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Que falta faz o Boechat!

Por Anna Ramalho


A saudade aperta o coração ainda, na entrada deste mês de fevereiro, que tão brutal e injustamente arrancou você de sua mulher, seus filhos, sua mãe, seus irmãos e seus muitos amigos – dentre os quais estou eu, desde aquele ano longínquo em que fomos incumbidos de colaborar com e vender o rico livro dos 30 anos de colunismo do Ibrahim Sued, então seu chefe naquele escritório no Centro Comercial de Copacabana. Nosso único fiasco – vender aquele livro foi uma epopeia.

Meu saudoso e querido amigo, irmão, editor, chefe, ídolo: Ricardo Eugênio Boechat

Algumas coisas mudaram comigo e por aqui, nessa nossa terra, nesse país que vive em crise desde 22 de abril de 1500, quando o portuga Cabral por aqui deu com os costados.

Quando você partiu, dia 11 de fevereiro, eu estava empregada e feliz na TV Escola, onde – e ao contrário do que muitos pensam – os funcionários trabalhavam pra valer e entregavam uma programação educativa de alta qualidade e, de quebra, numa parceria com o Instituto Nacional de Surdos, a única emissora de TV com linguagem de sinais e programação especial. Tive um enorme prazer e um grande orgulho de trabalhar ali. Fui demitida no início de março – eu e toda a diretoria. A gente até esperava que se mudasse o presidente, mas ninguém contava que se sucateasse a TV Escola do jeito que vem sendo neste último ano. Também pudera: temos um ministro da Educação que constrange e envergonha. E ainda afronta, debocha. Noves fora as trapalhadas que arruma em sucessão vertiginosa.

A coisa chegou a tal ponto que o Carlos Vereza – que é assim ó com o Jair – veio a público declarar que se o novo amigo acabasse com a TV Escola, trocava de mal com ele e ainda romperia relações pela imprensa. Não sei se o Vereza tem a força da Regina Duarte, nossa nova Secretária de Cultura, mas não tenho mais ouvido falar que vão acabar com a TV. Cuja, aliás, tornou-se a cara da nova ordem, com um jornalista jeca à sua frente. Vergonha para a nossa classe.

***

Ah, meu amigo, que falta me faz ouvir a sua voz diariamente na rádio esculhambando essa gente toda. Aqui no Rio, você ia se esbaldar no programa com as barbaridades que se sucedem em cadeia.

Além do Crivella – que só fez piorar desde que você se foi e está tentando se escorar no Jair pra tentar um novo mandato ( valha-nos Deus!!!!) – temos agora que comprar água mineral para não morrermos todos. Felizmente, sua família está dividida entre São Paulo e Niterói, mas os poucos que estão aqui no Rio, como eu, estão vivendo dias inimagináveis. A água da CEDAE tá mais podre do que aquela gente liderada pelo pastor Everaldo, o dono do cargo desde os tempos do Eduardo Cunha. A classe média e os ricos se viram com água mineral. E os pobres? Não bastassem as péssimas condições de saneamento e higiene no Rio, agora, se bebem água da bica, morrem.

Chego a ouvir você esbravejando no rádio contra esses canalhas.

O pessoal de São Conrado – que vai de Lu e Boni aos moradores da Rocinha – tem sido muito sacrificado. Com aquele IPTU escandalosamente caro, os moradores do bairro estão desde maio sem poderem usar a Avenida Niemeyer, gastando horas de seu tempo no Zuzu engarrafado e esbravejando contra o Crivella e sua inoperância. A Justiça fechou a Niemeyer por causa dos deslizamentos fatais do ano passado e não reabre porque nosso prefeito ainda não concluiu a contento as obras. Que tal? Desde que este desgraçado assumiu a prefeitura, o IPTU dos cidadãos quase dobrou, enquanto encostas deslizam, buracos imensos se espalham pela cidade, os sem teto proliferam por todos os cantos, nunca o Rio esteve tão desgraçadamente abandonado. A grande sacada para a incompetência do Crivella veio do Eduardo Paes em entrevista a Leda Nagle: nosso atual prefeito parece sofrer de pressão baixa, tal a sua inapetência para governar.

As chuvas continuam, a cidade está há dois dias em estado de alerta. Aquela mesma situação sobre a qual você reclamou tão veementemente em seu último programa na Band, horas antes do desastre de helicóptero: chuva, caos e Crivella. Tudo igual. Tudo muito triste e deprimente. E o pior: sem a sua voz potente para cobrar trabalho dessa cambada de ordinários.

***

Você faz muita falta, meu Boe. Estou sempre lembrando da sua coragem, do seu senso de justiça, do seu completo e absoluto destemor.

Nessa cidade desolada, que você tanto amou, o único consolo é ver meu filho – cuja vida na infância você acompanhou tão de perto – feliz à frente de seu novo bistrô, o maior sucesso, na Casa da Glória, ali ao lado do Outeiro, um palacete reformado do século 19 cheio de beleza e história. Christiano também sente muita saudade de você e continua ouvindo a BandNews FM.

Vou me despedir com um beijo soprado na direção do céu. Pega aí! Saudade pra sempre, meu amigo, meu irmão.







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