Atenção

Fechar

ESPECIAL CORONAVÍRUS

ESPECIAL CORONAVÍRUS - A revolução do invisível

Por Nádia Reboucas , Colunista de Plurale

Chegamos ao Ponto de Mutação? Nos anos 90, Capra nos trouxe um livro que para mim foi fundamental no sentido de abrir novos caminhos. Foi mesmo um turnpoint e agora o mundo todo está exatamente ali. Estamos vendo, em tempo real, o modelo econômico das últimas décadas definhar na UTI dos hospitais de todo o mundo, ao lado de milhões de pessoas, respirando por aparelhos. Mudaremos ou mudaremos. Acabaram os recados e veio o momento touché!

O planeta não suportava mais! Com tudo parado o planeta respira. Os Sapiens que sonhavam com a possibilidade de vencer a morte “comprando” a vida eterna, como nos mostrou Harari, estão agora frente ao invisível que pode tirar sua vida de repente. Do vazio aparente das cidades escancaram-se nossas fragilidades e ao que tudo indica a inevitabilidade do fim de um jeito de viver. De repente um vírus ameaça derrubar tristes valores que nortearam as ações humanas nas últimas décadas. Curiosamente ele escolhe começar pelos mais privilegiados, para depois se estender para aqueles que somaram fragilidades nessas décadas: os “irrelevantes”. Aqueles privilegiados que não renunciarem à facilidade dos serviços domésticos, sem saber, podem receber o invisível que mata. Ele, o vírus, anda de ônibus e de metrô. E os privilegiados se dão conta de como são relevantes os irrelevantes!

Uma guerra desconhecida. Uma guerra que pega os povos fascinados pelas privatizações e, como recentemente disse Macron, obriga aos estados modernos a pedir desculpas! É como se de algum lugar viesse um recado: acabou a brincadeira. O mundo vai falindo, a economia derretendo como o polo Norte degela na nossa frente há décadas.

Não há como vencer o vírus de maneira isolada... só juntos podemos salvar algo desse tempo. Mas ele, o tempo, certamente será outro. O presidente do Equador lembrou que os muito ricos podem fazer pouco com suas fortunas num mundo silencioso, onde todo e qualquer negócio não tem mais ideia do que é um negócio.

Dá para respirar dólar? O discurso do EU cai por terra, e temos que admitir o discurso do NÓS. Todos nós.

No Brasil não temos só um terrível vírus. Temos bactérias cruéis, que não satisfeitas em atacar, ajudam a desinformar a população mais pobre. E com elas está a chave do cofre que pode impedir o extermínio das nossas comunidades. As panelas voltaram a bater, quase que de repente como a gripezinha, aquela que não ameaça nosso presidente que venceu a facada sem sangue. Nem a facada nele produziu sangue! A insanidade tem liberdade para falar com o povo.

Precisamos de muito bom senso e nossas lideranças já deixaram claro que aí temos um enorme déficit! A China e Cuba mostram um contraponto no meio de palhaçadas com máscaras penduradas numa só orelha.

Não temos fronteiras, nós que as inventamos e esquecemos de avisar os vírus.

Temos o SUS, ainda! Fizeram tudo para acabar com ele nos últimos anos. Temos pesquisadores, ainda! Apesar do que fizeram com nossos cientistas. “Eles” destruíram nosso patrimônio não só na saúde, mas também na educação, na cultura e por toda parte gritando pelo fim do estado. Lembro que um dos primeiros atos do insano no ano passado foi o fim dos Mais Médicos! Ah falta que nos fazem agora!

Uma pandemia.

Todos os países às voltas com respiradores e morte. Mãos sendo lavadas o tempo todo - como se pudéssemos lavar as mãos pelos nossos desatinos. Máscaras e álcool gel. Um mundo que descobre o que é parar. Descobre o silêncio. Qual será o por vir?!

Na tristeza dos nossos não abraços, ainda temos outro grande patrimônio: a solidariedade. Ela anda se multiplicando pelo mundo e muito pelo Brasil. Temos comunicação. Temos cultura nas varandas e nas redes sociais. Temos congresso e governadores que percebendo a urgência do momento, mesmo numa ridícula competição política, tomam medidas para enfrentar o inimigo.

Mas estão lentos!

Os empresários, com quem trabalhei toda minha vida, estão com uma faca no estômago. Os grandes, os médios e os pequenos. Os que quiseram caminhar para uma responsabilidade social e mentiram para eles e para o mundo, deverão se apresentar agora. Quem votou na insanidade, que estava clara há quase 30 anos, terá que ir além de bater panelas. Mas tem que bater, bater muito as panelas para que volte a inteligência e a elegância. Que nasça o mundo novo!

Quem cuidou do seu patrimônio como a Ação da Cidadania, ideia e estratégia que nasceu com o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho (foto), em 1993, rapidamente pode responder à forte ameaça da fome naquele difícil momento. O patrimônio são sempre pessoas!

A Ação da Cidadania voltou a atuar em 2017(saímos do Mapa da Fome em 2014), quando a fome voltou a nos rondar, após a vitória do que está aí, e renasceu com o Natal Sem Fome. Para meu espanto eram quase 250 comitês que continuavam ativos, em todo o Brasil, mesmo sem a gestão e animação para o Natal sem fome. Sob a coordenação de Daniel de Souza, filho do Betinho, e Rodrigo Kiko Afonso, a Ação da Cidadania rapidamente conseguiu grande distribuição de alimentos em 2018 e 2019, com apoio de empresas e doações individuais. Pois bem agora a Ação da Cidadania é uma das ONGs, junto com muitos outros movimentos sociais, que sai em socorro aos menos assistidos nas comunidades, aqueles sem trabalho formal que ficaram mudos frente as ruas vazias. Trabalhadores informais que tinham que correr da polícia, mas era ali, na rua, que conseguiam ganhar dinheiro num dia, para comer no outro. Sim, os voluntários da Ação da Cidadania, entre outros, estão correndo riscos, mas distribuindo alimentos que doadores, em dinheiro, tem permitido transformar em alimento. Entre no site https://www.acaodacidadania.com.br/ e veja as notícias e como você pode doar!

As Ongs foram criminalizadas nos últimos anos, eram inimigas. Perdeu-se uma rede importantíssima para chegar à base dos que mais precisam. Mas a garra faz com que todos estejam se organizando em rede e conseguindo fazer o importante trabalho de coleta e distribuição de alimentos, materiais de limpeza etc. Entretanto, tudo que fizermos ainda será pouco. A fome tem pressa, dizia Betinho. Se do governo vem lentidão, das comunidades vem ação e comunicação. São inúmeros os exemplos divulgados nas redes! E mesmo você, que como eu é do grupo de risco, encontre a forma de contribuir, mesmo em isolamento.

Eu, sou o risco do risco no caminho desse inimigo invisível, posso não estar presente para ver muito lá na frente, mas os sapiens vão buscar o humano, que se perdeu nos mercados. Batam panelas por mim (moro na floresta) e quando isso tudo passar, porque vai passar (não sem muita morte, não sem muita dor), vamos ver um novo mundo surgir. Seguiremos construindo um mundo que nascerá pela mão dos sobreviventes dessa guerra nova, a guerra do invisível. Ironicamente o invisível vai nos dar visão.

(*) Nádia Rebouças é Diretora da Rebouças e Associados.







4 comentários | Comente

 Digite seu comentário

*preenchimento obrigatório



Maurette Brandt |
Irretocável este artigo. Ele retoma a discussão central do homem diante de um evento extraordinário que rapidamente subverte os deuses de neon carona - pego aqui uma carona letra da eterna The Sounds of Silence, de Simon e Garfunkel, que deu novo e amplo sentido a uma melodia popular, tradicional e anônima. De um momento para o outro, a humanidade vem sendo levada de roldão e não reconhece mais nada do que chamava, até pouco tempo, de valores. A face do mundo será, ou já é, diferente. Nádia, você foi em todos os pontos, seguiu a trilha de todos os portais: ou a gente aprende agora ou não aprende nunca mais. O mundo corporativo não tem saída senão se reinventar. A Humanidade tem que prevalecer. E a solidariedade que aflora é que tem de ser a nossa escola, para que ainda tenhamos a chance de nos considerar humanos. Uma beleza de artigo, que é para ser lido várias vezes, pois há muito ali que pode ser posto em prática. Agora. Um abraço!

Marilene Lopes |
Obrigada pelo artigo que pode ser um excelente despertar espiritual para os grandes e pequenos empresários empresários com os quais você trabalhou, e para todos nós que somos privilegiados neste mundo "invisível". Parabéns amiga querida.

Doris de Moraes cCardoso |
Excelente texto, pleno de bom censo e racionalidade. Parabéns, Nádia Rebouças !!

Paulo Márcio de Mello |
Que texto mais lindo e certeiro. Nádia Rebouças, com elegância e sensibilidade extrema relata a ironia de assistirmos (enquanto der. Também sou grupo de risco, nível CARRO BOMBA) os menores organismos, assexuados (que se reproduzem na divisão), invisíveis como os sapiens mais frágeis na sociedade, fazendo a justiça que não fomos capazes. Obrigado e parabéns!