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Educação

Um País de várias línguas

Por Maurette Brandt, Especial para Plurale

Do Rio

Um animado debate na programação do Encontro do Educador, que agita a Biblioteca-Parque Estadual até 29/11 – o evento começou na terça, 26/11 -, reuniu os jornalistas Sérgio Rodrigues e Nani Rubin. As várias línguas dentro da língua portuguesa, o uso corrente desses idiomas e o valor da leitura na construção da identidade e da habilidade da escrita deram o tom da pauta.

Sérgio Rodrigues, autor do livro “Viva a língua brasileira” – segundo ele, o seu best-seller -, começou a pesquisar a fundo o idioma quando foi convidado por Ricardo Boechat a assinar uma coluna que tirava dúvidas sobre o português. – Foi por acaso, mas à medida que o tema ia crescendo, mas eu me interessava em pesquisar. E fui me entusiasmando – conta.

Diante de uma plateia de professores de distintas cadeiras, Sérgio questionou o modelo da redação do ENEM, que vem apavorando os candidatos. – A proposta é boa, mas creio que ainda está muito amarrada na dita “forma culta” da língua – ressalta. – O idioma evolui vertiginosamente. Acredito que não devemos nos ater a termos em desuso e sim prestar atenção ao que acontece na prática: o português de hoje é outro. O “certo” não é um só; há muita riqueza nas transformações que forçosamente ocorrem, à medida que o mundo muda e o uso da língua também – explica. – É possível, e benéfico, haver mais liberdade – pontua.

A forma de iniciar os alunos na Literatura é, na visão do jornalista, a grande chave para despertar o interesse dos futuros leitores. – Não existe um jeito certo de começar – diz. – Mas, a meu ver, o “errado” é justamente começar pelos clássicos. No mundo digital e imediatista de hoje, acho que seria melhor iniciar pelos contemporâneos, que falam a língua de hoje e discutem os temas de hoje. As obras clássicas da literatura brasileira falam de temas da época em que foram escritas, com a linguagem típica do período. Ora, as pessoas não têm paciência para isso – e se começarem aí, as chances de não se tornarem leitoras serão enormes – afirma.

- Agora, se o jovem lê um livro que trata do seu tempo, das angústias de hoje, com um texto moderno e ágil, vai se envolver! E aí poderá entrar nos clássicos com tranqüilidade, de acordo com seu interesse, no seu próprio ritmo. Acho que, assim, seria muito mais produtivo.

- Eu, por exemplo, comecei a ler com o Tio Patinhas, que eu adorava – conta. – A forma de despertar tem que ser agradável e livre, para que o milagre aconteça. Aquilo que é “obrigatório” se torna um fardo – e com isso o aluno perde o principal ingrediente para se tornar um leitor, que é o prazer – destaca.

Nani Rubin trouxe um exemplo de casa: a escola da filha deu aos alunos uma lista de dez livros, pediu para que pesquisassem na internet e escolhessem aquele que mais lhes interessasse. – Minha filha escolheu um, mas me disse que, na verdade, gostou de dois da lista – conta. – Isso é estimulante, porque o fato de pesquisarem as obras fez com que encontrassem coisas interessantes para si mesmos – avalia.

Sérgio Rodrigues buscou inspiração numa pequena história oral para avaliar a relação de muitas pessoas com o idioma. – Dois peixinhos pequenos resolveram sair sozinhos para passear. No caminho, encontraram um peixe mais velho, que os cumprimentou: - Olá, como está a água hoje? Os dois, encabulados, nada responderam. Após nadarem um pouco mais, um deles chegou-se ao ouvido do outro e perguntou, bem baixinho: - Aqui, o que é “água”?

- Acho que é meio assim que acontece com a língua – diz. – As pessoas estão imersas nela o tempo inteiro e sabem muito pouco sobre ela. Acredito que, com determinação e entusiasmo, a gente consegue mudar isso – sorri.







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