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Dia das Mulheres, 2020

Por Nádia Rebouças, Colunista de Plurale

Ficam distantes as comemorações singelas do Dia da Mulher que acabavam com entrega de rosas. O dia virou o dia das mulheres, e elas são muitas. A diversidade e a violência aposentaram as comemorações ingênuas desse dia. As mulheres estão aí. Por toda parte gritando por suas famílias, por seus direitos, pelo planeta! No nosso país o retrocesso tem um claro foco na mulher. É só olhar.

A morte de jovens nas periferias das nossas cidades, o abandono dos pais de seus filhos, a miséria, a falta de esgoto, o feminicídio, o estupro, somada ao racismo, deixam as mulheres numa condição especial de vítimas dessa década. Isso não só atinge as mulheres de pouca cultura e pouco recurso. Acabamos de ver uma jornalista ser massacrada, agredida para confirmar a desqualificação da mulher profissional. O feminicídio não tem distinção de classe. Nossa cultura machista vale para todas. A distinção fica forte para as mulheres negras que perdem seus filhos pela bala, achada ou perdida.

As mulheres choram por nossas esquinas e são vistas nas mídias tradicionais ou redes sociais. Mas mesmo chorando e cheia de dores, são elas que lutam! Lutam nas cidades, no meio rural, nos quilombos, nas terras indígenas. Nos últimos anos não tem recebido flores, mas socos, facadas e tiros. É ela que sofre com a miséria oferecida nas refeições de seus filhos, com a absurda situação nos postos de saúde e hospitais. É a menina mulher que é estuprada, agredida, violentada em todos seus direitos, inclusive o de estudar.

Repare, lá está sempre elas... cuidando dos filhos, dos maridos, dos pais. Lá está ela lutando, fazendo brigadeiro, quentinha, suco artesanato ou qualquer coisa que viabilize alimentar sua família.

E lutam! Falam, gritam, mesmo com ataque constante à sua dignidade. Ela sofre por todos, pela família, pela comunidade. Ela é o foco do marketing para quase tudo, porque ela sonha com tudo que sua família sonha. Ela é que vê o rosto triste olhando para os comerciais que mostram comida, tênis, entre muitas outras coisas, que não estão acessíveis a seus filhos. São elas que sonham e não desistem de dar uma vida diferente para eles.

Trabalha, empreende, vai no “corre”, sem que nenhum ministro precise falar em empreendedorismo. São elas que mais rapidamente aprendem, gostam de participar de grupos, e buscam desesperadamente aprender. Tudo para a mulher é luta! E elas, de todas as idades, (de Greta a Jane Fonda) camadas sociais, cor, religião, que estão aí por toda parte mostrando suas lutas! A mulher quase sempre não se conforma, vai buscar água! Divide e multiplica o pouco porque cuida.

Às vésperas do Fórum Econômico de Davos a Oxfam lançou um relatório sobre desigualdades. Ali encontramos o valor do trabalho do “cuidado” que é feito majoritariamente por mulheres. Você sabia que o valor desse trabalho pode chegar a mais de 10 trilhões de dólares por ano?

https://oxfam.org.br/blog/trabalho-de-cuidado-uma-questao-tambem-economica/?utm_campaign=nova_newsletter_-_jan&utm_medium=email&utm_source=RD+Station

Esse é o trabalho não remunerado das mulheres para a sociedade, que não viveria sem seus cuidados. Aqui no Brasil temos o trabalho remunerado do cuidado, realizado pelas empregadas domésticas dos ricos e bem remediados. Lá também são elas que cuidam da limpeza, portanto saúde, alimentação e carinho.

No mesmo relatório da Oxfam vemos que:

Bilionários do mundo têm mais riqueza do que 60% da população mundial” (2.153 bilionários do mundo têm mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas).

“A elite mais rica do mundo está acumulando grandes fortunas às custas principalmente de mulheres e meninas pobres que passam boa parte de suas vidas em trabalhos domésticos e de cuidados.”

(Relatório Oxfam)

“A concentração de riqueza no mundo está em níveis alarmantes. Se todos sentassem sobre suas riquezas empilhadas em notas de 100 dólares, teríamos: a maior parte da humanidade sentada no nível do chão; uma pessoa de classe média em um país rico ficaria sentada na altura de uma cadeira; e os dois homens mais ricos do mundo – Jeff Bezos da Amazon e Bill Gates da Microsoft – sentados no nível do espaço sideral. Eis, portanto, uma boa hora para uma maior tributação sobre grandes fortunas, não?”

Todos os fundos, ONGs e mesmo governos sabem da essência das mulheres: é a elas que são liberados recursos, quando existem, exatamente porque cuidam, e multiplicam. Economistas e pesquisadores atestam que investir e educar mulheres traz um perceptível retorno nas comunidades.

Como podemos investir mais nas mulheres? Como podemos homenageá-las de verdade investindo nelas, na capacidade de fazer e cuidar? Comemorar o dia, semana ou o mês das mulheres, exige um novo olhar da nossa sociedade. Que nosso presidente não seja exemplo, por favor! Vamos respeitar e prevenir a morte de tantas formas a qual a mulher é submetida. Que cada um de nós encontre a forma de viver esse tempo das mulheres. Que as empresas entendam, nas suas áreas de responsabilidade social e na sustentabilidade que é para elas que devem trabalhar. Quero mais que uma flor nessa triste anunciada nova década, quero terra para que as mulheres possam plantar. Quero que a ela sejam dadas formas de compartilhar e cuidar.

Flores, um símbolo do

feminino, apareceram nos

desenhos de várias cidades:

Canoas, Recife e Salvador.

Mostram seus sentimentos

de profunda tristeza frente

à violência.

Desenhos realizados por mulheres participantes de Diálogos para Segurança Pública pela Secretaria Especial das Mulheres com a Ministra recém falecida Nilcéa Freire. Estudo realizado pela Rebouças Consultoria.

OBS: Quem quiser doar para investimento em mulheres recomendo entrar no site do Elas, um fundo que investe em mulheres há 20 anos. Veja o site.

http://www.fundosocialelas.org/







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2 comentários | Comente

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06/03/2020 09:00
Mestra Nádia, grande mulher, grande ser humano!! Sempre bom ler suas palavras e compartilhar de seus pensamentos.

03/03/2020 18:04
Querida Nádia, professora minha e de tantas outras mulheres e homens sensíveis às causas femininas, posto que tais causas são mais humanas do que de um só gênero. Gostaria que suas palavras fossem ficção, mas doem de tão reais. Continuemos na luta! ????