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Rock in Rio 2019 - tropeço nos ´detalhes`

Por Sônia Araripe, Editora de Plurale

Há alguns anos tenho a nítida avaliação que os megaeventos - de diferentes matizes - podem ajudar a salvar o nosso lindo, mas, combalido, Rio de Janeiro. Seja o tradicional Carnaval, festas periódicas - de cunho religioso ou pagão - campeonatos esportivos, etc. O Rock in Rio já se tornou tradição nesta lista célebre. Com a experiência de quem esteve cantanto ao lado de James Taylor na primeira edição em meio à uma multidão e muita lama - e desde então tem marcado presença -, não há dúvidas que o festival deixou de ser apenas um conjunto de boas intenções para se profissionalizar e ganhar fôlego de megaprodução global.

Dito isto, a organização do Rock in Rio 2019 - que reuniu cerca de 100 mil pessoas no primeiro fim de semana - caprichou na produção artística, mas parece ter se esquecido que o perigo mora nos detalhes. Algumas fotos circularam na Internet de versões anteriores, com grande quantidade de lixo acumulado. Fake news, asseguraram os organizadores. Verdade. Mas há muitos registros e relatos que chegaram para a redação de Plurale deste fim de semana: a gestão de resíduos não funcionou e o que se viu foi uma tentativa do público de tentar descartar corretamente em coletores que não deram conta da imensa quantidade de lixo gerado.

"Foi triste ver tanta sujeira. Havia poucos coletores e muitos resíduos. Uma pena que os produtos vendidos lá dentro geravam tanto resíduo", lamentou a jovem Maria Vitória Cantidiano, publicitária, autora do Blog VireiEco, que esteve no evento neste primeiro fim de semana. Ela contou que levou seu próprio copo sustentável, mas que viu inúmeros copinhos de água mineral e embalagens jogados no gramado. O jornalista Alexandre Gaspari lamentou que não tenham permitido a entrada de garrafinhas/squeezes. "O argumento é que tinham tampas e não era permitido. Na verdade, os fabricantes/fornecedores do local pareciam nao ter a preocupação com a sustentabilidade."

Um copo indicava que depois de utilizado viraria embalagem de cosmético. Mas como convencer o público que as marcas fornecdoras e os patrocinadores não alinharam a preocupação com os organizadores com a economia circular se o resultado era só uma pilha de lixo? Ou a desculpa de sempre....recaindo sobre o público que não sabe onde descartar.

Alguém lembrou que choveu muito, o que dificulta ainda mais a circulação do público em um megaevento desta dimensão. Mas será que ninguém poderia guardar o seu resíduo na bolsa ou mochila até poder descartar em local apropriado? Ou que os garis não poderiam esvaziar os coletores para que pudessem voltar a ser enchidos por mais resíduos?

Como sempre reiteramos - sustentabilidade vai muito além das boas intenções. De falar da defesa da Amazônia, mas se esquecer de planejar ações práticas realmente alinhadas com a tão almejada economia de baixo carbono.

Não foi só. Foram registrados assaltos dentro do gramado. O posto de Polícia dentro do evento registrou dezenas de ocorrências a cada dia. Someste neste domingo, 204 celulares foram roubados nas instalações do festival, com quadrilhas infiltradas. E o serviço de ônibus vendido como especial - com wifi e banheiro interno - não funcionou como esperado. O Procon Estadual está de plantão para orientar os consumidores que tenham dúvidas ou problemas relacionados ao Rock In Rio. No primeiro final de semana, houve reclamações sobre a fila exclusiva do Rock In Rio Club, sobre o serviço do ônibus "Primeira Classe" e dúvidas a respeito da compra de ingressos em site não oficial.

Procurada, a assessoria de imprensa do Rock in Rio enviou uma nota para Plurale. Entre os principais pontos, a Organização do Rock in Rio reforçou na nota que "tem o compromisso de tratar todos os resíduos gerados durante o festival e, para isso, conta com um plano de gestão onde 100% deles recebem tratamento ambientalmente adequado, dentre reciclagem, reaproveitamento e compostagem." Destacou que o Rock in Rio "é um dos poucos eventos do mundo que detém a ISO 20121 de sustentabilidade". Informou ainda que "todos os brindes e estandes passaram pela aprovação das áreas de Operação e Gestão de Resíduos para garantir que os brindes não tenham embalagem desnecessária e sejam interessantes a ponto do público não eliminar." E citou o acordo entre a cervejeira Heineken e a Natura para tarnsformar copos de plástico descartados depois em embalagens da linha Humor: segundo a nota, a expectativa que irá reciclar aproximadamente 2,5 milhões de copos, também evitará a emissão de até 15 toneladas de CO2 para a atmosfera. Mas não foram informadas quantidades de lixo gerados, nem ações concretas para evitar a geração de tantos resíduos com fornecedores de produtos comercializados, nem porque havia tanto lixo espalhado em toda a área do evento.

A Comlurb, contratada para fazer o recolhimento do lixo dentro do evento, garantiu que "não houve problemas" e também enviou nota com números sobre a coleta. "A estratégia da Comlurb para coletar o máximo possível de materiais potencialmente recicláveis funcionou plenamente no fechamento da primeira semana de Rock in Rio com limpeza sustentável. No domingo, (29/09), a Companhia removeu 58,4 toneladas de resíduos da área interna, sendo 13 de orgânicos e 45,4 de materiais potencialmente recicláveis, quase 80% dos resíduos coletados. Na área externa, foram 3,7 toneladas de lixo não segregados. O total coletado foi de 62,1 toneladas, 16,7 toneladas de orgânicos e 45,4 toneladas de materiais potencialmente recicláveis. Somando as três noites do Rock in Rio e mais o evento-teste realizado no dia 24/09, já são 162,2 toneladas, sendo 65,9 toneladas de orgânicos e 96,3 toneladas de recicláveis", informou a Assessoria de Imprensa da Comlurb à Plurale. E que "os resíduos potencialmente recicláveis para os catadores cooperativados credenciados pela Companhia nas centrais de triagem em Irajá e Bangu." A Comlurb foi contratada pelo segundo ano para executar o serviço de limpeza, coleta e dar a destinação final adequada aos resíduos gerados na fase de montagem, durante o evento e desmontagem. Segundo a assessoria de Imprensa, a Comlurb "disponibilizou 1.143 garis e 158 agentes de limpeza urbana para executar os serviços de varrição e limpeza das áreas de circulação do público, VIP, arenas 2,3 e velódromo, palcos e camarins, além de banheiros e postos de saúde." Completou a nota confirmando que multou "apenas 10 pessoas no primeiro fim de semana do evento, na área entorno do Parque Olímpico", como parte do Programa Lixo Zero, uma por urinar em vias públicas e nove pelo descarte irregular de pequenos resíduos.

Fica a dica para quem ainda vai: é possível levar o copo sustentável para o evento - há vários bebedouros públicos espalhados e também é permitida a entrada de pequenos lanches dentro da mochila, bem acondiconados. Nada de squeeze ou tentar levar produtos para serem comercializados lá dentro. E se for lanchar por lá, procure produtos mais sustentáveis e evite descartar em lugar errado.

Esperamos que os problemas vistos no primeiro fim de semana sejam corrigidos a tempo para o show continuar a brilhar forte no segundo - e último fim de semana - de mais esta edição. O mínimo que se pode esperar de um grande evento como este. Que seja lindo, global e sustentável.







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1 comentário | Comente

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02/10/2019 10:08
Eu, que fui a todas as edições do Rock in Rio, vou levar minha filha de 9 anos ao evento no dia 05/10, pela primeira vez. Espero que nesta data a cidade do rock tenha menos lixo, se o os lojistas e o público tiverem mais cuidado e atentarem mais para o "luxo" da civilidade e descarte responsável.