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Entrei num pesadelo

Por Nádia Rebouças, Colunista de Plurale

Eu que sempre fui tão otimista

Nunca fui de ter muitos pesadelos, ou pelo menos lembro de muito poucos, ao longo da minha já longa vida. Acordada passei por alguns momentos muito ameaçadores: angústia, perda, medo, necessidade de desapegar... Apesar de entender que tudo isso faz parte da trilha de aprendizado da vida, alguns foram momentos de ameaça, pânico, um soco para acordar a alma fazendo dormir as certezas. Vivi a ditadura e esse foi um dos maiores pesadelos que tive acordada. Ela engoliu minha juventude e deixou para sempre um gosto amargo na boca.

Pensei que isso tinha ficado no passado. Mas não, há um ano o pânico da minha juventude voltou na minha “melhor idade”. Já odiava essa expressão, agora ela me dá enjoo! Minha liberdade, primoroso valor que resguardei por toda minha vida, virou terra plana. O pesadelo me ataca dormindo ou acordada. Dormindo parece que entrei num território de monstros, vampiros, fantasmas que destroem águas, terra e plantas. Os pesadelos são cheios de fogo, de lama, de piche... as pessoas queimam com as árvores ou ficam sufocadas por muita lama e muito piche! Olho para elas e fica difícil identificar os rostos... estão cobertos por barro ou óleo preto tornando difícil perceber suas identidades! Vou andando e vendo animais, aves, peixes, tartarugas, a se debater no fogo, na lama, no piche. Queimaram as árvores que cresciam na terra e encheram de óleo aquelas que cresciam tranquilas debaixo do mar.

Escuto vozes falando números, dados de pesquisas, informações, mas ninguém escuta.

Ouço gritos de dor da mãe terra. São gritos numa música que se harmoniza, numa sinfonia de horrores. Vejo imperadores amedrontadores, cheios de medalhas no peito, puxando seus filhos para mostrar que a dinastia dos horrores está sendo garantida. Me aparece um mostro nojento, cor de abóbora, usando óculos redondinho que solta raios de ódio afetando tudo por onde passa.

Muitos jovens morrem atacados por dinossauros voadores. Eles, sequer tem tempo de gritar, e tudo se cobre de horror. Num certo momento do pesadelo tudo vira sangue. O vermelho tinge o marrom da lama, o preto do piche, o azul das águas e do céu. Eu acordo, mas parece que não acordei...

Meu amor pela natureza vai virando terra arrasada. Há cor de fogo e escuro de fumaça nos filmes e fotografias que aparecem na TV e nas redes sociais. Falta ar e a asma me ataca! Meu pânico aumenta quando ouço o voo do helicóptero. Nossos heróis e referências são banidos, xingados desvalorizados. De cima de uma montanha de minério vejo cair pessoas que pareço conhecer e admirar muito: são atrizes, atores, cantores, escritores, pedagogos e estudiosos de tudo.

Metodologias que criei ao longo de décadas viram cadáveres. Que empresa quer hoje ouvir as pessoas com profundidade? Investir no diálogo? Muito mais fácil um questionário online, x no quadradinho. Quem quer investir em seres mais conscientes, com perspectivas ambientais ou de desenvolvimento humano? Quantos querem investir em gerar insights para novas percepções e com desejo de construir um mundo melhor? Passou o sonho. Melhor, muito melhor que as pessoas estejam em choque. Tantos desempregados!!

Algumas noites vejo crianças e jovens baterem os pés e fazer continência, nada de aprender a pensar, mesmo que escute ao longe comerciais de grande marca falarem o tempo todo em ter sonhos.

“Seja empreendedor, se não consegue... sentimos muito”. “Venham para as “novas escolas” (me lembram velhas escolas... muito velhas). A moda é aprender a calar, vamos ter disciplina na Pátria amada!

“Índios, quilombolas, mulheres e gays que agradeçam por ter chegado até aqui. Agora entrem no pesadelo. Os que se acostumaram a buscar a liberdade, a sustentabilidade, a diversidade, a espiritualidade se afastem, se escondam, encontrem seus guetos, não há lugar para “softs” nesse pesadelo”.

Racismo, discriminação, isso sim é construir o tal “cidadão de bem”. Educação, sensibilidade, gentileza, civilidade estão alijadas no pesadelo, na mira de um fuzil. No pesadelo que me assola as mãos viram armas, as palavras bombas, as redes sociais palco de assassinatos virtuais, como se não bastassem os reais.

No meu último pesadelo eu gritava por resistência, por descobrir como tirar do caminho tantos monstros! Pedia a libertação da lama, do piche, do fogo! Gritava muito alto: “Não quero ir embora do planeta chorando e escorregando pela terra plana”!

Acordei, mas não adiantou...

(Ilustração - Reprodução de "O grito", de Edvard Munch)







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