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Workshop de Gerentes Bradesco - evento organizado para ser sustentável do começo ao fim

#WG2020 reuniu cerca de 14 mil gerentes de todo o Brasil e teve alinhamento estratégico para evitar desperdícios de comida, reaproveitar material, usar energia renovável e gerar o mínimo de lixo

Por Sônia Araripe, de Plurale

De São Paulo (*)

Fotos de Maurino Borges e Claudemir de Santi / Departamento de Marketing do Bradesco - Divulgação

Se tem um segmento que gera muito lixo e desperdício - mas muito mesmo - é o de eventos. Acostumado a realizar ações temporárias, de apenas um dia ou alguns dias, o mais prático e barato é preparar estruturas e trabalhar com materiais descartáveis, que possam ser facilmente montados e depois, literalmente, jogados no lixo. Esta realidade tem começado a mudar. Para tentar quebrar este paradigma, e acelerar o processo em curso, o Bradesco começou há cerca de um ano a pensar um evento interno realizado ao longo de um mês - voltado para 14 mil gerentes de agências de todo o Brasil - para que fosse o mais sustentável possível.

Glaucimar Peticov, Diretora-Executiva do Bradesco - "Queremos mostrar ser possível mudar uma prática de anos no setor de eventos, tentar conscientizar e inspirar. Dá trabalho, infelizmente, ainda é mais caro, mas compensa demais não só para a corporação, mas pelo planeta." (Foto de Claudemir de Santi/ Divulgação)

"Queremos mostrar ser possível mudar uma prática de anos no setor de eventos, tentar conscientizar e inspirar. Dá trabalho, infelizmente, ainda é mais caro, mas compensa demais não só para a corporação, mas pelo planeta", resume Glaucimar Peticov, Diretora-Executiva do Bradesco, responsável pelo Marketing, Comunicação e RH, esperando que, com mais e mais eventos sustentáveis, ganhando escala, os custos vão cair e ganhar escala. Segundo a executiva, não é de hoje que a sustentabilidade faz parte de manuais e de processos licitatórios do banco, incluindo, é claro, eventos. Lembra que duas ações externas - com foco em mulheres - o #mulheresprafrente -, realizadas ao longo de 2019, foram pilotos para testar a viabilidade da busca por um novo modelo para executar seminários, encontros e workshops. E além da forma, a ideia é tentar mudar a forma de pensar. "Ninguém muda a partir de uma palestra ou de um evento. Mas estamos oferecendo experiências colaborativas com o objetivo que cada gerente possa sair daqui e repensar o seu dia-a-dia em casa e a rotina de trabalho. Cada um de nós sabe o que pode mudar para contribuir com uma sociedade mais sustentável", reforça Glaucimar.

Carbono neutro - Não por acaso, exatamente nesta semana do evento foi anunciado que o Bradesco é carbono neutro. Até o final de 2020, as operações do Bradesco serão abastecidas por energia de fontes renováveis e terão 100% de suas emissões de carbono neutralizadas.

O Workshop de Gerentes Bradesco - #wg2020 - transformou um dos principais hubs de eventos da capital paulista - o Expo Transamérica - para tornar-se o mais próximo do sustentável. Cada detalhe foi pensado na direção do ser menos agressivo ao meio ambiente, mais inclusivo e com a menor geração de resíduos. O evento é carbono neutro e uma série de ações foi desenhada para que o impacto fosse reduzido, com destinação certa.

Márcio Parizotto, Diretor de Marketing do Bradesco - "Sustentabilidade é um atributo mais do que relevante." (Foto de Claudemir de Santi/ Divulgação)

"É uma mudança de mindset da sociedade. O propósito faz parte de nosso DNA, com a Fundação Bradesco, desde o início e depois com diversas outras ações sustentáveis. Mas sempre achamos que não se poderia falar antes de fazer e praticar. Agora, com várias ações consistentes a serem apresentadas, queremos escancaram o nosso propósito", destaca Márcio Parizotto, Diretor de Marketing do Bradesco, lembrando que todo este movimento se soma à marca. "Pesquisa recente indica que 69% dos consumidores brasileiros deixam de comprar uma marca se não for aderente aos seus propósitos. Sustentabilidade é um atributo mais do que relevante." O que já vinha em curso, ficou ainda mais claro com a ida dos principais dirigentes ao Fórum de Davos, na Suiça, onde se reúne a nata-da-nata dos pensadores globais - sejam governantes, empresários, executivos financeiros, filósofos, escritores, ativistas e até artistas. Ali, em coro, oradores - de diferentes países e matizes - reiteraram que a urgência da crise climática exige esforços ainda muito mais urgentes. "Temos que acelerar o processo na direção das ações sustentáveis", frisa Márcio.

Destino certo - No ano passado, os organizadores se depararam com várias camisetas (o ingresso do evento) no check-out dos convidados nos quartos dos hoteis. Neste ano, ao ganhar a camiseta, veio também uma etiqueta explicando que quem quiser poderá doá-la para ser transformada em cobertores para ONG de idosos. E assim, cada item terá um destino certo. O lixo orgânico está sendo transformado em adubo doado para comunidade. Bolinhas vão para creche e lonas serão transformadas em futuras ecobags por cooperativas de mulheres artesãs. Foram instalados pontos de energia solar para carregar celulares na área externa; descartáveis de plástico foram banidos e substituídos por talheres biodegradáveis, acompanhando potinhos de papel no lugar de pratos. Heras e samambaias (verdadeiras, claro) formavam "jardins" nos pavilhões e squeezes podiam ser reabastecidos em fontes de água pura. Os estandes foram montados com materiais sustentáveis e o mobiliário foi alugado para que possa ser reutilizado. O casting de recepcionistas foi bem diverso e inclusivo. O serviço de alimentação teve foco na culinária brasileira saudável e uma verdadeira operação de guerra foi montada para evitar desperdício de comida, aproveitando - sob a rigorosa supervisão de nutricionistas e com equipe separando e lacrando alimentos intactos - o que não foi consumido para ser degustado imediatamente pela equipe da segurança e limpeza. Até agora, quase meia tonelada - 430 quilos de alimentos do lanche servido nos intervalos deixaram de ir para o lixo. Além das refeições deles, os serventes e seguranças também podem experimentar o que os convidados - bem atendidos pela fartura de refeições - acabaram nem tocando.

Já na fase da concorrência do evento - o maior de endomarketing do Bradesco, com foco no público dos gerentes de agências bancárias de Norte a Sul, Leste a Oeste do Brasil - ficou estabelecido que quem ganhasse não levaria só pelo preço, mas também pela capacitação para seguir várias regras tornando a ação o mais sustentável possível. E assim foi. A TV1 - parceira de outros eventos do Bradesco (tendo realizado o evento piloto #mulheresprafrente) - venceu a concorrência e começou uma verdadeira "operação de guerra" para dar conta de seguir todo o detalhamento necessário. "Fomos nos detalhes mesmo. Cruzamos normas e manuais com as ISOs, buscamos soluções as mais sustentáveis e inclusivas possíveis para cada situação", conta a consultora Cláudia Lemme, Diretora de Marketing da Sustentech, que trabalhou com a produção da TV1 na concepção sustentável do evento.

Chef Morena Leite, do Capim Santo, ofereceu cardápio saudável bem brasileiro e combateu desperdício com a ajuda do Comida Invisível.(Foto de Maurílio Borges / Divulgação)

Menos é mais - A Chef Morena Leite , do Buffet Capim Santo, foi peça decisiva neste xadrez. Teve como desafio manter a sua linha de servir comida brasileira saudável mas com um pilar decisivo - evitar desperdício. "Não é fácil, mas é um desafio incrível. Servimos sete refeições por dia. Nunca sabemos se os convidados estão com fome, se tomaram café da manhã no hotel, por exemplo. Procuramos servir em menores quantidades e em menores espaços, podendo repor se faltar", explica Morena. A qualquer momento, para aquela fome fora de hora, geladeiras oferecem saladas, carrocinhas têm opções regionais de picolé e bancas coloridas, como a de feiras, convidam para saborear diferentes frutas. Se em anos anteriores havia sempre um prato regional, agora o "mimo" ficou por conta de um sorvete bem típico de opção de sobremesa. O que acontecia antes, lembra Morena, é que o grupo do Norte era recebido com comida regional, mas, na sequência poderia ser um grupo de gerentes do Sul , que poderia não receber bem o peixe amazônico filhote. O combate ao desperdício alterou o menu e a dinâmica. "O Brasil teve por muito tempo a cultura da fartura como referência. Isso não tem mais espaço. Menos é mais", afirma Morena Leite.

Camila Leite (do Comida Invisível) e Fábio Miranda (Instituto Favela da Paz) ajudaram a viabilizar a logística do combate ao desperdício de alimentos. (Foto de Maurílio Borges / Divulgação)

O negócio social Comida Invisível, liderado pela advogada especializada no combate ao desperdício de alimentos, Daniela Leite , cuida da logística com duas nutricionistas de plantão por turno e equipe de separadoras de alimentos da comunidade do Jardim Angela, qualificadas pelo Instituto Favela da Paz, liderado por Fábio Miranda. "Há muito mito sobre a questão do alimento a ser reaproveitado ou não descartado. Sou advogada, especialista no assunto, participo de vários fóruns. Temos que agir. Não podemos aceitar que o Brasil seja um dos recordistas mundiais em desperdício de alimentos com 263 milhões de toneladas/ano", alerta Daniela. Fábio complementa: "A alegria de poder combater o desperdício e fazer a inclusão contagia."

Juliana Pereira (E) e Maria Aparecida dos Santos (D) trabalham na limpeza do evento: pela primeira vez, puderem degustar o que não foi consumido no café. (Foto de Maurílio Borges / Divulgação)

A auxiliar de limpeza Juliana Pereira da Silva, 26 anos, e a sua supervisora, Maria Aparecida dos Santos, 43 anos, funcionárias da empresa de limpeza concessionária do Transamérica Expo nunca tinham passado pela experiência atual de poder aproveitar parte da comida - sem ter sido consumida e criteriosamente selecionada por nutricionistas e equipe - que iria simplesmente para o lixo. Os produtos são separados, etiquetados - indicando se é para geladeira ou não - pesados e imediatamente consumidos. "A gente nunca poderia provar o que os convidados estão comendo", acaba revelando a tímida Juliana. Mais desenvolta, Maria Aparecida, ou simplesmente Cida, diz que os quitutes dos cafés são muito bem apreciados pela equipe de serviço. "Todos têm suas refeições. Mas é uma experiência nova poder provar o que vem do salão. É comida boa que sobrou. Isso é um presente mesmo." No evento, o combate ao desperdício foi firme, mas nem toda a comida pode ser reaproveitada. Os organizadores explicam que a meta, para próximos eventos, é chegar o mais próximo do reaproveitamento máximo.

Os gerentes Thiago Pereira (E) e Vilmar Ferreira da Silva (D) vão procurar seguir dicas de sustentabilidade no dia-a-dia. (Foto de Maurílio Borges / Divulgação)

Reação dos convidados - Os números e ações do #wg2020 impressionam. Foram eliminados 95 mil copos e garrafas com o uso de squeezes e fontes de abastecimento. Ao todo serão servidas 150 mil refeições até o término do Workshop. Desde 31 de janeiro, ao longo de quatro semanas, são recebidas 14 mil pessoas, em grupos de 1,5 mil funcionários a cada três dias (que chamam de "ondas") por regiões: gerentes de varejo, atacado e área administrativa passam por uma "imersão" de palestras, experiências e shows. Todos participam de games com conteúdo - jogos com foco em diferentes temáticas, como sustentabilidade e negócios - e vão somando pontos acumulados em pulseira, que depois podem ser trocados por produtos (como canetas ou bolsas) ou por experiências. A mais disputada é a possibilidade da "premiação" para os primeiros coloados trocarem produtos por um encontro especial com o presidente e principais executivos do Bradesco. A cantora Ivete Sangalo é a "cereja do bolo" em três dias de atividades que tem agenda de trabalho intensa de 7h até 21h. O experiente Vilmar Ferreira da Silva, 53 anos, 34 dos quais como funcionário do Bradesco, gerente do Prime em Altamira (PA), estava encantado. "O conteúdo é sensacional. Mais ainda é a possibilidade de tentar replicar o que estou vendo aqui de sustentável na minha agência e na minha casa." Ao seu lado, o jovem gerente Thiago Pereira, 33 anos e 15 de banco, de São Luís (MA), também aponta a sustentabilidade como um dos pontos mais relevantes. "Cada detalhe pode ser pensado com este olhar sustentável. Vou doar minha camiseta para ser transformada em cobertor e se já tinha a sustentabilidade no radar, saio daqui ainda muito mais engajado."

Diversidade e inclusão na escolha de recepcionistas: plus size, trans, PCD e mais maduras. Ivy Granelli (sentada, à esq) e Eva Rocha (em pé, à dir) e outras recepcionistas trabalharam no workshop. (Foto de Maurílio Borges / Divulgação)

Diversidade e inclusão - Dois conceitos estiveram norteando o #wg2020: diversidade e inclusão. Tanto na temática, como na organização. No time de recepcionistas, por exemplo, tinham moças plus-size, mais maduras, PCDs e trans. Como Eva Rocha, 45 anos, feliz por representar "mulheres mais maduras", como ela mesma define, ou Ivy Granelli, 26 anos, realizada com o seu novo nome social e a oportunidade de trabalho. "Estamos aqui por nossa capacidade profissional", disse.

A bailarina Mel Reis foi um dos destaques do evento de encerramento. (Foto de Maurílio Borges / Divulgação)

A bailarina Mel Reis, 34 anos, que perdeu sofreu grave acidente de moto aos 17 anos, é outro destaque do evento. Depois de passar por 38 cirurgias e ter sofrido com doença, dor e limitações, ela tomou a decisão mais difícil de sua vida - amputar metade da perna em 2014. Não abandonou, porém, os sonhos. "Sempre dancei, mas a vida me levou para outros caminhos. Me reencontrei como bailarina e criei, com um especialista, uma prótese de sapatilha de ponta . Sou novamente feliz." Vê-la dançando no palco, em meio a outros bailarinos com alguns instrumentos feitos a partir de material reciclável marcou o encerramento. A plateia, em êxtase, aplaudiu entusiasmada. O futuro sustentável pode ser também o futuro possível.







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