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Ecoturismo

Plurale em revista - Edição 69 - Vamos saltar?

A jornalista Renata Mondelo esteve em Salta, Argentina, e se encantou com a biodiversidade e o astral da região

Texto e Fotos de Renata Mondelo, Especial para Plurale

De Salta, Argentina

Esta matéria é destaque na Edição 69 de Plurale em revista que está circulando

A ideia veio de última hora e, em menos de 20 minutos, o destino já estava decidido: Salta. Desejo antigo guardado no armário das muitas viagens que ainda pretendo e preciso fazer. Um cantinho de imensa beleza natural que mistura as culturas andina e indígena, com paisagens cinematográficas de tirar o fôlego. Muitas, inclusive, serviram de cenário para filmes como Taras Bulba com Yul Bryner e Relatos Selvagens com Ricardo Darín. Justamente o que eu precisava para a virada de 2020: recarregar as energias e descansar de um ano que foi bastante puxado. Descansar? Bom... "Sí, pero no mucho".

Curto muito a Argentina por ser um país pequeno e rápido para se deslocar, mas que mesmo assim é repleto de contrastes, diferentes climas, paisagens fascinantes e tem vinho de gente grande. Um país que se encaixa perfeitamente na categoria dos "destinos certeiros".

Mas vamos falar de Salta. Situada no noroeste argentino (NOA), a província faz fronteira com o Chile e a Bolívia. Por isso, muitos que estão na região aproveitam para explorar os três países de uma só vez. Também está bem próxima do deserto do Atacama e vem daí a influência do clima seco. Em questão de minutos, vamos de picos andinos nevados, mesmo em pleno verão, a regiões desérticas nas quais nem os cactos (cardones) conseguem sobreviver. Quem curte roteiros exóticos vai desfrutar muito.

Salta é convite a um mergulho em heranças culturais e arquitetônicas singulares e nosso ponto de partida para visitar os principais atrativos da região.

Capital da província que leva o mesmo nome, é um lugar que tem enorme importância para a história do país. Construída pelo império espanhol para servir como parada de descanso na rota que ligava Buenos Aires à Lima, foi base para a Guerra da Libertação do povo argentino contra seus colonizadores. Seu povo é simpático e orgulhoso de cada aresta da cidade e recebe o turista com afeto, alegria e um humor próprio bem característico.

Conhecida como "Salta, la linda", a cidade possui arquitetura em estilo colonial e construções conservadas. São mais de 2000 históricas varandas (balcones) espalhadas pela cidade, muitas com mais de 400 anos. A parada obrigatória e contemplativa é a Plaza 9 de Julio, local que concentra a Catedral Basílica, a Igreja de São Francisco de Assis e o Museu Arqueológico de Alta Montanha, principal atração da cidade que conserva três múmias congeladas de crianças encontradas no alto do vulcão Llullaillaca. Por uma questão de conservação, as três múmias nunca são exibidas simultaneamente. La Niña del Rayo, La Doncella e El Niño foram usadas como sacrifícios por seus pais. Prática inca típica do povo na época.

A economia local está baseada na agricultura e no turismo orgânico que vem encantado turistas de todo o planeta pelas paisagens fora do comum e boas opções gastronômicas. A culinária rica e saborosa é pautada nas carnes e na viciante empanada saltenha. Não deixe de prová-la. É impossível comer uma só!

Comecei a viagem visitando o Cerro San Bernardo. De lá é possível ter uma visão total dessa que é a terceira maior da cidade da Argentina. Recomendo ir no final da tarde para poder ver o sol indo embora enquanto deixa a cidade toda na cor laranja. Mais tarde, saí para conhecer a intensa Rua Balcarce. São dezenas de restaurantes, bares e peñas folclóricas que se encarregam de não deixar a noite acabar. Pena não poder ficar até mais tarde porque, no dia seguinte, tinha que acordar bem cedo.

No segundo dia segui, animadíssima, em direção ao Valle de Cachi para conhecer a Reserva Nacional de Cardones. Um parque de cactos de três a quatro metros de altura, que sobrevivem apenas em regiões que se encontram entre 2.000m a 3.500m acima do mar. Um passeio tão surpreendente que não fui capaz de expressar nenhuma palavra durante o percurso. A sensação é de estar em um filme do Velho Oeste. Cachi está as margens da rota 40, estrada que liga o norte ao sul da Argentina.

Novo dia, novo destino. Dessa vez rumo ao norte pela Rota 68 para conhecer Cafayate. Cidade conhecida pelo enoturismo de qualidade e pelas paisagens espetaculares.

Pelo caminho de estradas sinuosas, uma vista de montanhas coloridas que iam de verdes a avermelhadas. As formações geológicas da região são, com certeza, das mais bonitas que já vi.

Uma ótima rota para viajar de moto ou de carro. A primeira parada foi a Garganta del Diablo, um dos lugares mais emblemáticos do Parque Natural da Quebrada de las Conchas. Uma sequência de rochas sedimentárias compostas por materiais que se acumularam por 90 milhões de anos. O lugar é impressionante! E como Cafayate é um destino conhecido pelo enoturismo, depois de algumas caminhadas, foi hora de trocar de marcha e conhecer a produção de vinhos da região. Visitei a vinícola familiar Domingo Molina que surgiu da união de três irmãos da família Domingo que buscavam reunir as incríveis particularidades das uvas de alta altitude com instalações e tecnologias de última geração. Percorri 60 hectares de vinhedos localizados de 1.600 a 2.300 metros acima do nível do mar.

O dia estava bastante quente. O clima da região tem mais de 300 dias de sol intenso por ano e pouca chuva. A visita e a degustação custaram 230 pesos por pessoa, mas caso o turista faça compras no local, não é cobrada. Achei bem justo.

Apesar de querer (muito) visitar outras vinícolas tinha que voltar para Salta e deixei as próximas degustações para um possível retorno. Quem sabe? Esse é o ônus das viagens curtas. Pouco tempo para ficar e aproveitar ao máximo o que alguns locais podem oferecer.

Entrando na contagem regressiva, reservei o último dia do ano, propositalmente, para conhecer Salinas Grandes, que fica na província de Jujuy. É o segundo maior deserto de sal do mundo e de lá são exportados cerca de 1 milhão de toneladas de sal por ano.

Como boa parte dos desertos de sal pelo mundo, as Salinas foram um grande lago de água salgada há mais ou menos 10 milhões de anos atrás. A evaporação levou a água embora, mas a camada de sal de 30cm permaneceu deixando de presente uma paisagem única e deslumbrante. Além do visual, a graça é achar as fotos mais criativas por conta da ilusão de ótica que o lugar nos proporciona.

Dia seguinte, ano novo! E hora de voltar pra casa. Mas se o objetivo da viagem era me desconectar das redes e estabelecer conexão direta com a natureza, a meta foi 100% cumprida.

Salta fica na memória e no coração. Um lugar aonde o tempo é o senhor e a natureza deixa bem claro que é que dá as ordens.

Deixar as epidemias da ansiedade de lado foi a melhor escolha para começar um ano que promete outras viagens e muitos sonhos a realizar.

SERVIÇO

Convento de São Bernardo
Este é um dos edifícios mais antigos de Salta, mas o acesso é proibido. Vale a pena visitar esse edifício histórico, nem que seja para admirar a porta de madeira.

Museu de Arqueologia de Alta Montanha(MAAM)
É o maior atrativo da cidade, onde estão expostos elementos de um Santuário Inca, incluindo as múmias de Llullallaico, uma das descobertas mais importantes dos últimos tempos.

Melhor época para ir
A melhor época para ir a Salta é entre o fim de fevereiro e a metade de maio, quando a temperatura fica mais amena e há pouca previsão de chuva, garantindo o melhor tempo para passear nas montanhas







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