação do médico, que vai ser Doutor com 40 anos ou até mais. Eu ingressei na Pós em 1987, mas em 2001 nós conseguimos oficializar este programa, o Professor Paulo Mourão, com a a aprovação do MEC, da Capes. Já existe na Unicamp, na PUC-RS e em outras, mas não na USP. Outros fizeram o mesmo antes de mim, na década de 70, já pensando em ser cientistas.

Plurale - E você já pensava nisso? Queria ser cientista?

Denise Pires de Carvalho – Exatamente. Não queria sequer fazer prova de Residência. Quando me formei já tinha três artigos publicados como primeira autora. Durante o curso aqui na UFRJ, temos contato o tempo todo com cientistas. A vocação aparece. Se tivesse feito Medicina em outra universidade, provavelmente não teria sido cientista. Mas segui este caminho exatamente porque estudei Medicina na UFRJ. Mas isso não significa que não goste da parte Clínica. Adoro e talvez por isso faça estudos mais translacionais, visando a melhoria do paciente, do tratamento, do diagnóstico. Gosto da atividade clínico, mas só não exerço porque fiquei na parte básica. A vantagem deste programa criado na Universidade de Columbia, em 1964 – o MD-PHD- é que forma o clínico-pesquisador. Implantamos na UFRJ em 2001.

Plurale – Você imaginava, lá atrás, que um dia chegaria na Reitoria da UFRJ?

Denise Pires de Carvalho – Não. Desde o início eu queria ser professora com dedicação exclusiva. O que é uma característica de um cientista. Ainda temos um número de Doutores muito menor do que os países desenvolvidos. Mesmo hoje. Passamos do número de 10 mil Doutores por ano e não tem nem uma década. A minha atividade-fim era formação de pessoal, sabia que seria professora. E o cargo máximo na carreira de um professor é ser Professor-Titular. Então, sempre trabalhei para ter uma atividade científica que fosse destacada o suficiente para chegar ao posto de Professora-titular.

Plurale – Cargo que você atingiu em que ano?

Denise Pires de Carvalho – Em 2011. Era Diretora do Instituto de Biofísica, que também foi um cargo que eu nunca almejei. Aliás, a gente costuma dizer que a direção do Instituto é ocupada por pessoas que não querem ...(rs) O laboratório é bem-sucedido, aí o pesquisador demonstra uma capacidade de liderança, de administrar bem e acaba chegando na Direção e aí não pode recursar. Se olhar a minha carreira, eu sempre me destaquei em atividades administrativas: fui coordenadora da Graduação, da Pós-Graduação por cinco anos (normalmente as pessoas ficam dois anos) e fui para a Itália em 2005 para fazer o Pós-Doutoramento em Biologia Molecular, era uma área à qual eu tinha pouca formação. Foi um área que avançou muito na década de 90 quando eu já era professora. A minha formação era mais de Bioquímica mesmo. Passei o ano de 2006 inteiro na Itália e quando estava voltando, recebi um telefonema de quem seria o Diretor do Instituto Carlos Chagas me chamando para a Vice-Direção. Então, não esqueceram de mim mesmo estando fora do País. Somos todos aqui muito amigos, e fui a Vice no mandato de três anos do Olaf Malm. Quando o mandato estava terminando, então surgiu o convite para que assumisse a Presidência, o que aconteceu em 2010, tendo ficado até 2013.

Plurale - Esta sua habilidade de gestão, é natural? Ou você fez alguma especialização neste sentido? Talvez pelo fato de ser mulher, mãe, profissional...multitarefas...

Denise Pires de Carvalho – Isso. É natural. Nunca fiz nenhum curso. Aprendi na prática, na vida. A mulher tem uma capacidade administrativa grande: administrar a vida pessoal, a maternidade, a vida profissional...isso é uma administração. Não é nada fácil cuidar do crescimento de uma criança, desde a alimentação até o vestuário, a educação...todos os detalhes. A gente faz ao mesmo tempo. Lê a agenda da escola e também lê as teses de Mestrados dos alunos, os artigos...Isso é uma capacidade administrativa.

Plurale – Outras Universidades Federais já tiveram mulheres como Reitoras antes, como em Minas. Porém, no Rio, na UFRJ, a mais antiga Universidade federal do país, que compleará 100 anos em 2020, você é a primeira Reitora. Isso faz diferença?

Denise Pires de Carvalho – Fui a primeira mulher a ser Diretora do Instituto de Biofísica da UFRJ, a primeira a sentar na cadeira que já foi de Carlos Chagas Filho. Este é um ponto de destaque no meu discurso de posse. Não sou eu. Está havendo no Rio de Janeiro, mudanças fazendo com que mulheres cheguem a cargos de chefia/comando. O Instituto de Biofísica, por exemplo, foi criado em 1945 e a primeira mulher atinge o posto de Diretora em 2010, e não é porque não havia mulheres aqui. Muitas coordenavam a Pós-Graduação. As mulheres paravam neste cargo e a Direção era um cargo masculino, por algum motivo que é reflexo, certamente, da sociedade patriarcal. As mulheres participavam da produção – ministrando aulas, fazendo pesquisas relevantes, coordenando inclusiva a Pós-graduação que é o “coração” do Instituto, mas quando chegava na administração central havia ali um filtro. Então, é histórico que eu tenha atingido o cargo de primeira mulher na Direção do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho e agora na Reitoria da UFRJ. Acho que é uma mudança tardia na UFRJ. Mostra que é uma instituição conservadora no seu âmago.

Plurale - Isso a preocupa?

Denise Pires de Carvalho – Não, porque acho que mudou. Fui eleita em primeiro turno, votação direta. Já nas eleições anteriores, em 2015, ganhei em primeiro turno, mas houve uma virada no segundo turno com uma diferença bem pequena. É uma instituição conservadora, mas que está se modernizando. E espero que se modernize ainda mais nos próximos quatro anos. Todas as Pró-Reitoras Acadêmicas são mulheres, por acaso: de Graduação, de Pós-Graduação e de Extensão são do sexo feminino, são quatro mulheres pró-reitoras e três homens. Se fosse um número par seria meio a meio. Mas por acaso foi 4 X 3, poderia ter sido o contrário. Nossa escolha foi por capacidade técnica. As pessoas são super qualificadas, não importa o gênero. Temos que buscar a igualdade. É isso que a sociedade deve buscar.

Plurale – Na Ciência, apesar do avanço de mulheres, ainda há muito mais homens do que mulheres no Brasil. E com certeza não é por falta de quadros capacitados. Como mudar este cenário?

Denise Pires de Carvalho – Na verdade, as mulheres são maioria na produção do conhecimento. Mais de 50% da Ciência têm como autora mulher. Quando olhamos as bolsas do CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa) de iniciação científica, que são concedidas para alunos no nível de Gradução, 59% são mulheres. Mas quando olhamos a bolsa de pesquisador, no nível 2, que é o mais baixo, 42% são mulheres. Já vê um filtro. Quando vai para o cargo 1A, o cargo mais alto, 24% são mulheres, e estes números são mantidos nos últimos cinco anos, de 2014 a 2019. Não houve nenhum avanço .

Plurale – E qual a sua leitura destes dados?

Denise Pires de Carvalho – Quer dizer que ainda há machismo no sistema. Há preconceito. Na hora de selecionar. Mas é verdade que é preciso analisar também estes números com atenção: como o acesso às bolsas 1A é restrito e as pessoas tendem a renovar, tem um quê aí da renovação, se nesta hora não houver um olhar para privilegiar a entrada de mulheres, esta mudança não irá acontecer. Serão sempre os mesmos. Em igualdade de condição, o que me parece é que o homem ganha. Se não houver uma política que, em igualdade de condições a mulher entre, teremos sempre os 24% por décadas.

Plurale – Faria sentido ter um sistema de cotas para mulheres?

Denise Pires de Carvalho – A Universidade Federal Fluminense (UFF) está fazendo é levar em conta a maternidade. Não é uma cota, mas as mulheres têm uma pontuação a mais para ganhar bolsa dentro da Universidade, como bolsa de iniciação científica. ´E uma forma de dar uma pontuação a mais para quem é mãe. Acho que é um período de transição, porque considerar a maternidade só feminina também não é adequada. O homem deve dividir esta tarefa. Mas no começo da vida da criança, a mulher é muito demandada. A mulher amamenta. É mais difícil ler um paper enquanto está amamentando. Mas os homens já entraram na formação das crianças, ajudando em casa, fazendo tarefas que não faziam antes. Porém, no CNPq no nível máximo acho que a escolha deve ser por mérito mesmo. Se o mérito é o mesmo, se tem igualdade de condição, tem que, durante um período, dar para a mulher até que ela chegue perto dos 50%. Se ela for produtiva, ela ganha, se não for, perde. O que não pode é a mulher continuar produtiva e ser sempre preterida. Me parece que há um filtro que está definitivamente privilegiando um gênero. Não há explicação científica que não seja igual. O que acontece – a mulher deixa de produzir? Claro que não. O que acontece é que há mesmo um filtro.

Plurale – A UFRJ passa hoje por uma de suas mais sérias crises financeiras. Falta tudo até para custeio, como luz ou verba para segurança. Como lidar com este quadro? Como lidar com este desafio? Quais são os seus planos?

Denise Pires de Carvalho – Houve muito avanço tecnológico-científico no Brasil. Avançou por conta das Universidades. E não é uma característica do Brasil. Todos os países do mundo com melhor colocação no índice de desenvolvimento são assim porque investiram na Educação, em Universidades de pesquisa. Que não precisam ser todas as Universidades. Mas é preciso ter um grupo de Universidades que tenha esta característica - que é a produção do conhecimento no nível competitivo internacional. O mundo hoje consegue extrair petróleo em águas profundas porque esta tecnologia foi desenvolvida aqui na Coppe da UFRJ. A questão mesmo da máquina de cartão com chip, também é brasileira, porque temos capacidade científica tecnológica. O que é preciso fazer para que p Brasil deixe de `patinar`? Mesmo a USP, primeira universidade do ranking do país, está muito atrás, por exemplo, da Universidade de Buenos Aires, aqui do lado, que também passa por dificuldades financeiras. O que nos diferencia da Universidade de Buenos Aires? Temos que parar e fazer uma autocrítica. Será que estamos preenchendo errado os formulários (rs)? O que está faltando?

Plurale – O que falta, na sua opinião? Tem muita política?

Denise Pires de Carvalho – Falta gestão. A política está equivocada. A política é importante, mas precisa ter uma meta. Qual é a nossa meta? Fica entre as 100 melhores do mundo? Não tenho dúvidas que podemos alcançar esta meta. Mas não adianta a gente olhar de forma umbilical, sem se abrir para o mundo. Precisamos nos abrir para o mundo e definirmos o que nós queremos como instituição. A que questão orçamentária é grave, mas foi muito mais grave há 20 anos. Naquela época, nós tínhamos um orçamento da UFRJ que era dez vezes menor. E o que avançamos neste período com um orçamento dez vezes maior? E somos um país pobre. A Universidade, então, é subfinanciada? Eu não tenho dúvidas sobre isso. Mas há um subfinanciamento também porque precisamos avançar implantando aqui placas de captação de energia solar, para diminuir a conta de luz; precisamos investir mais em energias sustentáveis aqui no Campus. Gastamos dinheiro com transporte que é importantíssimo para os nossos alunos porque esta é uma cidade que tem problema sério de mobilidade, mas não podemos queimar combustível caro. Dentro da Universidade há uma quantidade enorme de ônibus, que são pagos pela instituição para rodar aqui dentro do Campus. Não poderia ser feito com ônibus elétrico ou com trens elétricos? Não é possível que não possamos ser um exemplo.

Plurale – Casa de ferreiro, espeto de pau...

Denise Pires de Carvalho – Pois é. Precisamos ser um exemplo de Cidade Inteligente para o Brasil, para que outras cidades se inspirem. Aqui é uma Cidade! Temos aqui o MagLev, uma tecnologia que a China está desenvolvendo e nós estamos desenvolvendo aqui. Por que o MagLev não pode transportar os nossos alunos aqui na Cidade Universitária? É preciso investimentos neste sentido. Hoje temos uma Rede Rio obsoleta, não há redundância dos sistemas de tecnologia de informação dentro da UFRJ. Então, adianta aumentar o orçamento em dez vezes se não houver um projeto definido que nós queremos? O nosso projeto é de uma Cidade Universitária do futuro. Não adianta querer só aumentar o orçamento para pagar uma conta de luz mais cara. Isso não é inteligente. Até porque ficará mais cara – mais orçamento são mais laboratórios, mais produção intelectual...mais luz...mas tem que ser sustentável! Senão estamos pegando dinheiro que é investimento público para passar a pagar conta de luz. A sustentabilidade é uma prioridade.

Plurale – Mas como fazer isso sem orçamento em investimento?

Denise Pires de Carvalho – Não será fácil. Todo o orçamento em investimentos – obras, instalações e manutenção - foi retirado da Universidade nos últimos anos. O orçamento que cresceu dez vezes como eu falei foi em custeios. Mas a parte de investimento chegou a ser de R$ 90 milhões em um ano e hoje é de R$ 5 milhões. Como fazer os trilhos par o MagLev se não tem investimentos?

Plurale – A solução seria estabelecer parcerias com o setor privado?

Denise Pires de Carvalho – Vamos tentar buscar fontes de recursos com as empresas que estão aqui no Parque Tecnológico da UFRJ e outras empresas que queiram vir e investir na Cidade Universitária. Temos um Parque Tecnológico fantástico na área de óleo e gás; temos a possibilidade de ter um Parque Tecnológico também na área Biomédica (já temos de biocombustíveis), para ajudar a fazermos esta Cidade Universitária Inteligente. E isso sem falar na reconstrução do Museu Nacional...

Plurale – Já começou os contatos para atrair empresas na área biomédica?

Denise Pires de Carvalho – Estive com o Diretor-Geral da Agência Nacional do Petróleo, Décio Oddone, conversando sobre esta relação da Universidade com as empresas. E vamos conversar com a L`Oreal, com a Natura, com a indústria farmacêutica e com outras que tenham interesse. Queremos ampliar o Parque Tecnológico.

Plurale – O incêndio no Museu Nacional - que pertence à UFRJ - foi uma tragédia, uma catástrofe...nem sei como nomear. O mundo se mobilizou. O que é possível ser feito?

Denise Pires de Carvalho – Foi uma tragédia horrorosa. Estava fora do Rio naquela época...mas aquelas chamas nos deixaram – a todos – perplexos. O mundo viu agora também o incêndio de Notre Dame, na França. E lá há recursos e tecnologia...O mais grave, no nosso caso do Museu, é que não foi possível controlar o incêndio a tempo. Hoje há um resgate do que restou....mas muitas cinzas. Falei no evento “Museu Nacional vive”, realizado pela Direção do Museu e Reitoia, em parceria com o SESC, que está ajudando bastante, que o projeto executivo está ficando pronto - toda a fachada está sendo refeita e o telhado também. Uma vez que esta parte esteja pronta, começaremos as obras internas. Para o prédio do Palácio, temos a verba impositiva da Bancada de parlamentares do Rio que será usada para esta reconstrução da fachada e telhado, mas também para a construção do chamado Anexo ao Museu Nacional, que é um cojunto de prédios ali perto do Maracanã que vão abrigar as salas de aula. Porque muitas pessoas não sabiam que o Museu não era só um equipamento cultural, de exposição, mas um Centro de Pesquisas importantíssimo. Por isso pertence à Universidade. Ali há nove cursos de Graduação, dos quais seis são strictu sensu (dois dos quais são de excelência na Capes) e outros três lacto sensu . As pesquisas não podem parar. Então, além das atividades de pesquisas, esses prédios devem contemplar exposições temporárias enquanto o Museu é reconstruído. Para a reconstrução do Museu há contato com o Museu de História Natural de Londres, com o Museu do Louvre, da França - e agora, Pompeia , da Itália, também se posiciona com a possibilidade do envio de peças para o novo Museu. Temos verba para reconstruir algumas alas, mas qual será este novo Museu?

Plurale - Qual será o formato deste novo Museu Nacional? Porque estava obsoleto...antiquado. As crianças e jovens já não pensam mais da mesma forma que nós ou nossos pais .... os museus mais modernos, como o Museu do Amanhã, incorporou tecnologia e uma nova forma de interagir com esta geração.

Denise Pires de Carvalho – A tragédia aconteceu... infelizmente. O grande desafio é fazer um Museu para o Século 21. Faremos workshops com estes outros museus os quais citei, que são referências, para nos ajudar a pensar sobre como será a reconstrução de um novo Museu Nacional. Como um novo paradigma. Renascendo com esta nova “roupagem”.

Plurale - Como falar/trabalhar a Educação em uma época que é tão combatida, combalida, atingida, enfraquecida....se nem mesmo o Governo Federal percebe a relevância da Educação e não estabelece uma prioridade para a Educação.

Denise Pires de Carvalho – O que acontece no Brasil neste momento é que há este ímpeto neo-liberal da área econômica, que foi o projeto vencedor das urnas. Ok. Mas, mesmo olhando para os Estados Unidos, que é uma economia liberal, ninguém tem dúvidas disso, há um cuidado muito especial com a Educação. A educação norte-americana de base é pública e quando chega no nível das Universidades, temos a impressão que as Universidades são privadas, na verdade, são um modelo híbrido: algumas são públicas, outras são privadas. Mas mesmo nas privadas, 60% das verbas, no mínimo, são públicas. É para isso que pagamos impostos. É isso que o brasileiro comum tem que entender. Os impostos são recolhidos para que a gente tenha Educação. Um mínimo de Educação que garanta o avanço científico e tecnológico do País. Porque a Educação é o motor que vai gerar este avanço e também o desenvolvimento socioeconômico. Nenhuma sociedade irá avançar sem que haja este investimento em Educação. Dizem que é um jargão, mas as pessoas precisam entender que gasto é quando se joga no ralo (rs), gastou e não transformou em nada. Foi para o lixo. Educação transforma em algo melhor. Então, isso é investimento. Quando você pega o seu dinheiro e compra um imóvel, por exemplo, é diferente de gastar o seu dinheiro num sorvete, que você consome e metaboliza. A Educação é como se fosse um patrimônio imóvel, sempre se transforma em algo melhor. Por isso é investimento. Não é metabolizada. Acho que a população entende isso.

Plurale – As manifestações em várias cidades a favor da Educação pública de qualidade e contra os cortes de verbas sinalizaram isso...

Denise Pires de Carvalho – Tentaram colocar um cunho ideológico-partidário, mas ficou claro, para quem viu as imagens que era um espaço para todos os partidos. Era um espaço plural. Havia bandeiras de todas as cores. Então, o Governo tem que ficar atento, porque não somos mais o Brasil do século passado. Já houve impacto social das nossas universidades – da USP, da Unicamp, da UFRJ, da UFF, da UERJ... Então, todas as família que têm filhos que estudaram em nível superior e sabem a diferença que faz vão para as ruas. Porque sabem que faz diferença. O modelo privado não resolve esta questão porque é um modelo de formação profissional, que não é um modelo que faz o País avançar, que é o modelo da universidade de pesquisa. Tem talvez uma ou duas universidades particulares de pesquisa no Brasil, com pesquisas muito pontuais, muito focadas, que não atuam em todas as áreas do conhecimento. Entre as primeiras tem a PUC do Rio Grande do Sul, que possui áreas muito definidas de atuação. A própria Mackensie, citada pelo Presidente, também é o mesmo caso. É nuito em associação com Universidade do exterior, não é uma produção genuína brasileira. Nas Universidades públicas, temos 95% de produção genuinamente brasileira. Não pode deixar de investir nisso porque seria o fim do País. Um País que deixa de querer ser soberano e passa a ser um país sempre, eternamente, em desenvolvimento. O que não é o que ninguém quer. Trabalhamos para termos um país desenvolvido.

Plurale – O resultado é que muitos de nossos pesquisadores/cientistas estão indo para fora, sem perspectiva. Como reverter este quadro?

Denise Pires de Carvalho – Só neste prédio em que estamos, falo de quatro pesquisadores que foram trabalhar e morar fora nos últimos anos. É triste. Alguns continuam com vínculo institucional, tem licença sem vencimentos, mas vêm aqui ... Recebi hoje mesmo um pesquisador que está na Suécia: ele quer trazer para o Brasil toda a experiência dele da Suécia, mas encontra dificuldades. Há dificuldades na nossa legislação, mas também há dificuldades internas, no âmbito da Universidade. Qual é o modelo de Universidade que nós queremos? É o modelo de uma Universidade pública de excelência, que precisa interagir com empresas ... não há outro caminho. Porque a inovação vai acontecer na empresa. A Universidade é geradora do conhecimento.

Plurale – O Brasil ainda tem muito pouca inovação ...

Denise Pires de Carvalho – Muito pouca. Porque interagirmos pouco com empresas. Porque ficamos nessa dicotomia: a verba que vem da empresa, no momento em que ela é investida no público, ela se publiciza, fortalece o público, diminui a desigualdade social. Não é uma verba com carimbo diferente. E ainda há muito este tabu, de que a verba da empresa é diferente da governamental. Não. Verba para produção do conhecimento é verba, não importa a fonte, desde que ela seja bem aplicada e o conhecimento produzido. Precisamos parar de ter este tabu. Nós somos um País que quer avançar. Para isso, precisamos inovar. E para inovar, precisamos nos associar com empresas. E o parque industrial brasileiro tem que crescer. Não poder ser diminuído. Ele tem parado. E é óbvio que a universidade é o lugar para que estes parques se desenvolvam mais. A universidade se desenvolve, a indústria se desenvolve, a empresa se desenvolve, o País cresce, gera empregos. Foi assim em todos os países desenvolvidos. Está sendo assim na China.

Plurale – Como ampliar esta parceria com as empresas? Aqui na Cidade Universitária já há uma parceria sólida, com as presenças de várias empresas. O que vocês têm pensado?

Denise Pires de Carvalho – Pensamos em ampliar a quantidade de empresas no Parque. Não só ampliar em número, mas também para a área mais biológica e Biomédica. Temos hoje um Parque Tecnológico excelente, mas muito voltado para Óleo e Gás. As empresas serão muito benvindas.

Plurale – Recentemente fizeram uma parceria com o BNDES para estudo de melhor utilização de terrenos e áreas da Universidade sem uso ou subutilizados. O que estão planejando?

Denise Pires de Carvalho – A equipe que vem trabalhando com o BNDES neste projeto há cerca de dois anos e será mantida na minha gestão, não vamos mudar. Esta equipe conhece todo o histórico de negociação com o BNDES, até a licitação do consórcio que está trabalhando– liderado pelo Banco Fator – que vão apresentar um plano de utilização de vários terrenos da Universidade, desde terreno na Praça da República (Centro do Rio) até os terrenos da Praia Vermelha (Zona Sul do Rio), onde estão o Canecão, o campo de futebol, a Casa da Ciência e um bingo. Serão apresentadas para licitação. Este consórcio está montando um projeto que a Universidade deverá aprovar nos próximos seis meses. Por exemplo, prédios com gabarito de tantos andares na área da Praia Vermelha, qual a destinação deste prédio...Há também terrenos na Cidade Universitária que podem vir a ser um hotel, por exemplo. A comunidade, através do Conselho Universitário, decidirá. No caso do Canecão é base que haverá construção de um aparelho cultural para 1,5 mil lugares. Podem vir empresas que ofereçam hospitais, prédios comerciais...desde que envolva um aparelho cultural para aquele local. Como será gerenciado é uma discussão interna. Provavelmente em parceria público-privada. Mas serão discussões muito acaloradas e palpitantes. A concessão estudada no momento é de 50 anos. Não será uma venda, os ativos continuam sendo da Universidade. Aqui na Cidade Universitária, no caso do Cempes, a Petrobras está ali por aluguel. Lá na Praia Vermelha , não queremos aluguel. Queremos contrapartida em troca de construção. Como no caso das Torres do Ventura, do BNDES, o que aconteceu no início dos anos 2000. Já fizemos troca por andares do prédio. Queremos que quem ganhar possa terminar as obras aqui da Cidade Universitária, principalmente do alojamento para estudantes.

Plurale - Qual a sua opinião sobre o novo Programa Future-se, lançado pelo MEC, que busca o fortalecimento da autonomia financeira de Universidades e Institutos Federais por meio do fomento à captação de recursos próprios e da autorização para contratos com Organizações Sociais (OS)?

Denise Pires de Carvalho - A Universidade precisa discutir o programa tendo por base os documentos divulgados. A Administração Central da UFRJ está analisando o programa detalhadamente e se coloca à disposição para discutir com as entidades representativas em diferentes instâncias acadêmicas. Receberemos sugestões sobre o programa pelo e-mail reitoria@reitoria.ufrj.br até 6/8, para que seja possível consolidá-las para discussão no Consuni em 8/8. O prazo para o término da consulta pública lançada pelo MEC é 10/8. Será necessária a apreciação do tema pela Procuradoria Federal junto à Universidade e pelos órgãos colegiados. O Future-se será divulgado também nas unidades e nos centros, para extensa discussão. A princípio, em relação ao programa, a Universidade estará alinhada com a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes).

A UFRJ se posiciona no sentido de entender que a maior parte dessas atividades já é exercida pela maioria das Instituições Federais de Ensino Superior, e pontua que as mudanças apresentadas pelo programa se referem muito mais ao modelo de gestão dos recursos próprios. O programa precisa ser mais detalhado para a comunidade universitária, para que possamos analisar e contribuir durante o período de consulta pública, pois ainda há muitas dúvidas”.







Veja também

0 comentários | Comente

 Digite seu comentário

*preenchimento obrigatório



Ninguém comentou essa notícia ainda... Seja o primeiro a comentar!