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Plurale Edição 69 - Entrevista com o arquiteto e urbanista Washington Fajardo - “A melhor cidade que existe é a cidade que existe”

Especialista em urbanismo recomenda a reutilização de espaços antes subutilizados nas cidades e alerta para os efeitos cada vez mais drásticos das mudanças climáticas – como alagamentos e deslizamentos - para moradores de médios e grandes centros

Por Sônia Araripe, Editora de Plurale

Foto de André Vieira/ Divulgação

Não devemos esperar das cidades que sejam diferentes do que são. “A melhor cidade que existe é a cidade que existe.

Esta é a principal mensagem que o arquiteto e urbanista Washington Fajardo nos deixa. Paulista de nascimento – com alma de carioca, mas com raízes também em Cabo Frio (RJ) – ele é, acima de tudo, uma pessoa simples e descomplicada, bem distante do verniz que muitos intelectuais gostam de se impor. Mas não confunda simplicidade com falta de conteúdo: Fajardo é hoje um dos principais nomes na análise nacional – e global – de tudo o que envolve os grandes centros, a preservação de sua história através de prédios e aparelhos culturais e formas de trazer mais sustentabilidade para o lugar onde vivem mais da metade da população mundial.

Aos 47 anos, casado com a também arquiteta Patrícia Fendt, quatro filhos, Fajardo vive há cerca de um ano nos Estados Unidos, selecionado como Loeb Fellow na Escola de Arquitetura de Harvard, a conceituadíssima Gratuate School of Design (GSD). Este programa de fellowship está comemorando 50 anos esse ano, selecionando profissionais com experiência prática significativa em áreas críticas do ambiente construído e de interesse público: urbanismo, patrimônio cultural, habitação social, meio ambiente, arte pública, desenvolvimento comunitário, ativismo, jornalismo urbano. Fajardo é o terceiro brasileiro em todo este tempo.

Além disso, nos contou, nesta entrevista por e-mail, que também está envolvido com o David Rockefeller Center for Latin American Studies, o DRCLAS, investigando políticas habitacionais e desenvolvimento comunitário durante a década de 80 nos EUA. “Quero saber como eles saíram daquela grande crise urbana que viveram e que muita gente acha que foi resolvida pelo crescimento econômico, mas não foi só isso. Houve reconhecimento de que associações de bairro e moradores sabiam mais o que fazer do que o governo”, exlicou. Até o fim de 2020 estará completando este período de estudos no exterior.

Perguntamos também se o arquiteto e urbanista poderia seguir carreira pública, quem sabe até tentando a corrida à Prefeitura do Rio, como chegou a ser veiculado na imprensa. Ele admitu que gostaria, mas que não será desta vez. “Precisamos ter candidaturas independentes no Brasil. Os partidos são mais clubes que agremiações de pensamento ou de ideologia. Acredito que poderia oferecer uma condução mais técnica para a cidade que é muito necessário neste momento. Política é fundamental.”

Na entrevista falamos de muitos dos temas prementes para a sustentabilidade das cidades, como a questão das mudanças climáticas, a política habitacional (ou a ausência desta), sobre mobilidade urbana, grandes eventos e também a questão do patrimônio histórico. Confira os principais pontos desta conversa.

Plurale - Em artigos tem defendido que não há cidadania plena sem cidades. O que isso significa?

Washington Fajardo - Como somos uma país em desenvolvimento, com muitas desigualdades e injustiças, e sempre tentando entrar no círculo restrito de nações desenvolvidas, isso criou um certo controle da ideia de nação pelos economistas. Economia é obviamente fundamental. Mas não explica tudo. Não resolve tudo. Cidades por exemplo têm muitas falhas de mercado. Se um bairro fica bom, ele se valoriza e os preços dos imóveis e do aluguel sobem, não é? Esta é a regra clássica da oferta e da procura, certo? Mas se o seu salário de trabalhador não consegue pagar um aluguel ou um financiamento, você será excluído daquele bairro. Logo, o trabalhador irá para um bairro mais longe. E pela lógica econômica isso é normal. Mas no nosso caso, isso implica em morrer, pois morar longe é morar absurdamente longe e não ter saneamento, não ter casa e não ter segurança pública. No Brasil procuramos resolver isso exclusivamente pelo crescimento econômico como modo de atenuar as discrepâncias sociais e territoriais. Não está dando certo há mais de cem anos. Mas ainda repetimos essa falácia. Nas cidades dos países ricos, que não eram ricos antes, houve sempre a perseguição da coesão social como princípio. Não foi e não é perfeito, mas resolveram muitas coisas. Planejamento urbano mais eficiente e especialmente políticas habitacionais. As pessoas não sabem, mas tem controle de aluguel em Nova York, por exemplo. E olha que não concordo com isso, mas não há desenvolvimento pleno sem políticas habitacionais. Os EUA têm voucher de aluguel há muitas décadas, tem zoneamento inclusivo, tem apartamentos para locação social, tem incentivos e mais incentivos para cooperativas habitacionais. Canadá é igual. Na Europa, são inúmeras e diversas as políticas de moradia. Não há cidadania sem ter acesso equânime aos benefícios da urbanidade. E o que é isso? É o espaço público e seus encontros, o convívio no transporte público e o uso compartilhado da cidade. Ainda reproduzimos modelos racistas e segregacionistas de classe nas cidades brasileiras.

Plurale – Em sua recente atuação no setor público, o senhor desenvolveu um trabalho intenso pela recuperação do Centro Histórico do Rio. Qual foi a tônica deste trabalho?

Washington Fajardo - O objetivo foi mostrar que a melhor cidade que existe é a cidade que existe. Isto quer dizer que não precisamos expandir a cidade para abrigar todo mundo, que reciclar cidade, que reusar prédios é base de uma economia de baixo carbono, e, principalmente, que o Centro Histórico do Rio contém respostas para nossas perguntas sobre o futuro. Podemos ali nos misturar novamente e prosperar juntos. Fizemos muito mas sempre há mais por fazer.


Plurale - Por que, mesmo após este trabalho, estamos vivenciando um grande abandono de sítios históricos no Rio?

Washington Fajardo - Não houve continuidade. Inúmeras políticas foram interrompidas. Iniciativas sem custo, mas que dependem de colocar esforço de gestão e de pessoal. Só isso. O Edital Pro-APAC, depende um pouco de recurso, mas pode funcionar com um pouquinho todo ano. Parou. O Centro Para Todos que era um ordenamento integrado do território central, parou. O apoio aos Negócios Tradicionais, parou. A própria ideia de um patrimônio cultural mais ativo e energético, parou. O atual prefeito, Marcelo Crivella, é um político antiquado, daqueles que destrói o que o anterior fez somente para se provar certo. Deu errado, contudo. É uma gestão fracassada pois oprimiu a população e faz com ela pague a conta. Ele aposta na divisão da cidade ao governar apenas para os seus. É uma estratégia muito comum no Brasil hoje e que ele tenta atenuar ao se apresentar como homem de fim, mas sinaliza com isso uma brutalidade e violência fatal. Ele aposta no julgamento moral da cidade como redenção. É muito arcaico.

Há também falta de conexão entre instituições cariocas. É difícil unir agendas no Rio atualmente. Isso é fruto do desespero. É muito ruim o que está acontecendo e creio que a cidade perde perspectivas de desenvolvimento. Insisto que a reposta não está na política tradicional neste momento. É necessário ousar e ser criativo.

Plurale - Há espaço para megablocos de Carnaval no Centro Histórico carioca? Estamos preparados para a realidade de mais de um milhão de pessoas nesta região?

Washington Fajardo - Há espaço para blocos grandes tradicionais, como o Cordão da Bola Preta. Já blocos que fazem parte de estratégia de negócios de marcas deveriam pagar para usar espaço público. É importante separar aqueles que são da cultura do carnaval daqueles que são grandes operações de eventos. A prefeitura está refém de eventos há muito tempo. O Rio também.

Plurale - E Copacabana - comporta megaeventos, como Réveillon, Carnaval ou visita do Papa sem infraestrutura? Estamos preparados para estes eventos?

Washington Fajardo - Copacabana tem a tradição do Réveillon e me parece impossível mudar isso. Penso que os moradores entendem isto e aceitam, mas chega. Não precisa mais. Desenvolver Copacabana em termos turísticos poderia ser celebrar mais a memória do bairro, sua arquitetura, seus restaurantes, e sua paisagem cultural do que esse frenesi louco que é incompatível com a qualidade de vida dos moradores.

Plurale - As grandes cidades brasileiras (em geral) estão, de cerca forma, "morrendo"... perdendo a identidade...sucumbindo apenas para o novo, sem garantir a sua História. Sinal apenas da falta de recursos, de falta de gestão do patrimônio...de um combinado de vários fatores. O que precisa ser feito?

Washington Fajardo - O Brasil padece de uma estética do desenvolvimento. Uma ideia muito representada por Brasília, seu urbanismo e arquitetura. É um ideário nacional que apregoa que podemos ser felizes se expandirmos as cidades, se ocuparmos a natureza, se construirmos desenfreadamente. Claro que precisamos de infraestrutura e de uma rede logística mais eficiente no país, mas não sabemos mais como cuidar do que já existe. Não sabemos reocupar os Centros Históricos e temos os mais bonitos do mundo aqui. Penso que as políticas urbanas estão muito estagnadas, paradas nesse momento ideológico da guerra fria que ainda organiza a vida política nacional. Veja, perdemos o bonde da industrialização. Fomos confusos e não reduzimos desigualdade. Temos uma elite econômica muito mal-acostumada. Muito viciada em Estado. E quando começamos a focar na desigualdade eles vêm falar em Estado mínimo. É muita cara de pau. Agora estamos perdendo o bonde da era digital e da informação que depende de capital humano. Não aproveitamos nossa capacidade humana. A saída me parece concentrar nossos esforços numa mentalidade nova, mas ambiental e urbana, mais cultural e de serviços. Poderíamos ter uma evolução aí. Para tanto, derrubar os muros invisíveis das cidades é fundamental. Acabar com um urbanismo de condomínios e de pensamentos em gueto. É viável.


Plurale - Qual será o Rio do futuro - daqui a 20 anos, por exemplo - dos seus filhos? O dos sonhos e o do mundo real.

Washington Fajardo Tenho muita apreensão com o esvaziamento econômico do Rio e o desafio geográfico da cidade. O Rio é uma retângulo com três lados de água. A baia de Guanabara, o oceano Atlântico e a baía de Sepetiba. Logo sem temos um lado "terrestre" onde a logística pode funcionar plenamente. Assim precisamos ter uma visão metropolitana e cuidar também dos municípios da baixada para poder prosperar o Rio. Se em dez anos, até 2030, o Rio não se acertar, não se acertará mais. Virará uma cidade disfuncional com um território turístico protegido. Mas será uma bolha prestes a explodir. Não estou tranquilo não. Cariocas parecem não se importar com a economia da cidade, da metrópole e do Estado. São muito lenientes com políticos e práticas ruins do cotidiano. A sociedade precisa amadurecer também.

Plurale - As chuvas mostraram sua força. Cidades como Belo Horizonte, São Paulo e Rio sofreram imensamente. Concreto e asfalto cobriram antigos córregos...como solucionar este drama?

Washington Fajardo Tem ações de curto, médio e longo prazo. De curtíssimo prazo: unir o que se sabe ao que se deve fazer. Sabe-se muito bem onde alaga, e com que frequência, logo a manutenção precisa ser constante nestes locais. Sabe-se onde há risco em encostas. Deve-se reassentar essas famílias. E investir em contenções. E criar uma cultura de segurança. Definir áreas de encontro em situações de risco. Locais onde a população saiba para onde ir. Definir protocolos para o trânsito. Veja, vai chover cada vez mais e vai alagar. Inevitável. Logo precisamos mudar comportamentos. Usar mais tecnologia, melhorar comunicação pública. A chuva é a nossa neve. Nunca cessará. De médio prazo: é necessário mudar o padrão da urbanização sempre baseada em concreto e asfalto. Fazer intervenções urbanas corretivas. Planejar a cidade pelas sub-bacias dos rios e não pelos bairros e áreas de planejamento apenas. Incentivar e premiar prédios mais verdes e sistemas de captura e retenção de águas pluviais. Implantar jardins de chuva. E reflorestar, reflorestar, reflorestar. Deveria ser um mantra no Rio. Reduzir as ilhas de calor é fundamental para a cidade. De longo prazo: mudar padrões construtivos onde alaga sempre. Dar mais liberdade arquitetônica nestes lugares. Incentivar veículos elétricos. E controlar e desadensar as ocupações em encostas. Bem feito, em dez anos perceberíamos. Em vinte anos teríamos outro tipo de experiência com as chuvas.

Plurale - A crise hídrica no Grande Rio mostrou que água, saneamento e cidades estão umbilicalmente conectados. Mas - como já diriam políticos históricos - saneamento não dá voto porque os canos correm por debaixo do solo. Estamos pagando o preço alto por uma falta de gestão política nesta área?

Washington Fajardo Saneamento dá voto sim. Mas corrupção elege mais. São coisas distintas e ligadas. Se não tivermos uma ação mais integrada sobre a cidade, combatendo modelos de setores de atuação - meio ambiente, urbanismo, trânsito, etc - não veremos mudança. Claro que é preciso – administrativamente - separar, mas sem unir mais, sem coordenar mais, será sempre assim. O ciclo da água é um conhecimento do ensino fundamental, mas ele não existe pela ótica da administração pública e dos políticos. Por isso digo que precisamos de mais racionalidade técnica ao governar a cidade.

Plurale - Habitação é um problema sério no Brasil. No Rio - e em outros grandes centros - o trabalhador não consegue morar perto de onde trabalha ... acaba aceitando condições insalubres ou mesmo em áreas de risco. No Rio, este caldeirão se mistura com a ocupação de territórios por grupos armados. Existe um caminho para solucionar esta crise habitacional?

Washington Fajardo - Existe sim. Precisamos criar um sistema municipal de habitação. Mas é algo que precisará ser feito praticamente do zero pois este assunto é ignorado no Brasil. Para mim é nosso maior atraso e a bola de ferro no pé de todos, dos pobres e dos ricos. Todos se prejudicam com uma cidade organizada em guetos. Os ricos não estão protegidos. Eles pensam que estão, mas não marcados pela desigualdade também. Sua prosperidade é limitada também. E digo mais: o mundo não quer saber mais das confusões e do atraso brasileiro. Sinto um certo cansaço com o Brasil. Já ouvi "como pode um país tão belo e com tanto potencial cometer tantos erros?" A culpa não é dos clichês. Não é do imperialismo, ou da história, ou da direita ou da esquerda. A responsabilidade é de todos nós.

- De que forma a sociedade civil organizada poderia se mobilizar para enfrentar os efeitos da gravíssima crise climática que só piora?

Pelos bairros. bairros! É a saída! Organize-se no seu bairro. Na sua comunidade.

Plurale - Temos que arborizar mais as cidades, mas o que vemos são árvores centenárias sendo cortadas. No Rio, a desculpa é que poderiam desabar...mas será que é esta mesmo a solução?

Washington Fajardo - Deveríamos reflorestar e ter um horto ativo como infraestrutura urbana essencial. As arvores centenárias caem pois sucessivas podas tiram o equilíbrio de forças entre copa e raízes e elas desabam. Eles caem porque não sabemos mais cuidar. A ocupação política gananciosa na fundação parques e jardins também tem responsabilidade.

Plurale - Pedestres, ciclistas, idosos, mães e carrinhos e bebês ...as cidades hoje parecem feitas apenas para carros e coletivos. Como voltar a debater este assunto da "walkability"? O Primeiro Mundo está se debruçando sobre esta questão e no Brasil há pouco diálogo sobre este assunto tão urgente.

Washington Fajardo - Não falamos sobre muitos assuntos urbanos críticos pois estamos sempre pensando em ir para um lugar melhor que nunca é aqui e agora. Portanto caminhar não é valor urbano ou mental ou espiritual importante. Mas é a base da humanidade e da origem das cidades.







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