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PLURALE EM REVISTA , EDIÇÃO 67 - Nosso Brasil em Floripa

Objetos garimpados nos quatro cantos do país fazem da Casa de Ana, no sul de Florianópolis, um templo da arte popular

Por Raquel Ribeiro, Especial para Plurale

De Florianópolis (SC)

Foto: Divulgação

No meu “caminho da roça” já tinha visto de carro as fitas coloridas e o nome, Casa de Ana, talhado em madeira; mas foi preciso estar à toa e a pé para me ater à beleza da vitrine e sentir o convite de ali entrar. A delicada organização das peças, o cuidado na identificação de cada uma delas e o bom gosto permeando toda a seleção de objetos delinearam a loja como um espaço de celebração do artesanato e arte popular brasileira.

Uma gentil vendedora me mostrou os aneis e colares vindos dos Acre, as onças típicas do Pantanal, enfeites guaranis e me levou até a dona do espaço. “Gosto muito da renda de tramóia típica daqui e do boi de mamão”, disse Ana Paula Dreher, assinalando as principais referências da nossa ilha. “Mas quis percorrer o interior para descobrir o que mais se produz nesse que é um dos estados mais miscigenados do Brasil.” Em suas andanças por Santa Catarina, ela conheceu, por exemplo, o engobe, técnica para revestir e tingir a cerâmica com pigmento natural, trazida há mais de duas décadas por artistas uruguaios e argentinos. Depois viu, in loco, mulheres trançando o capim dourado, em Jalapão, moldando barro em Serra Branca no interior paraibano, e tantas outras mãos desvendado a arte adormecida em materiais da natureza.

Essas viagens levaram Ana a se aproximar de artesãos que trabalhavam isolados; assim como de reconhecidos mestres, como o xilogravurista pernambucano J.Borges ou a mestre Ininéia, no interior de Alagoas.

Arquiteta de profissão, Ana sempre cultivou o olhar curioso de repórter e, assim, registrou histórias de obras expostas na loja, como as peças de seu Bento.

Natural de Sumé, na Paraíba, morou muitos anos em São Paulo e, após um acidente, não conseguiu mais trabalho e decidiu retornar ao estado natal. Encontrou um palete de madeira e descobriu que havia potencial para transformar testos em arte. Foi se aprimorando e hoje é um escultor reconhecido, que tem nos pássaros seu tema. preferido. Os passarinhos de seu Bento são umas das preciosidades da loja; assim como os de seu Zé Valdo, feitos em madeira umburana e que só faltam cantar de tão perfeitos. Originário do sertão baiano, Zé trabalhava em uma empreiteira que fazia a manutenção de linhas de transmissão de energia. Cansado da vida que levava resolveu voltar para o sertão e unir a necessidade ao talento: aprendeu a trançar a fibra de licuri, criando peças especiais. Falecido ano passado, seu Zé deixou saudades – mas também sua técnica, seguida pelos filhos.

Ana escutou essas e tantas outras histórias que hoje se fazem presentes na loja. “Ir ao artesão é valorizar seu trabalho. Sou recebida com carinho; eles mostram tudo com muito orgulho”. Ana gosta de se embrenhar Brasil adentro! Em uma expedição ao Pará, visitou comunidades extrativistas junto ao rio Arapiuns e se encantou com trançados feitos em fibra de tucumã com tingimento natural – uma herança de povos indígenas –, assim como com a arte Marajoara e com objetos de látex e sementes de morototó, na Flona (Floresta Nacional do Tapajós). Sempre que pode, leva a filha junto, “pois se a gente só ama o que conhece, vamos conhecer nossa cultura!” A menina, hoje com cinco anos, já identifica obras de J. Borges, Cida Lima e de Valdeci, conhecida como Nem. Esta ceramista do interior de Sergipe trabalha sentada na porta de casa, moldando potes com as mãos. Esta técnica, chamada louça morena, passa de geração em geração desde o Brasil colônia!

Nada de “industrianato”

No quesito sustentabilidade, Ana está engajada em um novo projeto: visita empresas que geram rejeitos possíveis de ser reaproveitados (como sobras de fios emborrachados de uma fábrica de sapatos, que estão sendo testadas para uso no tear). A arquiteta ainda é rigorosa ao checar a procedência de tudo que selecionao: passa longe do “industrianato”, confere se a produção não agride a natureza (observa se o pigmento é de origem nacional ou se a madeira é de fato um resíduo, por exemplo); e se a peça é genuinamente brasileira. O tripé na qual baseia a filosofia da Casa é “ser bom para quem faz, para quem vende e para quem compra”.

A Casa ainda abre espaço para exposição de artistas locais; e levanta bandeiras culturais. Quando há algum tempo, o Parque da Serra da Capivara (Piauí) foi fechado, ali foram exibidos documentários e muitas pessoas participaram do abaixo assinado para reabertura do parque. Esse engajamento tem sua importância, claro! Vejo, porém, ainda mais força em outro princípio da Casa: “O Brasil redescobrindo o Brasil”.

“A gente acredita que nossa arte popular só vai ser realmente valorizada quando o brasileiro tiver orgulho de usar, de ter em casa. Investimos na vitrine da loja para mostrar como tudo pode ficar bonito e sofisticado com nossa identidade nacional.”

O melhor é que a formosura do artesanal pode ter um impacto social e ambiental positivos. Na loja, há objetos produzidos com fibra de bananeira, de taboa e de butiá; enfeites e acessórios de borracha da seringueira; potinhos e acessórios criados com resto de casca de laranja e utilitários feitos de papier ostra, um processo artesanal de reutilização das cascas de ostras – vindas da costa catarinense. Por conta dessa inovação técnica, a artista Claudia Bartczac foi uma das ganhadoras da 3a edição do prêmio Sebrae Top 100.

Ver os potes delicadamente brilhantes de Claudia e tantos outros objetos plenos de histórias me levou a respeitar ainda mais nossa diversidade cultural, e a admirar a fibra, a garra, a força do artesão brasileiro.

Portas abertas

Em maio, a Casa de Ana comemorou sete anos e abriu o Espaço Semente, um lugar para encontros, palestras, workshops e trocas com a comunidade. “Estamos abertos para conversar sobre bons projetos ligados à arte e à sustentabilidade; juntos podemos fazer germinar pequenas transformações que farão grande diferença”, acredita a idealizadora do espaço. Na inauguração desse espaço, uma das palestras foi sobre compostagem de resíduos orgânicos, tema que, com aprovação de um projeto de lei, ganha força política em Florianópolis e em breve será implementado – exemplo de uma semente que está prestes da germinar.

http://www.casadeana.com.br/casa-de-ana/







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