Atenção

Fechar

Destaques

ESPECIAL CORONAVÍRUS - A força do coletivo

Por Sônia Araripe, Editora de Plurale/ Foto Vatican News

Sempre reclamamos, neste ritmo de corrida desenfreada, que faltava tempo. Tempo para aproveitar mais a casa com a família, tempo para ler aquele livro até então parado na estante, tempo para aprender a cozinhar melhor... tempo para a vida.

Eis que a pandemia do coronavírus nos empurra para um período de isolamento social para milhões; quarentena para milhares diante da suspeita ou confirmação de ser positivo para o vírus. Tristeza para muitas famílias pela morte de entes queridos pela Covid-19. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, já são quase 33 mil mortos até o momento em diversos países, até este dia 29 de março, quando escrevo estas linhas, daqui do nosso "claustro", no ensolarado - e isolado - Rio de Janeiro. O número total de casos confirmados chega a 720 mil em 196 países e territórios, dos quais 4 mil no Brasil, com 136 mortos. São números impressionantes, assustadores.

Papa Francisco - Nenhuma outra imagem refletiu mais esta nossa apreensão coletiva do que a do Papa Francisco, rezando, sozinho esta semana na Praça de São Pedro, no Vaticano, onde antes haveria uma multidão com seus celulares registrando. Tão vazia e ao mesmo tempo tão acompanhada por fieis de todo o mundo através da imprensa.

Um Cristo enorme posto à entrada da Basílica de São Pedro, o mesmo que no século XVI salvou Roma da Grande Peste. À sua esquerda, a imagem da Salus Populi Romani, que normalmente fica na Capela Santa Maria Maior. O Papa alertou que algo acontece em nosso mundo. “Desde algumas semanas parece que tudo se escureceu. Densas nuvens cobriram nossas praças, ruas e cidades; foram se adonando de nossas vidas fazendo de tudo um silêncio que ensurdece e um vazio desolador que paralisa tudo onde passa: se palpita no ar, se sente nos gestos, se diz nos olhares”, proclamou o Papa.

“Encontramo-nos assustados e perdidos. Igual aos discípulos do Evangelho, surpreendeu-nos uma tempestade inesperada e furiosa. Demo-nos conta de que estávamos na mesma barca, todos frágeis e desorientados; porém, ao mesmo tempo, importantes e necessários, todos chamados a remar juntos, todos necessitados de nos confortarmos mutuamente”, explicou. “Nesta barca, estamos todos”, repetiu Bergoglio, porque desta sairemos somente como um, e que “não podemos seguir cada um por nossa conta, mas somente juntos”. Compartilhamos aqui imagens, vídeo e um resumo desta missa histórica relatada pela IHU On-Line.

Plurale traz Especial sobre a pandemia - Temos procurado, ao longo das últimas semanas, mesmo em regime de home office, fazer um esforço jornalístico de ouvir especialistas, trazer notícias, publicar artigos de nossos Colunistas Plurale e compartilhar muito serviço público para que todos possam ser bem informados: saindo ilesos e ainda mais fortes de toda esta crise. Este material está disponível em Plurale em site no Especial Coronavírus. São diferentes pontos-de-vista que merecem atenção pelo conteúdo e pela pluralidade de ideias: Adriana Boscov, Adriana Nunan, Altamir Tojal, Christian Travassos, Dario Menezes, Fernando Thompson, Flávia Ribeiro, Giuliana Preziosi, Luiz Antônio Gaulia, Nádia Rebouças e Tatiana Maia Lins. Cada um com a sua opinião e visão sobre esta pandemia de tantas vertentes.

Sempre de olho na pluralidade - que tanto nos marca - também compartilhamos entrevistas e artigos relevantes. Como a entrevista com o filósofo italiano Ivo Lizzola, para Confini, alertando para o "sentido" desta pandemia e a entrevista para o Portal Brasil de Fato da indígena Tupinambá Nice Gonçalves, receosa dos efeitos para a sua etnia. Cito apenas alguns para que possam navegar e descobrir o que temos em Plurale.

E antes que alguém possa pensar que jornalistas e a mídia só trazem "notícias tóxicas" lembramos que está na Ciência a saída para esta crise. Negar a Ciência e o relevante serviço público prestado pela imprensa em todo o mundo - inclusive arriscando a vida de repórteres e equipes - é tentar vedar os olhos para o que está à nossa frente. Apesar de todos os esforços de pesquisadores de todo o mundo - inclusive brasileiros - ainda não há vacina ou remédio comprovado para a cura da Covid-19, mas, com certeza, em breve haverá. Nunca as pesquisas e os pesquisadores foram tão valorizados em seus trabalhos. Não se iludam: este vírus não tem RG, nacionalidade ou partido. Atinge ricos e pobres. Jovens e idosos. O contágio é exponencial. Por isso é tão importante, como os números comprovam, o esforço de isolamento em diversos países, inclusive o Brasil.

As chamadas "fake news" e as informações sem base na Ciência e na experiência de especialistas só poderão ser combatidas com informação de qualidade. Não pela audiência, como possam pensar alguns. Mas pela sobrevivência. Orgulho de participar do hercúleo esforço da imprensa em melhor esclarecer e informar a população.

Aplausos de todos nós para os médicos e todos profissionais do sistema de Saúde, assim como os que precisam manter serviços de emergência, como policiais, bombeiros, motoristas de ônibus, de transportes e fabricantes de produtos tão essenciais agora, como álcool gel e sabão. Nunca o Sistema Único de Saúde esteve tão em evidência. Em casa, evitamos sobrecarregar os já congestionados postos de atendimento e hospitais que precisam concentrar esforços com a pandemia.

Gripe espanhola - Do passado trouxemos lições sobre como a Gripe Espanhola matou dezenas de milhões com desinformação e transmissão acelerada . Das memórias de nosso avô - Tristão de Alencar Araripe - militar do Exército, encontramos registro de 1918 sobre este período.

"Outro grande acontecimento foi o violento surto de gripe "a hespanhola". Caiu sobre o Rio de Janeiro verdadeira catástrofe. Teve-se a imagem da desolação coletiva. A cidade toda foi atingida pelo flagelo. A tropa não escapou apesar das medidas preventivas. Quase todo o efetivo do 1º R.I. adoeceu. Os alojamentos transformaram-se em enfermarias. Dois ou três oficiais, que não foram atingidos, serviam de enfermeiros. Eu fiquei detido durante uma semana dando remédio aos soldados. Assisti alguns morrerem. Foi verdadeiro milagre não ter sido atingido pela calamidade. Também em casa e na de Iracema nada houve. Ficamos incólumes, mas profundamente abalados pelo verdadeiro cataclismo. Aos poucos fomos sabendo do que acontecera na cidade e nas famílias amigas. Morte de várias pessoas em mesma casa. Falta de medicamentos nas farmácias. Dificuldades de enterramentos. Os cadáveres, aos montes, eram apanhados pelos caminhões. Não havia coveiros e covas bastantes nos cemitérios. Recrutaram-se sentenciados, abriram-se valas e o sepultamento se fazia sob imposição de armas embaladas. Roubos em casas e em cadáveres. Pessoas desaparecidas e cujo paradeiro nunca mais foi sabido. Suposição que tivessem morrido na gripe e enterrados como desconhecidos. Um horror, em fim!"

Novos tempos - Temos procurado também ler muito, ouvir várias opiniões. Dar ressignificação à vida. Repensar o nosso sentido de tempo. Arrumar o armário para doações depois que o isolamento passar ou cuidar da faxina. Claro que todos queremos voltar ao trabalho, ao nosso dia-a-dia. Mas como voltar? E como será a "volta aos tempos normais?". Adriana Boscov, nossa Colunista Plurale, Mestre em Relações Internacionais pela Georgetown University, tem muito bem alertado para este período pós-Covid-19. "Não haverá volta ao normal porque aqueles tempos não eram normais."

É sobre isso que precisamos refletir daqui para a frente. Em que sentido daremos às nossas vidas. No que realmente tem valor e propósito. Não poderá ser cada um por si e poucos se preocupando com o coletivo, como tem sido até agora. Sem nem pensar no vizinho. Já está bem claro que teremos recessão forte, quiçá depressão. Fome para milhares. Do vendedor de amendoim ou bala na esquina até o trabalhador que será demitido.

Sobre este assunto, vale ler a entrevista do economia Ricardo Paes e Barros, um dos criadores do programa Renda Mínima, para o Portal G1. PB. como ele é mais conhecido, adverte que é mais do que aceitável dar uma renda mínima para famílias em situação fragilizada por conta da crise. Demissões acontecerão, o Governo já anunciou auxílios em dinheiro para os mais necessitados. Mesmo assim, acreditamos que será necessário um grande esforço coletivo da sociedade contra a fome avassaladora, como Betinho tanto lutou. Unindo pontas, estabelecendo pontes e tentando proteger os mais necessitados, como moradores de rua e informais.

Pelo coletivo - Valiosa ver a união e agilidade do setor privado , de pessoas físicas e de governo. Porque esta não será uma crise para ser palanque para alguns. A saída deste cenário só acontecerá quando todos perceberem que estamos juntos em um só barco. Do setor bancário, três dos maiores bancos privados - Bradesco, Itaú e Santander - se uniram e anunciaram que irão importar 5 milhões de testes rápidos para detecção da doença, além de tomógrafos e respiradores. A Ambev e O Boticário anunciaram doações de álcool gel e em parceria com o Hospital Albert Einstein e a Prefeitura de São Paulo, Ambev e Gerdau vão ajudar na construção de um hospital de 100 leitos para doentes exclusivamente do Sistema Único de Saúde. A Petrobras irá doar 600 mil testes para o diagnóstico do coronavírus. Empresas concorrentes do segmento de telefonia - Claro, Vivo, Oi e Tim - também anunciaram a união para que todos fiquem em casa com banda larga de qualidade e boas informações. Os exemplos não param. A rede McDonald´s estabeleceu protocolos para atendimento ao público, mantendo apenas o serviço de drive-thru e entregas, mas usou sua expertise no treinamento para o comércio local - já são 730 inscritos no curso para pequenas e médias empresas.

O economista Luiz Fernando Bello, especialista em captação de recursos junto a bancos estatais e no mercado de capitais, reforça que as empresas privadas podem e devem contribuir em muito para amenizar as duas grandes ondas do tsunami viral. "A primeira onda representada pela pandemia. A segunda a crise na economia provocada pela primeira. As grandes empresas privadas devem evitar ao máximo demissões; dedicar seus melhores esforços para produzir equipamentos médicos, especialmente para proteção dos agentes de saúde e ventiladores; e algo que precisa ser feito com máxima urgência: utilizar todo o seu poder de produção e de distribuição para fornecer alimentos e o que mais for necessário para sobreviver aos informais e desempregados. São dezenas de milhões de pessoas que, se chegarem ao desespero, vamos ter que enfrentar uma convulsão social sem precedentes. Mas nada será efetivo sem a participação do Estado na logística e na irrigação com muito dinheiro da economia."

Astros - De países do Primeiro Mundo chegaram exemplos de astros que também estão fazendo a sua parte nesta verdadeira guerra contra a pandemia. A atriz Angelina Jolie, embaixadora humanitária da ONU por refugiados, anunciou a doação de U$ 1 milhão para ONG que combate a fome de crianças vulneráveis nos EUA, uma vez que estão em casa sem aulas e merendas. A elite dos esportes - sem poder treinar e trabalhar - também se engajou nesta rede do bem: do jogador de futebol argentino (que joga no Barcelona), Lionel Messi aos campeões do tênis - o suíço Roger Federer e o espanhol Rafael Nadal, assim como astros da NBA.

No Brasil, a "rainha dos baixinhos" Xuxa Meneguel foi uma das primeiras a anunciar doação para o SUS através de sua empresa de depilação a laser e de sabonetes para os mais necessitados por meio da empresa Baruel, que produz os tênis licenciados com a sua marca. "Se não ajudo, criticam. Se ajudo, quero aparecer."

É disso que precisamos. De todos engajados em um só objetivo: o bem-estar coletivo. Não de olho em audiência ou nas próximas eleições. Mas pensando no próximo, no mundo que vai renascer após a pandemia passar. Porque, estejam certos: vai passar. Ficaremos bem. Desde que todos nós verdadeiramente nos engajemos nesta corrente pela força do coletivo.







Veja também

11 comentários | Comente

 Digite seu comentário

*preenchimento obrigatório



04/04/2020 16:41
Muito bom! E os registros do avô Araripe? Que achado! Parabéns não só por este texto, mas pelo trabalho consistente que vem realizando há anos com a Plurale.

Malu Fernandes |
Excelente artigo, Sonia. Sairemos juntos sim, Sonia. Saimos da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, da Crise de 1929, da explosão das Torres Gêmeas e de várias outras tristes páginas de nossa história. Até o momento só uma coisa é certa: nunca mais seremos os mesmos.

Anna Laura |
Excelente artigo!!!

Marilene Lopes |
Obrigada pelo excelente artigo, Sônia. Desculpe o trocadilho, o texto é "plural" no conteúdo. Vale reafirmar que a esperança está na ciência, com toda certeza. Bj

Tacito Araripe |
Boa Sonia, mandou bem demais.....espelha bem nossa realidade e nao se esqueça de cuidar dos mais idosos. Bj neles,

Roberto Pereira Franco da Fonseca |
Famosa atriz ter doado 1milhao acho muito pouco,gastou muito mais nas suas adoções!! As vésperas do fechamento da declaração anual do IR, o governo através do Min.da Economia poderia incentivar a Doação de 6% do imposto a ser pago para essa causa atual!!

Luiz Gaulia |
Bravo, Sonia! Lindo texto. #FocoNaCura #Esperança

Adriana Boscov |
Excelente artigo querida Sônia! E obrigada pela oportunidade de poder contribuir com notícias positivas em meio a tanta negatividade! Parabéns mais uma vez!

Marcela vigo |
Sairemos melhores desse acontecimento. Aproveitar esse momento para reflexão e buscar novos valores.

nadia rebouças |
Parabéns Plurale por dar notícias e esperanças....