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ESPECIAL CORONAVÍRUS

ESPECIAL CORONAVÍRUS - O risco que ameaça as boas intenções

Por Luiz Fernando Bello, Colunista de Plurale

Assim como nas guerras, a primeira vítima das pandemias é a verdade. Informações desencontradas, curas milagrosas, politização do vírus e das medidas para combatê-lo, brigas pelo poder, rivalidades ideológicas etc. etc. etc. estão poluindo o ar que respiramos. Em suma, tudo que não deveria acontecer quando temos um coronavírus para derrotar. Emerge o pior da natureza humana que atrasa ou inviabiliza o bom combate, ampliando desnecessariamente o número de vítimas. Mortais ou não.
Os exemplos de discussões inúteis - como economistas renomados gastando tempo em polêmica sobre se as medidas do Ministro Paulo Guedes têm caráter keynesiano ou não - , de insensatez, de ódio disseminado em redes sociais, de proliferação de notícias falsas, de cupidez e atos mesquinhos estão fartamente documentados pela mídia . Fica aqui então o primeiro alerta: dediquemos nossos melhores esforços para combater unidos e de forma coordenada o inimigo que pode matar a todos sem distinção de cor, gênero ou religião. Para ganharmos a guerra, será fundamental arquivar temporariamente a cobiça por riqueza individual e a ambição pelo poder.
Muitos cidadãos e empresas entenderam a gravidade da crise e participam do bom combate, fornecendo gratuitamente produtos e serviços indispensáveis para superar a crise. Constroem e equipam hospitais; modificam suas fábricas para produzir álcool e máscaras cirúrgicas: doam alimentos e mantêm toda a produção e logística que que possamos continuar vivendo. Eles revelam o melhor da natureza humana com sua ação e solidariedade. De médicos aos cozinheiros de hospital, passando pelos lixeiros e motoristas de caminhão, até industriais e banqueiros. Portanto, o segundo alerta: não esmoreçam e façam chegar a todos de forma urgente os alimentos e bens essenciais para a sobrevivência humana. O preço de abandonar os pobres e miseráveis seria a maior convulsão social já vivida pelo País.
A urgência urgentíssima de ações para superar a crise nos força a abandonar os preceitos legais que regulam compras de produtos contratação de serviços pelas entidades públicas federais, estaduais e municipais. Os órgãos de controle nacionais se pautam sempre pelo princípio da legalidade e não pelos princípios da eficiência e da eficácia. Não seria problema se a legislação não fosse restritiva em demasia e caótica.
Infelizmente, o coronavírus não mata abutres. A farta distribuição de recursos para gastos com saúde, segmento no qual os abutres são especialistas, preocupa e muito.As verbas para resgatar empresas e cidadãos precisam chegar ao destino. Não podemos permitir que seja feito o que se fez com as verbas fornecidas para resgatar as vítimas da hecatombe que atingiu a serra fluminense há alguns anos, especialmente a cidade de Friburgo e as periferias de Petrópolis e Teresópolis. O dinheiro foi devorado pelos abutres.
Surge a necessidade do terceiro e mais importante alerta (mais uma convocação do que um alerta) : auditores, contadores, toda e qualquer organização voltada a controle e transparência devem se mobilizar para fiscalizar os gastos de forma ágil para não comprometer os resultados, mas impedindo que o dinheiro sirva apenas para saciar a fome dos abutres.
(*) Luiz Fernando Bello é economista, especialista em captação de recursos junto a bancos estatais e no mercado de capitais,






3 comentários | Comente

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Maurette Brandt |
Luiz Bello tem toda razão; estava na hora de alguém alertar para que a gente direcione os faróis para um velho e conhecido inimigo "endêmico" que mora do lado perverso da nossa cultura política: os abutres. Nem vou procurar outra palavra, porque é isso mesmo. É crime contra a vida desviar dinheiro destinado a socorrer as camadas mais vulneráveis da sociedade. Um grande amigo da ópera, Roberto Kóvacz, uma vez me disse algo que calou dentro de mim para a vida inteira. - Existe corrupção no mundo inteiro - disse. - Mas nos níveis alarmantes em que acontece nesse país, só mesmo um paredão pode deter - comentou, na década de 1990. Com a pandemia, nossas instituições apenas começam a acordar para seu poder de fogo para conter abusos de toda sorte, venham de onde vierem. Precisamos de forças-tarefa em nível local, municipal, estadual e federal, porém nascidas da própria sociedade, para vigiar e controlar o bom uso desses recursos e fazer com que cheguem ao seu real e verdadeiro destino. Todas as organizações da sociedade civil que estejam aptas a este trabalho podem e devem entrar em cena agora, já, para garantir pelo menos isso em primeiro lugar, em meio a tantas questões e tarefas imensas a resolver e executar. Bravo, Bello.

Nelson Tucci |
Luiz Fernando faz uma ótima reflexão. O preço de abandonar pobres e miseráveis teria um custo altíssimo (E, moralmente, inaceitável). Até porque essa "classe" tende a crescer nos próximos meses. Noutra ponta, o abutre de essência usa a máxima do escoteiro, "sempre alerta" (mas não para o bem, certamente). Como não podemos nos dar as mãos agora, então que sejam os corações.

Lúcio Antônio MRques |
Bello o seu artigo serve de informação e alerta para esta pandemia. Está muito técnico e bem estruturado e espero que as autoridades da área leia-o . Parabéns