Atenção

Fechar

Destaques

ESPECIAL CORONAVÍRUS - "Não voltaremos à normalidade, porque o normal de antes era o problema"

Por Adriana Boscov, Colunista de Plurale (*)

A pandemia do COVID-19 com certeza trouxe mudanças que muitos de nós jamais pensamos seriam possíveis. Vimos um vírus invisível – o que parece impossível, mas é verdade – se multiplicar aos milhões e atingir todos os países do globo em apenas alguns meses. Ouvimos números de mortes por dia jamais pensados, mesmo sabendo que em um dia “normal” morrem muitos mais de outras causas. Fomos forçados a não mais tocar, beijar, abraçar ou simplesmente estar uns com os outros, mesmo não o fazendo antes em dias “normais” por causa da correria, da falta de tempo. Pensamos que esse mal nunca chegaria até nós, mesmo tendo outros males muito mais próximos diariamente na nossa vida “normal”.

Em meio a essa turbulência recebi um chamado para escrever de novo. Não para mim, mas para compartilhar experiências do mundo que me trazem um alento ao coração e uma ponta de esperança de que isso que está acontecendo com todos nós, veio para nos ensinar a ser melhores. A pandemia do COVID-19 me traz uma única mensagem: aprendizado empático. Mas será que estamos realmente aprendendo? Será que (re)encontraremos a humanidade dentro de nós seres (des)humanos?

Hoje participei de um webinar promovido pelo Sistema B de sua mais nova iniciativa a Plataforma Interdependence 20. Com o empresário Paolo Di Cesare, co-fundador da empresa B Nativa como anfitrião, pudemos ouvir casos reais que aconteceram na Itália que trouxeram mudanças positivas inspiradas pela pandemia COVID-19. E que incrível experiência escutar tantas transformações positivas em meio às notícias negativas que temos recebido deste país, o segundo mais visitado na Europa, com uma das histórias mais fascinantes retratada em milhares de livros.

Em meio ao caos instaurado pela superação dos limites do sistema de saúde, o setor privado não só foi impactado duramente, mas também gerou jugaad[1] para trazer soluções a problemas que pareciam não ter solução. Um médico preocupado com a falta de ventiladores, material médico crítico para pacientes graves de COVID-19, telefonou para um amigo dono de uma indústria pedindo uma solução para que as bombas dos ventiladores pudessem alimentar dois ao invés de um, dobrando sua capacidade de atendimento. O empresário juntou sua equipe de engenheiros e desenvolveu uma solução para produção imediata em 72 horas. Um empreendedor utilizou como matéria prima uma máscara de mergulho que cobre todo o rosto acoplando uma peça para transformá-la em um ventilador de baixo custo. Crianças que antes precisavam estar presentes em sala de aula, duas semanas após o fechamento obrigatório das escolas já participavam de aulas online, de volta a rotina escolar.

Inovação na linha de produção e portfolio de produtos atendendo a necessidades de vida ou morte da população! Não mais planejamentos estratégicos elaborados por meses e meses envolvendo dezenas de pessoas para se chegar a números mágicos de quanto temos que vender e cortar de despesas para auferir mais lucro. Não! Simplesmente olhando a demanda gerada por uma crise e buscando soluções de impacto positivo. Modelos tradicionais de ensino se transformando e transformando o sistema educacional como um todo para novamente atender a uma necessidade da sociedade.

E tudo o que estamos falando aqui aconteceu de uma forma reativa a um problema que não escolhe classe social, raça, gênero ou religião. Não foi uma demanda do governo, nem da sociedade. Brotou do espírito empreendedor e da resiliência de pessoas que não estavam de acordo com o status quo amplificado pelo COVID-19, já presente há muitas décadas no nosso mundo globalizado. Milhões de pessoas passam fome – uma necessidade básica de acordo com a pirâmide de Maslow – todos os anos. Outros milhões sofrem de doenças evitáveis como cardiovasculares e diabetes para citar algumas. Esse normal não é nada normal para aqueles que passam por esses desafios.

E o que vemos dessa experiência italiana é uma energia positiva brotando que se pode sentir e está trazendo novas formas de se criar soluções para resolver problemas, necessidades. Uma forma que leva em consideração o impacto positivo para melhorar a qualidade de vida dos mais vulneráveis – nos casos citados os doentes e as crianças. Imaginem como essas mudanças estão afetando positivamente a qualidade do ar, a mobilidade urbana, o acesso a saúde.

Como todo esse movimento pode transformar a forma com trabalhamos, como nos deslocamos, como nos relacionamos. Estamos fazendo coisas que não pensávamos que poderíamos fazer. Estamos descobrindo a mágica de estar juntos sem estar fisicamente próximos.

O futuro não será como o passado. Nossas vidas serão lembradas como o antes e o depois do COVID-19. Não vamos voltar à normalidade porque o normal de antes era o problema. Problemas que tem solução, mas nunca tivemos empatia para enxergar com a visão de quem está passando por ele e encontrar a melhor solução para todos. Agora é ainda mais sobre PESSOAS! Como nos relacionamos, como tratamos o outro, a empatia que temos pelo outro.

Não é preciso forçar uma mudança radical, mas devemos aproveitar essa chance para refletir sobre o que pode realmente ser diferente definir o que pode ser o “normal” de amanhã.

[1] Termo proveniente da Índia que é utilizado para inovação que surge em locais onde há mais obstáculos que facilidade para se empreender.

(*) Adriana Boscov é Mestre em Relações Internacionais pela Georgetown University e consultora em sustentabilidade, investimento social privado e gestão de projetos. É Colunista de Plurale.

Legenda da foto - Praia de Icaraí deserta após decreto da Prefeitura de Niterói com Medidas Restritivas no município que registrou grande número de casos confirmados e suspeitos de coronavírus no Estado do Rio de Janeiro. Foto de Adriana Boscov.







3 comentários | Comente

 Digite seu comentário

*preenchimento obrigatório



Fernando Thompson |
Adriana, ótimo texto. Parabéns!

Fernando Thompson |
Adriana Boscov, ótimo texto. Parabéns!

Alda Marina Campos |
Ótimo, Adriana. Parabéns pelo artigo. Bj