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Salmão é alvo de polêmica na Patagônia

Chilenos e argentinos se unem para impedir a criação do peixe em cativeiro. Por Monica Yanakiew, direto de Ushuaia

Texto e Fotos de Monica Yanakiew, Especial para Plurale

Da Patagônia / Argentina

De Ushuaia – Enterrado na neve, no extremo sul da Argentina, um canhão continua apontado para o Chile. Uma relíquia, dos tempos em que as ditaduras militares quase levaram os dois países a uma guerra, no "Fim do Mundo". Quatro décadas depois, chilenos e argentinos, instalados nas duas margens do Canal de Beagle, se uniram numa guerra contra o que consideram ser um inimigo comum: a indústria do salmão, em expansão na Patagônia, que ameaça as águas de um dos lugares mais impolutos do planeta.

Os protestos começaram no Chile, segundo maior produtor mundial de salmão, depois da Noruega. Organizações de defesa do meio ambiente já vinham denunciando os prejuízos causados pelos centros de cultivo, tanto à natureza, quanto à saúde das pessoas, que comem peixes tratados com antibióticos. A indústria - que em 2018 exportou 800 mil toneladas a setenta países, entre os quais estados Unidos, Japão e Brasil - está buscando águas mais frias e limpas para se instalar.

Agora, um grupo de chefs argentinos somou-se à campanha preventiva, para impedir que empresas de engorda do peixe migrem da Patagônia chilena (onde tem sido alvo dos ativistas ambientais) para a província de Terra do Fogo. Numa noite fria de inverno, Lino Adillón abriu as portas da cozinha do pitoresco restaurante Volver, no centro de Ushuaia.

Na bancada, ouriços e pepinos do mar, uma enorme paella, decorada com camarões e mexilhões, e o "vilão" da noite – o salmão criado em cativeiro, que foi banido da sua mesa.

"Perdi muitos amigos fazendo campanha contra o salmão, mas é uma causa que considero justa", diz Adillón (foto acima). "As pessoas podem não ver o que está acontecendo no fundo do mar, debaixo das jaulas, lotadas de peixes - alguns deles doentes. O que os olhos não veem o coração não sente. Por isso temos que conscientizar os consumidores, banindo o salmão da mesa".

Aos clientes, Adillón oferece uma degustação do que ele considera ser uma das bebidas mais raras e preciosas do mundo: um copinho de água cristalina do Canal de Beagle, menos salgada que a do mar. Não é gostosa. Mas quem não resiste à curiosidade de provar o que o chef recomenda e ouvir a explicação? Aquele pedaço estreito do mar ainda não foi contaminado e nele convivem espécies, como a santola (caranguejo gigante), que correm o risco de desaparecer, se a indústria do salmão prosperar.

No dia seguinte, num evento para 500 pessoas em Ushuaia, o conhecido chef Francis Mallmann (foto abaixo) – um dos protagonistas da série Chef's Table, na Netflix – anunciou que o salmão criado em cativeiro foi retirado do cardápio de seus dez restaurantes, na Argentina, no Uruguai e nos Estados Unidos. "Nos últimos trinta anos cozinhamos milhares de salmões. Mas há dois ou três anos começamos a ouvir ruídos sobre os problemas que estavam acontecendo no Chile, por causa dos antibióticos", disse Mallmann. "Nunca é tarde para mudar. Queremos impedir que o cultivo do salmão se instale no Canal de Beagle, mas não queremos parar aqui. Existe muita criação de salmão no mundo".

Mallmann, que já foi dono de restaurante no Brasil, lembra que os brasileiros consomem muito salmão de criação – tanto grelhado, como em sushis. Mas segundo o chef, que fez fama cozinhando carnes e peixes, daqui a trinta anos as pessoas não estarão mais consumindo proteínas animais como agora. "A mudança será feita pelos jovens, que tem a ambição de fazer a coisa certa e não de ganhar dinheiro, como nós".

FIM DO MUNDO

Ushuaia disputa com Puerto Williams, no Chile, o titulo da cidade mais austral do planeta – e depende do turismo para sobreviver neste pedaço conhecido como Fim do Mundo. A mobilização contra a indústria do salmão ganhou força depois que o governo argentino assinou convênios com a Noruega, em 2018, para realizar um estudo de viabilidade sobre o desenvolvimento da aquicultura na Terra do Fogo – e no Canal de Beagle. Empresas chilenas e norueguesas estão buscando águas mais frias e limpas, para criar peixes sem risco de infecções, podendo assim reduzir o uso de antibióticos. Mas o biólogo Gustavo Lovrich, do Conselho Nacional de Investigações Cientificas e Técnicas (Conicet), afirma que os centros de cultivos atualmente usados representam um sério risco para a fauna local.

"Mesmo que os salmões não recebam antibióticos, sempre existe o risco de que escapem das jaulas. Já vimos isso acontecer em muitas ocasiões, no Chile. E eles vão disputar a comida com outras espécies, como os pinguins, que comem os mesmos peixes que eles", explicou Lovrich. Filho de pescador e surfista de ondas grandes, o chileno Ramón Navarro mergulhou no fundo do mar, no arquipélago de Chiloé, para registrar os estragos que a criação de salmões produziu. "Encontrei um mar morto. Uma camada de lama cinza e podre, com excrementos e restos de peixes mortos, que sufoca a vida la embaixo. E que tambem acabou com a aldeia de pescadores onde cresci. Ninguem tem mais o que pescar".

As imagens de destruição aparecem nos documentários Estado Salmonero, narrado por Navarro, e Artifishal, produzido pela empresa norte-americana de roupas Patagonia, que patrocinou o evento. Foram exibidos para mobilizar a população de Ushuaia e pressionar o poder legislativo a aprovar um projeto-de-lei proibindo essa forma de criação, em grande escala, com piscinas que tem o tamanho de um campo de futebol.

"Os políticos apoiaram a iniciativa, até porque sabem que a indústria de salmão no Canal de Beagle não vai gerar tanto emprego assim – mas pode destruir o turismo. Pessoas do mundo inteiro vem aqui para ver a natureza e os pinguins e precisamos preserva-los", diz Martina Sasso, diretora de "Sin Azul no Hay Verde", um grupo de ONGs que defende a criação de parques nacionais marítimos na Argentina. "A única forma que temos para garantir que de fato vão respeitar a promessa de proteger o meio-ambiente e com uma lei", disse.

Defensores das empresas de criação de salmão – e de outros animais – argumentam que a pesca selvagem e a caça são insuficientes para alimentar a população mundial e que a tecnologia ajuda a combater a fome. Mas segundo Lovrich, o que está em discussão é justamente a falta de aplicação - nestas partes do mundo - do que há de mais novo.

"A mesma empresa norueguesa que quer instalar jaulas de engorda no Canal de Beagle está investindo em Aquicultura em Sistema de Recirculação próximo a Miami, que é um centro de consumo", disse o biólogo. "Em vez de jaulas no mar, que dificilmente são controladas, são usados tanques na terra, com água que circula – sai por um lado, é purificada, e entra novamente no tanque, limpa, sem contaminar o meio-ambiente". Segundo Lovrich, é um investimento caro – mas que compensa a longo prazo.

Ao mesmo tempo em que se mobilizam contra a indústria de engorda de salmão, vários pescadores de Ushuaia se juntaram para criar uma Rota da Centolla (Santola). A capitã Diana Mendes, leva os turistas para capturar e comer, em seguida, o caranguejo gigante, na sua rustica cabana. "Nos organizamos com os vizinhos. Alguns pescam, outros colhem os frutos do bosque para fazer compota", conta. "A ideia é que tenham a experiência de viver o que vivemos, aqui no Fim do Mundo".

A Jornalista Mônica Yanakiew é correspondente na Argentina há 15 anos.







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1 comentário | Comente

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Beto |
Muito boa e esclarecedora a reportagem de Monica Yanakiew sobre o salmão. Vi de perto, em recente viagem, e conversei com pescadores e familiares de locais onde a pesca artesanal está acabando .