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Plurale Edição 68 - China, trinta anos revisitados e renovados

Como a China deixou a crise do socialismo em 1989 para se tornar exemplo de crescimento econômico, conservação da cultura, distribuição de riqueza e avanços na cidadania

Praça da Paz Celestial – Pequim – Foto de Hélio Rocha

Por Hélio Rocha, Correspondente de Plurale na China

De Pequim

Fotos de Hélio Rocha e Lizeth Gómez

Há 30 anos os países do bloco socialista enfrentavam sua pior crise e, daquele movimento político internacional, pressionado por grandes empresas sedentas de novos mercados e por interesses ideológicos de Governos ocidentais, quase todos os então países do chamado “bloco socialista” viram seus regimes ruírem para uma entrada atabalhoada no neoliberalismo. Em muitos casos, esta entrada não resultou em mais liberdades civis e possibilidade de crescimento econômico, conforme o prometido.

Dentre os países que enfrentavam a ebulição da crise do socialismo nos anos 1980 está a que é, hoje, a segunda maior potência econômica mundial, com um Produto Interno Bruto (PIB) de mais de US$ 12 trilhões, apenas abaixo dos gigantescos US$ 19 trilhões da economia dos Estados Unidos. Hoje cortejada por todos os países do mundo, à época a China sofreu seu pior ataque internacional desde a invasão japonesa nos anos 1930. Isto porque, sob o marketing informacional que vinha de documentários ilegais sobre uma suposta corrupção no país, grande parte dos estudantes chineses se puseram contra o Governo de Deng Xiaoping, líder do Partido Comunista Chinês e responsável por avanços econômicos após reforma por ele promovida em 1978, que mesclou o sistema político socialista às doutrinas econômicas do capitalismo ocidental. Tal modelo chegara a ser reproduzido tardiamente na União Soviética por Mikhail Gorbachev, com as Glásnost e Perestroika, sem sucesso porque muito tardia a empreitada.

Milhares ganharam as ruas em manifestações que tomaram o coração político da China: a Praça Tiananmen, aqui chamada Praça da Paz Celestial. Os fatos são incertos, restando que, da imensa massa que tomou a Praça da Paz Celestial e produziu cenas icônicas no imaginário ocidental, sendo a mais conhecida a do cidadão solitário que desafia o carro de combate do Exército Popular de Liberação, surgiu um país que amplia até hoje os seus direitos civis e individuais. Setores da análise política internacional são imprecisos ao afirmar se o uso da Lei Marcial para dispersão dos protestos, adotados pela China em 6 de junho de 1989, teria resultado em um massacre de cidadãos civis ou numa transição pacífica para discussão dos problemas do pais.

Apesar de todo o mistério em torno daquele junho de 1989, Plurale em Revista prefere, ao invés de ater-se à efeméride dos 30 anos dos grandes protestos da Praça da Paz Celestial, traçar o panorama dos 30 anos depois, isto é, de como a China teve um destino diferente de União Soviética, Alemanha Oriental, Polônia, Romênia e Iugoslávia.

Um modelo próprio de organização

“Todo o poder aos soviétes”, disse Vladimir Lenin em 1917 em São Petersburgo, onde eclodiu a Revolução Russa. “O povo, e só o povo, constitui a força motriz na criação da história universal”, disse Mão Tsé Tung no discurso da vitória, quando se instaurou a República Popular da China. Possivelmente as ideias iniciais, que lançaram como palavra de ordem as bases para os dois gigantes, teriam influência nos desdobramentos que se seguiriam nos anos seguintes.

A União Soviética acabou resultando numa ditadura da burocracia do Partido Comunista. Por sua vez, o chamado ao povo de Mao rendeu oscilações entre o sucesso e o fracasso na condução da política e da economia chinesas, como o malogrado plano econômico Grande Salto Adiante, que trouxe a fome em 1959, e a Revolução Cultural dos anos 1960, que num projeto de aprofundamento da ideologia proletária produziu perseguições à intelectualidade e à própria cultura tradicional do país. Porém, restaram dos dois momentos um senso de coletividade que inexistiu nos outros países do socialismo real.

“A relação do Governo da China com o povo foi única. Muito além dos movimentos cívicos como a Revolução Cultural. Criou-se um sistema democrático e sete partidos políticos que, além do Partido Comunista Chinês, constroem maioria quanto às conduções das políticas de Governo na Assembleia Nacional do Povo. Como o PC é, de longe, o mais numeroso, é ele quem governa, o que não impede os outros partidos de opinarem, discordarem, e serem bem aceitos pela gestão central”, explica o professor Shi Zehua, adjunto da Faculdade de Relações Internacionais da Beijing Foreign Studies University (BFSU).

No escopo desta relação lançada pela República Popular, centenas de medidas foram tomadas, desde 1989, para tornar o país mais adequado aos novos tempos. O chamado ao esforço coletivo pela nação, de Mao Tsé Tung e Deng Xiaoping, não deveria desaparecer, mas caminhar lado a lado com o desejo de as pessoas serem felizes individualmente, consumindo, empreendendo, exercendo suas profissões, criando suas próprias identidades.

O chinês vota, ao contrário do que imaginam muitos dos críticos ou alheios à realidade chinesa. Os cidadãos defendem viver em uma democracia, quando questionados. O voto inicial é dado na assembleia regional, na comuna da qual fazem parte os cidadãos rurais ou no distrito urbano, o que desencadeia votos indiretos provinciais e nacionais, constituindo assim a Assembleia Nacional do Povo, que elege a cúpula do PC e, esta, o Presidente da República e seu vice.

Este sistema produz um Estado com uma rede de proteção social que cresce para se tornar uma das mais avançadas do mundo, com universidades 100% gratuitas, incluindo aí o ensino da cultura tradicional chinesa e de mais de 30 idiomas, especializando os chineses não somente no inglês, o que eles consideram imperialismo, mas nas línguas dos países estratégicos com os quais a China quer se relacionar.

Quanto à redução da miséria, a potência oriental caminha a passos largos. O país que iniciou sua trajetória como República Popular da China tinha saído de duas guerras e tinha quase a totalidade de sua população na miséria. Depois de passar pela fome e pelas crises políticas dos anos 1960, desde os planos econômicos de Deng a China vem reduzindo progressivamente a pobreza, tirando 13 milhões de pessoas, em média, da pobreza desde 2012, o que totaliza 98 milhões e 990 mil emergentes em 2019. Isso significa meio Brasil, embora para padrões chineses represente 8,5% da populçao, muito aquém dos 20% conquistados pelo Brasil nos anos 2000, que em números absolutos eram 36 milhões.

Comuna rural da Província de Hubei, no Centro da China. No muro está escrito em chinês: “Corredor da construção cultural do Partido.”- – Foto de Hélio Rocha

Avança também a tecnologia

A China hoje é a recordista número um em usuários da internet: são 800 milhões, o dobro do Brasil e dos Estados Unidos somados. Nas telinhas dos celulares os aplicativos são outros, porém avançados e multifuncionais. O principal deles, o WeChat, é equivalente ao nosso WhatsApp, mas possui o "feed de notícias” para os amigos curtirem, igual ao do Facebook, e uma função especial, o WePay, que funciona como cartão de débito e crédito.

Hoje, mais da metade dos chineses utiliza a internet e as facilidades do WeChat, o que é só um indicativo do quão integrado é o país: pelas ruas, grandes marcas exibem lojas suntuosas, como KFC e McDonald´s, que dividem mercado com alimentos tradicionais da culinária de rua chinesa. A toda poderosa Apple está lá, mas em toda a China divide os espaços com lojas das neófitas da informática chinesas Huawei e Xiaomi, que no Oriente já encaram de igual pra igual as gigantes norte-americanas, japonesas e coreanas.

A Huawei, inclusive, incomoda tanto os grandes oligopólios que foi vítima de uma ameaça de bloqueio pelos Estados Unidos, quando Donald Trump sinalizou com incentivos às empresas do Vale do Silício para que os sistemas Apple e Android, os mais populares para smartphones e tablets, fossem proibidos de operar em aparelhos chineses. Isso, na prática, inviabilizaria Huawei e Xiaomi no mercado ocidental.

Plurale visitou a sede da Huawei e conheceu a tecnologia 5G, que promete revolucionar a velocidade e possibilidade de acesso à internet. Ela, ao invés de operar com caríssima rede de antenas, parte do desenvolvimento de minimodens do tamanho e peso de uma bateria portátil, que podem ser carregados numa mochila, dentro de um carro, ou transportados dentro de casa. Sem a obrigatoriedade de instalação de antenas, o preço do uso é muito menor e a velocidade, maior.

E, mais, cada modem serve de roteador para todos os demais, de modo que a interconexão em sua potencialidade máxima poderá tornar a sociedade, definitivamente, aquela retratada no desenho “os Jetsons". O indivíduo poderá sair de casa e passear na rua, o tempo todo monitorando no celular o que ocorre na casa, por meio de sensores e câmeras. Carros poderão se movimentar sozinhos via GPS e leitura inteligente da dinâmica ao redor, pois já poderão ter o modem como ítem de fábrica, de modo que todos os veículos orientem-se pelos aparelhos vizinhos, semelhante ao que acontece hoje com o TCAS, sistema anti-colisão dos aviões. Tudo pode tornar nosso dia a dia incomparável com o que temos hoje. Talvez lembremos da atual internet como pensamos, hoje, no aparelho de som “3 em 1 da National”.

E aí reside o problema: se isso tudo pode ser feito pela vida do cidadão, o que não pode ser mudado nos meios militares?

Em entrevista à Plurale, o diretor de Comunicação da empresa, Glenn Schloss, defendeu a 5G como primazia da sociedade civil, e também saiu em defesa da China. “O 5G é o desdobramento da criação da internet como a conhecemos hoje, de Tim Berners Lee, um pesquisador britânico. Se nós fomos capazes de aproveitar a pesquisa de outros países e desenvolver a nossa, por que o Ocidente agora nos toma por ameaça? Que façam suas pesquisas para avançar as nossas.”, questiona e sugere o profissional, que é australiano.

Atendimento médico em Shaanxi – Foto de Hélio Rocha

China monta sua nova rede de aliados

Tendo em vista o cenário pouco otimista das relações entre a China e as potências ocidentais, o presidente Xi Jinping vem lançando uma série de iniciativas para integrar o país aos mais diversos aliados. A mais importante é a Iniciativa Cinturão e Rota, que, inspirada na antiga Rota da Seda, pretende estabelecer caminhos de desenvolvimento por todo o mundo, coordenando necessidades e ofertas de todos os países na América Latina, África e Ásia.

Plurale esteve na cobertura do II Fórum Cinturão e Rota, com as presenças do presidente da Rússia, Vladimir Putin, do Chile, Sebastián Piñera, além de Xi Jinping e outros 37 chefes de Estado. “A infraestrutura é o alicerce da conectividade e um obstáculo de desenvolvimento enfrentado por muitos países. A construção de infraestruturas de alto padrão pode ajudar as nações a aproveitar ao máximo suas vantagens em recursos e se integrar melhor à oferta, indústrias e cadeias de valor globais em prol do desenvolvimento interconectado", discursou Xi.

O poder da China em infraestrutura e compra de commodities para a construção civil não foi negligenciado pelo Brasil. Diante da falta de prumo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) na condução das relações internacionais, o vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) fez visita de Estado à potência ocidental - em 2019 - para apaziguar os ânimos dos chineses mais preocupados com os rumos do Brasil, país estratégico dos BRICS e que ainda não integra a Cinturão e Rota. Plurale também acompanhou a visita.

“Temos procurado construir relações de confiança e criar o ambiente propício para a ampliação e a diversificação das relações econômicas com a China”, afirmou Mourão, que participou de encontro no Grande Salão do Povo, sede da Assembleia Nacional e palácio diplomático da República Popular, com o vice-presidente chinês Wang Qishan.

Ator faz a maquiagem para exibição na Ópera de Pequim - Foto de Lizeth Gomes, Pequim

Mas não é só economia

A China também busca globalizar a sua cultura, ciente de que o país que não é visto na grande mídia ocidental não é lembrado no consumo de bens materiais e culturais. Investe milhões na divulgação de suas joias artísticas, que incluem pintura, ópera e sua literatura, sendo os épicos “O Romance dos Três Reinos” e “A Jornada ao Oeste” tão basilares ao Oriente quanto Ilíada e Odisseia são ao Ocidente.

Dessas maravilhas da cultura chinesa, Plurale foi convidada a acompanhar uma apresentação da Ópera chinesa no teatro Liyuan, onde se apresentavam as peças para os aristocratas ingleses no século XIX. O tema apresentado foi, justamente, a Batalha dos Três Reinos, que resultou da luta de três antigas dinastias pelo poder imperial. O resultado foi a fragmentação da antiga dinastia Han, da qual descende todo o povo chinês.

A principal citação da história, advinda de sua conclusão, dá o tom da moral chinesa, a qual a China quer apresentar ao mundo: “O Império, unido, sempre deve se dividir. O Império, dividido, sempre deve se unir”. Trocando em miúdos: aquele que está unido é próspero, por isso deve partilhar. Ou, cedo ou tarde, sucumbirá. Aquele que não está, deve buscar a união e o equilíbrio em busca da prosperidade.

Trinta anos depois das intempéries de 1989, a China é unida e próspera. E tem muito a partilhar com todos os países do mundo.







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Luiz Gaulia |
Neste país asiático, a imprensa é estritamente censurada, não há espaço para opiniões contrárias ao regime, o Estado controla a Internet e escritores e jornalistas são perseguidos, presos ou "desaparecem". Além disso, há constantes violações dos direitos humanos, perseguição de muçulmanos, de homossexuais, poetas e artistas. A saúde? Depois da crise da SARS ressurge a "Chernobyl chinesa" em Wuhan com a crise de coronavírus em Wuhan, onde os médicos do hospital trabalham incansavelmente, pois são ameaçados de serem tratados como traidores se não trabalharem. Além disso, nesse "paraíso coletivista" nova epidemia de gripe aviária está acontecendo. O país pouco obedece normas de patentes internacionais e a pirataria de marcas ocidentais é prática comum. O atual partido no poder foi o causador de genocídios no qual milhões de chineses foram assassinados por não concordarem com o regime político. A China apóia inclusive o regime do ditador Maduro na Venezuela, responsável pela migração de 5 milhões de venezuelanos na maior diáspora que a América Latina já presenciou.