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Casos e Causos

Empoderamento feminino indígena na Amazônia é tema de Conferência na Inglaterra

Por Ana Carolina Maia, Colaboradora de Plurale

A cidade de Bradford, Inglaterra foi escolhida para sediar o maior evento europeu sobre Feminismo, o FILIA. A Conferência acontece durante os dias 19 e 22 de outubro e reúne mulheres de várias partes do mundo com o objetivo de debater questões relacionadas à igualdade de gênero e a defesa dos direitos das mulheres. O destaque da edição 2019 é a pauta sobre empoderamento feminino indígena, liderado pela palestrante, da etnia Sateré-Mawé, do Pará, Ellen Acioli, uma das vozes do coletivo Suraras do Tapajós que lutam pelo combate a violência contra as mulheres indígenas.

Para ampliar vozes e construir uma rede de irmandade e solidariedade entre as mulheres, o FILIA fez questão de incluir em seus temas e mesas de discussão um painel especialmente voltado para a situação das mulheres na América Latina. Para compor a delegação quatro mulheres brasileiras estão na lista de palestrantes do evento, todas com amplo conhecimento, anos de ativismo e militância pela causa feminista.

O Filia é uma organização de voluntárias lideradas por mulheres que fazem parte do Movimento de Libertação das Mulheres: "nós somos as filhas das mulheres que vieram antes de nós e lutamos para que nossas filhas possam ser livres". O foco do trabalho é a Conferência Anual dos Direitos da Mulher, que existe desde 2013 e busca um mundo livre do patriarcado, onde todas as mulheres e meninas são libertadas. O Filia recebe apoio do Fundo Elas e British Council.

Sororidade e Protagonismo Feminino Indígena

Com a missão de unir forças a favor das mulheres, surgiu na vila de Alter do Chão, em Santarém, oeste do Pará, o coletivo de Suraras do Tapajós, que reúne mulheres de diversas etnias que lutam pelo empoderamento e defesa de seus territórios e acreditam que a força e os cantos das mulheres são sagrados como a Terra, e que criar espaços é dar voz a uma luta que busca um futuro melhor para as próximas gerações. Com a missão de combater a violência contra mulheres indígenas e o racismo, promovendo acolhimento e fortalecimento da autoestima.

Na visão das Suraras tanto as mulheres quanto as indígenas, todas estão vulneráveis a violência. Os locais de fala, os espaços a serem ocupados são negados e isso acontece em maior escala quando se trata da questão indígena. Existe preconceito, machismo, baixa autoestima, tristeza e uma série de fatores que contribuem para a invisibilidade da mulher indígena.

Quando o coletivo foi criado, em 2016, o objetivo era promover rodas de conversa e afetividade com as vítimas de violência doméstica. Durante as reuniões periódicas foi constatado que muitas manas dentro da aldeia sofriam algum tipo de abuso, mas nem elas sabiam que o que se passava dentro de casa era uma forma e violência por parte de seus companheiros. A situação relatada preocupou a coordenação das Suraras que resolveram partir rumos aos territórios indígenas e investigar de fato o que estava acontecendo.

Ao promover essas visitas nas aldeias as Suraras descobriram que a violência sofrida pelas mulheres tinha base na dependência financeira, não se tratava apenas de agressões físicas ou verbais. Havia violência patrimonial, emocional, sexual, moral e outras formas. As mulheres do coletivo entraram em ação para explicar, acolher e mostrar que aquilo que acontecia dentro de casa era um abuso sim. "As Suraras prestaram todo o apoio psicológico e social para as indígenas. Resgatamos o amor próprio dessas mulheres, ensinando que elas merecem respeito e podem muito bem construir uma vida feliz sozinha ou casada", comemora a palestrante indígena, Ellen Acioli.

Bióloga, indígena, ativista, empoderada e feminista

A única palestrante indígena a participar do FILIA 2019, Ellen Acioli, 38 anos, bióloga, natural de Oriximiná, no Pará, viveu até os quatro anos de idade às margens de uma comunidade ribeirinha. Ainda criança, após a família se mudar para a cidade, a pequena Ellen desenvolveu um amor muito grande pela natureza. Parte dessa sensibilidade ela herdou de sua avó, uma grande defensora e conhecedora dos poderes da floresta, fazia uso de plantas medicinais e matinha um forte relação com suas raízes ancestrais.

Na adolescência, a estudante já tinha em mente concepção de que lutar em defesa da floresta significa lutar pela proteção dos povos e pela permanência da vida na Terra. Ao entrar no ensino médio, Ellen começou a militar em prol dos direitos estudantis. "Mais tarde eu entendi que minha luta precisava ser afunilada e voltada para os povos da Amazônia." Conta a bióloga.

Já adulta e empoderada, Ellen mergulhou de cabeça em defesa do feminismo e foi uma das idealizadoras do coletivo Suraras do Tapajós. A justificativa para liderar o movimento é de que no Brasil é quase inexistente a atuação do feminismo indígena, não há nenhum tipo de representatividade. "As pautas são sempre em defesa das terras, da Amazônia, ainda não existe um debate amplo sobre a questão feminina e isso não é só aqui, na Europa esse tema ainda está engatinhando." Destaca.

Brasil não possui dados sistematizados sobre violência contra a mulher indígena

De acordo com as informações das Suraras do Tapajós, o Brasil não possui nenhum dado sistematizado sobre os índices de violência contra a mulher indígena. As informações são dispersas e não compõe nenhuma plataforma e dessa forma, sem estatísticas completas a criação de políticas publicas para essas indígenas ficam inviáveis. "Dessa forma não conseguimos dar um suporte maior para elas seja na aldeia ou na cidade, pois as tradições culturais variam conforme as etnias. Tem que haver um estudo abrangente para compreender melhor como ocorre essa violência e de que maneira podemos solucionar", sugere Acioli.

Foto de Suraras do Tapajós- Divulgação Redes Sociais.







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