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Plurale Edição 68 - De tensões, frustrações e otimismo, 10 anos depois

Por Sonia Consiglio Favaretto, Colunista de Plurale (*)

Há dez anos escrevi um artigo aqui na Plurale denominado “De Tensões, Frustrações e Borboletas”. Arrisquei-me naquele momento a falar sobre as competências necessárias para ser um bom profissional de sustentabilidade. Passados todos esses anos, arrisco-me de novo. Após uma década, avançamos a ponto de mudar esse perfil? Sim e não.

O artigo era focado em duas qualidades que eu julgava fundamentais para se atuar com sustentabilidade: ser um “gerador de tensão” e ter “resistência a frustração”. Elas seguem mais vivas do que nunca. Vejamos, voltando à redação original: “(...) A construção da cultura e prática de sustentabilidade nas empresas, seja qual for seu histórico com o tema, se dá por movimentos de tensão. Estamos sempre lidando com o que falta, com o que “deveria ser”, com “um pouco mais”. Afinal, a agenda da sustentabilidade é a agenda de uma nova gestão necessária a um novo mundo que se tornou, mais do que urgente, a única possibilidade de sobrevivência no longo prazo. É a agenda do futuro. E não se constrói o futuro sem conflitos, sem tensão. É o movimento. A cada tensão superada, evoluímos um pouco. É o executivo que, antes tão cético, começa a abrir espaço na sua estratégia – e consequentemente na sua mente – para o tema. É aquela área que conseguiu achar seu caminho para inserir aspectos socioambientais no produto ou serviço. Neste momento, tudo o que foi vivido durante o processo, vale a pena. É disso que vivemos. É isso o que nos alimenta e nos dá força na caminhada. Por isso, ser um “gerador de tensão” me parece uma boa definição para o profissional de sustentabilidade.” Li e reli esse parágrafo com minha cabeça e vivência atuais. Não subtrairia nem acrescentaria nada. Seguimos tendo que tensionar para evoluir na agenda ESG.

E quanto à “resistência à frustração”? Era assim que eu pensava em 2009: “(...) gerar tensão, lidar com um assunto ainda não de domínio de todos, um assunto ainda em cheque e carecendo de entendimento e provas, não é algo simples. Quantitativamente, ainda perdemos mais do que ganhamos (...). Arrisco-me a dizer que a frustração a um projeto ou ideia no campo da sustentabilidade tem um peso maior do que uma proposta do “business as usual”. Aqui, há o peso da causa (....). Trabalhamos por um mundo melhor. No fim do dia, é isso. Por isso, o “não” nos pesa como a negação, não só a uma proposta, mas a um mundo que inequivocadamente precisamos construir.”

Sim, ainda perdemos mais do que ganhamos em sustentabilidade. Como num jogo, muitas vezes temos que retroceder várias casas no tabuleiro para depois avançar de novo. Mas o mundo de 2019, pós Rio+20, lançamento dos ODS, COP de Paris, lastimáveis desastres ambientais e éticos, traz mais ganhos, e inquestionáveis avanços. Hoje, o investidor virou voz a favor da sustentabilidade. E isso tem a ver com retorno. Ponto. Hoje, o presidente mundial do maior Fundo de Investimento do mundo, a BlackRock, diz às suas empresas investidas em sua carta anual que quer alocar capital em organizações com propósito. Hoje, os negócios de impacto avançam a passos largos, mostrando que é possível ter lucro impactando positivamente o ambiente e as pessoas. Hoje, todos os países, e não apenas os emergentes, têm 17 Objetivos comuns e 169 Metas para atingir até 2030. Hoje, tentamos mais do que nunca falar uma única língua. Porque o desafio é global. E é de todos e de cada um de nós.

E o perfil do profissional de sustentabilidade nisso tudo? Sim, continuamos sendo por essência geradores de tensão e tendo que resistir aos “nãos” do caminho. Mas hoje somos muito mais universais e pessoas de negócio. Os CFOs e DRIs de nossas empresas sabem que precisamos caminhar de mãos dadas. E nós entendemos isso também. Os mundos se entrelaçaram, necessariamente.

No início de meu artigo de 2009, elenquei ainda uma série de competências para nós, profissionais de sustentabilidade: “visão estratégica e integrada, flexibilidade, empatia, conhecimento do negócio, capacidade de influência e negociação, dinamismo, bom relacionamento, humildade, versatilidade, empreendedorismo, paixão pela causa, liderança, criatividade, obstinação... ufa! Quase um super-homem ou uma super-mulher”. Sim, dez anos depois, esse set de qualidades digno de um herói/heroína continua válido. Mas acrescento uma que mostra bem as premências do mundo atual: “ter pressa”. Como SDG Pioneer e Presidente do Board da Rede Brasil do Pacto Global, tenho o privilégio e a agonia de estar em contato com os desafios da Agenda 2030 da ONU muito de perto. Deste ponto de observação, é que digo: Precisamos avançar, e rápido. Falta pouco mais de 10 anos para alcançarmos os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. É possível? Ainda acho que sim, acrescentando, portanto, “otimismo” à lista de nossas competências. Mas não temos tempo a perder. Cada segundo conta neste relógio. Mais do que em outros relógios. Porque, aqui, estamos falando do relógio do mundo que queremos, e precisamos. Do mundo da Agenda 2030. E neste mundo nos comprometemos a não deixar ninguém para trás, lembram? A tarefa é hercúlea, sabemos. Mas temos todas as competências para alcançá-la. Nos vemos daqui a 10 anos para comemorar?

(*) Sonia Consiglio Favaretto é jornalista, radialista e pós-graduada em comunicação empresarial. Atua há 20 anos com comunicação, responsabilidade social, Terceiro Setor e Sustentabilidade. Presidente do Board da Rede Brasil do Pacto Global e SDG Pioneer -- reconhecida pelo Pacto Global da ONU em 2016 como uma das dez pessoas do mundo que estão trabalhando pelo avanço dos ODS.








1 comentário | Comente

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Nelson Tucci |
Muito apropriado este seu artigo, Sonia. Os desafios e as competências estão aí colocados. Acredito que na velocidade das mudanças pelas quais passamos, todos, não vai dar tempo para esperar mais 10 anos. Proponho uma redução para três, ou dois até seja mais conveniente; do contrário vai ficar alguém para trás. A minha mão está aqui: vamos juntos construir o que é necessário. Parabéns !