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ESPECIAL CORONAVÍRUS - Admirável Ano Novo

Por Christian Travassos, Colunista de Plurale, Economista

O ano de 2020 começou de um jeito com que nós, brasileiros, nos acostumamos no cenário recente: perspectivas mais otimistas sobre o futuro versus o filme no retrovisor, expectativas de crescimento da economia na casa dos 2,5% - sempre eles -, promessas de consecução das ansiadas reformas administrativa e tributária - agora, vai! -, Bolsa indo bem, obrigada! O mercado de trabalho deixava, aos poucos, a ressaca para trás e ensaiava recuperação.

Um olhar mais atento às decisões do Planalto e a seu modus operandi, porém, não nos inspirava a mesma confiança. Após um ano do novo governo, competências técnicas, tão apregoadas ao longo da campanha eleitoral de 2018, davam lugar a preferências ideológicas e interpessoais. Um guru terraplanista continuava a ditar da Virginia (EUA) os rumos de um Executivo com capacidade inesgotável de gerar polêmicas desnecessárias nas mais diversas áreas, como Educação, Meio Ambiente, Cultura, Relações Exteriores e Comunicação.

Caminhamos, hoje, para o fim de março e, sinto informar, que, em geral, isso não mudou. Seguimos sob a manta ideológica anti-científica, aquela mesma da qual seríamos libertos por Messias, sujeitos a crises evitáveis, a rompantes desconexos da realidade e a ataques à liberdade de imprensa.

Mas algo, sim, mudou e mudou radicalmente a mesmice como se desenhava o Ano Novo em Pindorama, tal qual um enredo inspirado no imaginário de Aldous Huxley um século atrás.

Num esforço por enxergar o copo meio cheio, talvez a pandemia do novo Coronavirus sirva para escancarar esse roteiro doméstico a quem ainda insista não apenas em negá-lo, como em replicar, sem pudor, pretextos e malabarismos de seus protagonistas.

Afinal, quem diria que, em menos de 90 dias, a maioria de nós estaria - ou deveria estar - reclusa em casa em meio a um Estado de Calamidade Pública? Que governadores assinariam decretos pelo fechamento de shoppings, bares e restaurantes? Que prefeitos mandariam erguer barricadas em portais de pequenas cidades no interior país afora?

  • Que a emergência médico-sanitária seja a sacudida para nos fazer enxergar o valor do trabalho e do embasamento técnico-científico em detrimento de achismos populistas, que hoje grassam vindos do submundo da Internet e de altos escalões da República - não do Ministério da Saúde, onde postura, conduta e comunicação se mostram à altura do desafio;
  • Que sirva para nos darmos conta de uma vez por todas do grau não menos calamitoso de desigualdade social segundo o qual brasileiros carecem de condições mínimas para se proteger do Covid-19, pelo simples fato de não terem sequer água em suas casas, nem recursos para comprar algo tão básico como... sabão;
  • Que empresas e profissionais autônomos possam contar com informação, apoio e compreensão do Setor Público, de credores, fornecedores, parceiros e clientes para passar pela quarentena. Se a migração de muitos processos para a Web foi acelerada abruptamente, decerto trará consigo potencial para nos levar a outro patamar de cooperação e eficiência. Instituições de ensino como o Senac RJ já estão empenhadas nessa força-tarefa, por meio da oferta de cursos EAD gratuitos em TI e empreendedorismo, por exemplo;
  • Que possamos realizar para a importância em nossas vidas de profissionais muitas vezes relegados a segundo plano em meio a um mundo tão imerso em novas tecnologias, como médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, entregadores, motoboys, motoristas, caixas e repositores de supermercado, garis;
  • Que a pandemia nos ajude na tarefa hercúlea e planetária de conscientização contra a epidemia das Fake News, de modo que passemos a valorizar cada vez mais a informação apurada por fontes profissionais, por jornalistas comprometidos com a construção de uma sociedade mais justa, saudável e democrática, em contraposição ao que vivemos hoje nas redes sociais, bombardeados por bizarrices. Mentira também mata;
  • Que o isolamento nos faça refletir o quanto somos seres gregários, o quanto dependemos uns dos outros.

Está claro que o inverso desse entendimento se mostra insustentável, entre outras razões, sob o risco de dezenas de brasileiros mortos se transformarem brevemente em milhões.







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3 comentários | Comente

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27/04/2020 21:31
Christian, sua visão de economista traz uma análise muito oportuna, ainda válida quase um mês após o artigo ter sido escrito. ????

Maurette Brandt |
Este artigo chama a atenção, de forma didática e eficiente, para uma série de coisas que precisamos reaprender à velocidade da luz. Há vários sinais de que a compreensão da sociedade sobre seus dilemas e sobre a fragilidade dos "poderes" está em franca propagação. É um 'acorda' basico pra gente fazer a nossa parte. E já.

Luiz Gaulia |
Precisamos também valorizar os psicólogos e psiquiatras para dar conta do stress, da depressão, da ansiedade e até de suicídios causados por um isolamento forçado. Precisamos valorizar a palavra de sociólogos para analisar sofrimento psicológico e empobrecimento maciço somados ao aumento da violência. E escutar também matemáticos para calcular e mostrar números e estatísticas do desemprego, endividamento brutal das famílias - em bancos e agiotas, além das falências. E por último, de gestores públicos para nos informarem sobre impostos e estatizações que virão na esteira das ações dos governos. Que Deus nos ajude...