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Plurale Edição 69 - "Intraempreendedorismo e o compromisso para o acesso à água potável"

Por Rodrigo Brito, Empreendedor, é gerente de Sustentabilidade da Coca-Cola Brasil, cofundador e conselheiro da Aliança Empreendedora e Emerge Brasil

Era janeiro de 2017, eu havia acabado de me mudar para um Rio de Janeiro que marcava 40° nos termômetros. Para quem morava em São Paulo e nasceu no frio de Curitiba era como sentir que tudo derretia. Além da temperatura, outro clima era muito novo para mim, era a primeira vez que eu tinha um crachá corporativo, uma mesa com cadeira ergonômica e um ramal telefônico. Estava começando uma história que já dura 3 anos junto a uma das empresas mais admiradas do mundo!

O desafio consistia em elaborar e implantar um novo programa voltado a ampliar o acesso à água para populações e comunidades de baixa renda em todo o país, um direito que ainda não é realidade para 35 milhões de brasileiros. Nesta época, a Coca-Cola Brasil já era referência em eficiência hídrica em fábricas e já devolvia para o meio ambiente 100% da água que utiliza para suas bebidas, por meio de projetos de conservação ambiental e reflorestamento. Atuar com acesso à água para comunidades com ampla escala e de forma sustentável era o próximo passo e missão.

Lançado em 22 de março de 2017, no Dia Mundial da Água, o Água+ Acesso iniciou com o compromisso da Coca-Cola Brasil de investir dez milhões de reais nesta causa até 2020. Se em 2017 o programa beneficiava 15 comunidades de 3 estados, três anos depois chegamos a mais de quinze milhões de reais investidos, 348 comunidades impactadas em 8 estados, 15 organizações parceiras e 88 mil pessoas diretamente beneficiadas em diversas regiões do país.

O mais interessante é que o programa foi todo baseado em duas premissas chave que garantem a sua continuidade independente do investimento da Coca-Cola: Integrar e fortalecer organizações da sociedade civil que já atuam no tema, e apoiar e investir apenas em iniciativas localmente autossustentáveis financeiramente através de modelos de gestão comunitária da água onde as próprias comunidades atuam na operação e manutenção dos sistemas de acesso e tratamento.

Mesmo que já esteja mais do que claro que “empreender” vai muito além de criar negócios e diz respeito a um conjunto de comportamentos e habilidades para idealizar e realizar iniciativas, sinto que ainda existe pouco conteúdo sobre casos e experiências de empreendedores em grandes empresas. Por este motivo e a partir destes 3 anos de minha 1° experiência como “intraempreendedor” na Coca-Cola Brasil, compartilho aqui um conjunto de aprendizados sobre este processo e jornada.

Para intraempreendedores:

A primeira grande lição e boa surpresa que tive foi de perceber o quão errados estavam meus receios de que grandes empresas são lentas, burocráticas ou conservadoras. Pelo contrário, só tive o prazer de trabalhar com gente empolgada, cheia de sonhos e energia, em uma empresa que valoriza o empoderamento, a curiosidade, a inclusão e a agilidade, que são exatamente a essência do empreender.

Aprendi que, assim como um empreendedor precisa articular muitos parceiros, fornecedores, clientes e atores externos para tirar suas ideias do papel, em grandes empresas este esforço é tanto quanto necessário também internamente. Se por um lado a quantidade de alinhamentos e processos de aprovação pode frustrar ou apavorar empreendedores ansiosos, por outro cada projeto ou proposta de iniciativa fica muito mais rica e robusta por contar com sugestões e visões tão diversas. O desafio aqui é não deixar este processo consumir muito tempo ou dedicação apenas em aprovações internas.

Outra grande vantagem desta experiência tem sido a bagagem e aprendizado em tantos temas relacionados à gestão, marketing, operações, engenharia e negócios. Conhecer e me relacionar, diariamente, com tantas equipes de distintas marcas e mercados tem gerado um repertório incrível de conhecimento totalmente aplicáveis aos objetivos. Articular, engajar e contar com a participação ativa de pessoas com enorme know how em água, comunicação, gestão e relação com governos, por exemplo, foram aspectos cruciais para o sucesso do Água+ Acesso.

Para empresas:

Acredito que, para as grandes empresas, atrair ou estimular a formação de intraempreendedores traz uma série de vantagens e desafios. Se por um lado empreendedores estão acostumados a fazer muito com pouco, lidar com limitações, riscos e montanhas russas emocionais, por outro, não lidam bem com muitos alinhamentos prévios e aprovações, um processo que requer tempo, flexibilidade e adequações de ambos os lados.

Outro aspecto importante para empresas considerarem é que empreendedores(as) se empolgam e são motivados a conceber e se dedicar a grandes missões e desafios que gerem grande impacto e realização pessoal. Se por um lado esta característica traz muita energia e performance para novos projetos e negócios, por outro pode desestimular empreendedores se os ambientes forem de muitas rotinas, ambições tímidas ou escopos muito limitados.

Atrair empreendedores para grandes empresas agrega redes de contatos e repertórios diferentes daqueles usualmente desenvolvidos pelas companhias, tornando sua percepção mais refinada e estratégias mais robustas perante atores chave de outros setores, startups, governos, imprensa, academia ou ONGs.

No caso do Água+ Acesso, além da força da marca e expertise da empresa e do Instituto Coca-Cola Brasil, trouxe todo meu know how, rede de relacionamentos e reputação como empreendedor construída para formar e expandir o programa evitando riscos desnecessários.

De lá para cá, meu interesse e curiosidade em aprender e impactar ainda mais através do negócio me levaram a uma transição do Instituto para a área de Sustentabilidade da Coca-Cola Brasil, onde desde o último trimestre de 2019 passei e ser responsável pelo tema de água como um todo e co-responsável pelo processo de desenvolvimento das cadeias de valor da empresa.

Pela água:

Água é a principal matéria prima da Coca-Cola no Brasil e no mundo e, como nada a substituiu, a água é por si só um tema prioritário tanto por riscos como por oportunidades relacionadas a aspectos ambientais, reputacionais e de negócios.

Se há vinte anos a empresa tinha como foco e prioridade ampliar a eficiência hídrica em suas fábricas, índice que melhorou em mais de 35%, desde então cada vez mais colaboradores e intraempreendedores de diversas áreas tem atuado para ir além, atuar em parceria e gerar impactos positivos em suas comunidades, cadeias de valor e nas bacias hidrográficas que abastecem as plantas por todo o Brasil e mundo afora.

Termos o 22 de Março como Dia Mundial da Água é uma oportunidade de anualmente celebrarmos os esforços de todas as pessoas e organizações dedicadas à cuidar deste elemento tão central à vida, como também é um lembrete e chamado à consciência e responsabilidade para fazermos ainda mais e melhor para que todos tenhamos sempre a disponibilidade e acesso à este direito humano e bem tão precioso.







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