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No entorno de Itaipu, o renascimento

Com corredores de biodiversidade, que medem 60 metros de largura por quatro quilômetros de extensão, e coexistem com as áreas produtivas (soja, milho, pecuária), a floresta vem sendo restaurada

Por Nícia Ribas, de Plurale (*)

De Foz do Iguaçu (PR)

Fotos de Nícia Ribas/ Plurale e Rubens Fraulini/ Comunicação - Itaipu Binacional

A Mata Atlântica, sua fauna e flora; a população ribeirinha - pequenos agricultores, pescadores; e as aldeias indígenas, que foram atingidas pela inundação na construção da Usina Hidrelétrica Itaipu Binacional há 35 anos, vêm sendo recompensados com um leque de iniciativas de recuperação e preservação na região. O grupo de jornalistas recentemente recebido pelo General Luiz Felipe Carbonell, diretor de Coordenação da Itaipu Binacional, pode sentir seu entusiasmo com os projetos em andamento: “a produção de energia depende do meio ambiente, por isso aqui não se trata de um processo acessório, mas de um macroprocesso finalístico.”

Ele fez um relato sobre o manejo de solo em 54 municípios paranaenses e mais um no Mato Grosso do Sul, por onde passam rios que deságuam no reservatório da Usina. Desde a recuperação de nascentes, conservação de biodiversidade e cercamento de mata ciliar, todo esforço é direcionado para evitar assoreamento, um dos principais fatores que podem encurtar a vida útil de uma hidrelétrica. “Anteriormente, 76% da Mata Atlântica estava desmatada, hoje a floresta está de volta”, disse.

Em função da estiagem, este ano a produção de energia não foi das melhores: 96,4 milhões de MW/hora, o que garante 15% da energia consumida no Brasil e 90% no Paraguai. O recorde de produção foi em 2016: 103.098.366 MWh. Através do geoprocessamento, um sistema de controle e inteligência de dados, é possível ficar atento e manter a qualidade de vida na região. Mas isso não seria possível não fosse a participação de todos através de parcerias com prefeituras, instituições e cada um dos moradores.

Foto de Rubens Fraulini/ Comunicação - Itaipu Binacional

Ação integrada

Com corredores de biodiversidade, que medem 60 metros de largura por quatro quilômetros de extensão, e coexistem com as áreas produtivas (soja, milho, pecuária), a floresta vem sendo restaurada. Em visita à Fazenda Santa Maria, os jornalistas puderam ver um exemplo de recuperação de 73 hectares. Como decorrência do plantio de 128 mil mudas, mais de 120 diferentes espécies da fauna, como a Arara Canindé, que estava em extinção, já foram registradas. Na semana da visita dos jornalistas, os empregados da Itaipu vibravam com o registro de uma onça pintada e um puma.

Os refúgios biológicos da Itaipu somam mais de 100 mil hectares de florestas protegidos pela usina em ambas as margens - brasileira e paraguaia. A inundação, há 35 anos, atingiu 104 mil ha. As áreas protegidas pela binacional integram a Reserva da Biosfera, chancela dada pelo Programa “O Homem e a Biosfera” da ONU. Para a Fundação SOS Mata Atlântica a empresa é a principal responsável pela regeneração desse bioma no Paraná, chegando a quase 30% da recuperação observada no estado nos últimos 30 anos.

O gestor de Bacias da Itaipu, Seno Leopoldo Anton, e a engenheira ambiental da prefeitura de Itaipulândia, Rosenei Zaleski, são um bom exemplo de ação integrada pela preservação das microbacias: “ações pontuais não são muito efetivas”, dizem. Como gestora do convênio com Itaipu, Rosenei atende os agricultores numa área de 328 km² e conta com eles para o relato de problemas e sugestões de melhorias. Itaipulândia é um dos municípios que integram o Programa Socioambiental da Binacional.

“Cuidamos da qualidade da água de cima para baixo, protegendo a nascente, recuperando áreas degradadas, protegendo a mata ciliar dos cursos d`água, numa extensão de 720 ha, desde 2003”, explica Seno, que faz questão de destacar a importância de conscientizar o agricultor e contar com sua parceria. Para eles, a educação ambiental é fundamental. No contato com os agricultores, os técnicos incentivam o reuso da água e mostram como evitar o despejo de carga orgânica nos rios – há muita criação de suínos e aves na região - e o cuidado para que os defensivos agrícolas não contaminem o solo. Até ensinam a construir um filtro biológico usando calcário e carvão.

Foto de Rubens Fraulini/ Comunicação - Itaipu Binacional

Fala, agricultor!

Em São Miguel do Iguaçu, o agricultor Luiz Antônio Arruda, 63 anos, garante que sua vida melhorou depois da parceria com Itaipu, que já dura 10 anos. Ele e a mulher, Rose, cuidam sozinhos do plantio de palmito pupunha, feijão, mandioca e frutas, sem nem um pingo de agrotóxico. “A assistência dos técnicos enviados para nos orientar é muito importante e contribuiu para aumentar nosso faturamento”, diz ele, que além de vender os produtos in natura, também fabrica polpa. Além disso, o Sítio do Arruda recebe turistas e turmas de escolas durante todo o ano, para fazer a trilha e saborear o almoço. Simpático e bom de papo, ele conquista cada vez mais visitantes.

Agricultor Luiz Antônio Arruda, 63 anos - Foto de Rubens Fraulini/ Comunicação - Itaipu Binacional

Capítulo à parte é o talento da Rose na cozinha. Para os jornalistas, ela preparou porco e galinha no fogão à lenha, ensopadinho de palmito, aipim, arroz e o mais saboroso feijão – colhido na véspera. Para beber, suco de araçá roxo, espécie que eles plantam desde que conseguiram uma semente vinda de fora, que deu certo nas suas terras. Aprovado por todos!

Arruda recebe orientação da CAPA – Centro de Apoio à Agroecologia, que oferece cursos e diversas atividades para capacitar os agricultores, dando apoio na comercialização e nas parcerias com cooperativas. “Mantemos 10 feiras livres para estimular a agroecologia, com o lema Comida Boa na Mesa”, disse Vilmar Saar aos jornalistas. Todo ano eles participam do show rural em Cascavel.

Desde 2008, a Unioeste – Universidade Estadual Oeste do Paraná mantém área específica para agroecologia. “Graças à parceria com a Itaipu, levamos informações aos agricultores, evitando perdas nas plantações”, disse o professor Emerson Fey.

Qualidade de vida

Às quartas-feiras e aos sábados, das 16h30 às 21h30, acontece a Feira de Desenvolvimento Rural Sustentável em Santa Helena, cidade com 25 mil habitantes. Prefeitura e Itaipu, numa parceria de sucesso, garantem assistência técnica aos pequenos agricultores, desde a produção até a comercialização na feira. Eles oferecem kits com barracas e orientam os trabalhos. Ronaldo Pavlak, da Binacional, e a Bio Labore cuidam de tudo.

Toda a alimentação para alunos das escolas municipais é fornecida por eles, sempre sob a orientação dos técnicos. Para as merendeiras e nutricionistas das escolas também são oferecidos cursos sobre como evitar desperdício, alimentação saudável e reaproveitamento de alimentos, sempre com produtos da safra. Maior emoção quando foi para Matelândia (PR) o primeiro lugar do Concurso Nacional de Merendeiras

A agricultora Maria Luiza Picco (Foto/ Nícia Ribas - Plurale) orgulha-se de sua barraca farta de frutas, legumes, linguiças, chouriços e até batata doce assada no fogão à lenha. Ela e o marido trabalham a semana toda no seu minimercado e no abatedouro de suínos e bovinos. Mas a quarta-feira é sagrada. Ela se acorda às 5h para preparar as linguiças. Ferve bem a carne de porco, mói, coloca na tripa, ferve de novo e espera esfriar para embalar e levar para a Feira. Enquanto isso a batata assa.

Santa Helena, município mais atingido pela inundação, ganhou uma área de uso múltiplo – serve à Usina e ao lazer. O Balneário Terra das Águas, com praia e outros atrativos, concentra os moradores nos finais de semana. Na virada do ano, vem gente das redondezas, chegando a reunir mais de 60 mil pessoas. Ao todo, há no entorno de Itaipu nove praias como a de Santa Helena.

Em Santa Terezinha do Itaipu, outra área de uso múltiplo, a Binacional beneficia os pescadores que perderam seu sustento quando houve a inundação. Ali foram criados 63 pontos de pesca, autorizados pelo IBAMA. O projeto criou um modelo padrão de ocupação, com casas de apoio e tanques para engorda no lago. Cada tanque contém 450 peixes (pacu e lambari), garantindo melhores ganhos para 850 profissionais.

Lixo ´cheiroso´

Outro exemplo de parceria que está dando muito certo é a que transformou o lixão de Santa Terezinha de Itaipu numa empresa de sucesso. O empenho do prefeito Claudio Eberhard, que está em seu quarto mandato, e a determinação do presidente da Associação de Catadores – Acaresti, Antonio Correia, mais as parcerias feitas com Itaipu e cada um dos moradores da cidade contribuíram para este resultado: apenas 12% da coleta feita por 46 catadores vai para o aterro sanitário e mais de 90% segue para reciclagem.

Graças às parcerias, foi possível ampliar os barracões e adquirir caminhões, uniformes e maquinário moderno, como a prensa vertical, e a instalação de placas fotovoltaicas, que garantem toda a energia consumida no dia-a-dia de trabalho.

Foto/ Nícia Ribas - Plurale

Mas o que mais faz crescer o entusiasmo dos catadores é a sua profissionalização e o salário, que passou de R$ 400,00 para R$1.800,00. “Agora somos olhados de outra maneira pela população”, diz Antonio, que está animado com a próxima licitação para trabalhar com lixo orgânico. Se ganharem, o salário aumenta e o orgulho de ser catador, também. Aos jornalistas que visitam a Associação, ele garante: “aqui o lixo é cheiroso”.

Hoje a Acaresti é referência e tem sido convidada para falar sobre sua experiência em diversos organismos internacionais.

Mundo Guarani

Três aldeias dos índios Avá Guarani estão estabelecidas na mata ciliar de Itaipu, desde os reassentamentos feitos na década de 80. Pelo Programa de Sustentabilidade das Comunidades Indígenas, a Binacional atende a cerca de 290 famílias (quase 1.500 pessoas) nas aldeias Ocoy, em São Miguel do Iguaçu; e Añetete e Itamarã, em Diamante do Oeste.

Foto de Rubens Fraulini/ Comunicação - Itaipu Binacional

Através de convênios com os municípios e outras instituições, como Funai, Funasa, Sesai e Instituto Ambiental do Paraná, muita coisa boa já foi feita. Para o Cacique Cipriano Alves, o mais importante é o respeito que os brancos têm pela cultura Guarani: “Valorizam nossa língua e vida espiritual”. Da parte de Itaipu, quem atende a população indígena e trabalha pela melhoria da qualidade de vida nas aldeias é uma dupla que mergulhou fundo no mundo guarani e já conquistou dos mais velhos às crianças: João Bernardes e Marlene Curtis.

Com a presença do Sesai e o apoio de Itaipu, está garantida a nutrição de crianças e gestantes. O estímulo à agricultura familiar, agropecuária e apicultura é realizado através de visitas periódicas de técnicos, que dão orientação para o plantio de milho, mandioca, abóbora, melancia, batata doce, sem agrotóxicos.

O fortalecimento cultural chega com apoio financeiro à educação. “Apenas oferecemos infraestrutura para escolas e casas, pois cada aldeia se desenvolve por si mesma”, explicou Marlene Curtis (Foto acima /De Rubens Fraulini/ Comunicação - Itaipu Binacional) . Eles criaram uma forma de organização que funciona bem: “Nossa associação planeja tudo, o individual e o coletivo, sempre ouvindo a comunidade em assembleia. Pensamos juntos para garantir a preservação do nosso povo que está aqui há mais de 500 anos,” disse o líder Teodoro, que já foi cacique e hoje é professor na escola de ensino fundamental da aldeia.

Foto de Rubens Fraulini/ Comunicação - Itaipu Binacional

No Ocoy, o artesanato reúne mulheres, homens e crianças, todos empenhados em produzir filtros de sonhos, bijuterias, chocalhos e zarabatanas, que são comercializados no local e na loja do Centro de Recepção de Visitantes da Itaipu, gerando renda importante para a aldeia.

Foto/ Nícia Ribas - Plurale

Um coral de crianças encantou o grupo de jornalistas, recebendo aplausos e pedidos para selfies. Através de diálogo, respeito e colaboração, o que está ocorrendo no entorno da Usina em relação aos indígenas é a união de dois mundos, cada um tentando fazer valer a pena sua passagem pelo Planeta.

Reenergizados pela pujança da região e pelo trabalho comprometido e dedicado dos funcionários da Itaipu, os jornalistas voltaram para suas bases levando, além da terra vermelha na sola do sapato, a esperança de um Brasil mais forte e justo, com menos desigualdade social.

(*) Plurale viajou em grupo de jornalistas a convite de Itaipu.







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