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Davos 2020 - A ficha que caía morosamente virou jaca e parece cair mais rápido

Por Nádia Rebouças, Colunista de Plurale

Costumo, nas minhas palestras, falar que o mundo não tem mais tempo para cair “fichas” nas consciências, precisamos de “jacas”.

Davos esse ano foi diferente. A sustentabilidade ganhou foco. A economia mundial não pode mais deixar de falar de clima e exclusão. Ver o relatório Oxfam. O Brasil, que já havia conquistado um grande protagonismo no tema, há um ano perdeu-se num discurso conservador, desumano e longe da ciência. Não estávamos nas mesas dos debates. O Ministro do Meio Ambiente, como representante do Brasil, espantou a todos, brasileiros e povo do mundo. Fugiu de Davos. Lá estávamos representados pelo Ministro da Economia, Paulo Guedes. Suas declarações só pioraram nossa reputação, quando colocou a culpa nos pobres pelo baixo avanço da sustentabilidade no Brasil. Perdemos o Fundo da Amazônia, portanto perdemos recursos e aumentamos nossos riscos de reputação, que poderão influenciar na nossa economia. Cada vez mais investidores estão monitorando o risco ambiental, que é real, aliás como a terra é redonda! Colômbia soube se aproveitar dos nossos retrocessos. Talvez seja a primeira vez que o presidente do “império da vez” entra em debate com uma menina de 16 anos, que por sinal não se intimida. Ele reage: vamos plantar árvores. Que venham as árvores, mas na linguagem popular o “buraco é bem mais embaixo”. Aliás Trump e Bolsonaro, nas suas arrogâncias, que lhes rouba os ouvidos, reagiram com alguma notícia positiva frente ao que Davos produziu em 2020. O tema do meio ambiente com todas as terríveis notícias do Brasil, da Austrália, entre outros, até o novo vírus, são decisivos para o mercado.

Não temos tido trégua. O meio ambiente pode até começar a influenciar mais os votos. No fundo, no Brasil a questão ambiental ganhou outras dimensões, desde Brumadinho, que completou um ano dia 25 de janeiro. Cresce uma forte associação da problemática ambiental com o descrédito na ciência pelo governo atual. Como Eliane Brum apontou no deus diário da Antártica, que está sendo publicado no El país: “Trump e Bolsonaro, assim como outros coleguinhas, são vendedores de passados. Passados falsos”.

No Brasil o meio ambiente e a ciência são questionados por serem de esquerda. Velho conceito do passado. E Eliane também fala que os cientistas se tornaram no nosso país uma “verdade inconveniente”. Enquanto milhões de informações são geradas pelas mais variadas formas de comunicação, a maioria da população é bombardeada por inverdades planejadas pelos robôs. Assim, eu não vou vacinar meus filhos, a terra é plana! A pergunta é para onde vai o capital do investidor? Como vamos manter nosso comércio internacional, o agronegócio? O quanto tudo isso vai atrapalhar os acordos internacionais – Mercosul e União Europeia, ou o desejo de entrar na OCDE? Está quase não dando mais para o Brasil manter suas posições. Até o veganismo não para de crescer e a tecnologia corre atrás de inventar novos produtos que atendam a essas novas demandas.

Nem Bolsonaro, nem Ricardo Sales foram a Davos. Os temas climáticos não são de direita/esquerda. São temas do futuro, tanto quanto tecnologia e educação. Esse nosso mundo VUCA – volátil, incerto, complexo e ambíguo – deu fortes recados nesse primeiro mês de janeiro de 2020, depois de 2019 já ter nos oferecido tristes surpresas como Brumadinho e a Amazônia. Cada vez mais ouvimos desesperadas mensagens que indicam que precisamos mudar consciência, os modelos mentais. Para isso precisamos criar narrativas, novas formas de falar, emocionar, impactar cada pedaço da nossa sociedade. Nossos espaços para atuar são poucos, com as estranhas autoridades que ocupam o Ministério da Educação e da Cultura. Com Ricardo Sales fazendo reuniões com garimpeiros e Damaris, preocupada em pedir a nossos adolescentes para não fazer amor, na idade da descoberta do amor!

Temos que refletir coletivamente, criar espaços para isso: deixar que se revelem novos caminhos. Nossa reputação só piorou em Davos. Só piora no mundo todo e os investidores fazem parte do mundo todo. Os dados sobre a Amazônia têm que melhorar. O desmonte do IBAMA, ICMBIO, Funai deixou fortes consequências. Mas muitos consumidores vêm realizando uma jornada de transformação e as empresas não podem parar de vender. É preciso acreditar na capacidade de transformação das pessoas, onde quer que estejam, elas precisam acreditar nelas e na capacidade de influenciar mentes. Líderes, mais conscientes, serão muito benvindos nas empresas. Também na comunicação precisamos de gente criativa que consiga construir uma nova conversa, fugindo da atual polarização. O ano passado e nesse triste mês de janeiro, com a queima descontrolada da Amazônia, o fogo na Austrália, a tragédia de Brumadinho e as recentes inundações em Minas e no Espírito Santo, nossas possibilidades de viver desastres ficou evidente. Podemos pagar um preço ainda mais alto. Acredito que estamos frente a um enorme desafio para os comunicadores. E 2020 só começou...

(Foto de Divulgação do Fórum Mundial de Davos 2020)







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