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ESPECIAL CORONAVÍRUS - "O pós-pandemia"

Por Alexandre Arraes, Colunista de Plurale

Um dos maiores desafios da Humanidade em sua passagem pela terra foi tentar desvendar o futuro. A busca desse entendimento abrange todas as áreas de nossa vida, envolvendo desde astrólogos, cartomantes, videntes e sensitivos em geral até a racionalidade de filósofos, economistas, políticos e cientistas de todas as áreas. No desfile do carnaval de 1978, esse anseio tornou-se, inclusive, enredo da escola de samba carioca União da Ilha do Governador, que perguntou às arquibancadas, repetidas vezes e sem obter respostas, o que todos continuam tentando descobrir: “Como será o amanhã? / Responda quem puder. / O que irá me acontecer? / O meu destino será como Deus quiser".

Como se vê, não é tarefa fácil e fica ainda mais difícil se nem mesmo compreendemos o presente. E estamos vivendo agora um momento de absoluto desconhecimento. Enfrentamos um mal que assola o planeta e cujas armas, formas de agir e capacidade de destruição ainda estão longe de serem totalmente conhecidos. Tentar entender a nova realidade que está por vir é, indiscutivelmente, fundamental para nos prepararmos para os novos tempos de maneira a reduzir os prejuízos causados pela pandemia, recuperar mais rapidamente nossos ativos e - quem sabe? - até reconstruir de maneira diferente e melhor o que ruir nessa guerra contra o vírus.

Acho possível, sim, construir um novo período, no qual os gestores da coisa pública percebam a gravidade das ameaças que atravessamos e não percam a perspectiva de que ao final o que se busca é a felicidade das pessoas. Para isso é preciso aceitar que haverá restrições à circulação e que é provável que, mesmo após o controle relativo da Covid-19, ocorram surtos da doença. Esta é a nova realidade que está se consolidando e que vai durar por muito tempo, talvez até para sempre.

É possível que o século XXI esteja começando agora e que o pós-pandemia seja o novo mundo em que viverão as próximas gerações. Podemos dizer que também o século XX apenas se iniciou verdadeiramente após a Primeira Grande Guerra Mundial (1914 a 1918) e a pandemia da gripe espanhola (1918 a 1920). Dois eventos sucessivos que mudaram o curso da história e estabeleceram novas bases para a construção do que, hoje, olhando em retrospectiva, entendemos como sendo a realidade do século XX.

O mundo real da pandemia alavancou definitivamente o mundo virtual. Para nos prepararmos para esse novo tempo será necessário que as cidades busquem o caminho de se tornarem cidades inteligentes. Para isso é preciso que estejam mais organizadas, utilizem tecnologias de maneira inteligente, criem canais para receber e compartilhar informações, que seus administradores gastem melhor os recursos disponíveis, tenham mais reservas e capacidade de suportar ataques. Mas que, ao mesmo tempo, consigam estimular um outro tipo de vida, no qual se possa evitar aglomerações e lugares fechados; uma vida em que as pessoas sejam mais independentes e autônomas e circulem por áreas amplas e abertas, trabalhem e estudem em suas próprias casas; uma era na qual o trabalho presencial, quando necessário, esteja perto das residências, em novas centralidades regionais. O maior uso de ferramentas virtuais reduzirá o tempo para execução de tarefas e aumentará a eficiência, dando chance para que todos desfrutem de mais momentos de lazer e da convivência familiar.

As relações pessoais, mais do que nunca, terão de se fundamentar em confiança. É possível que tenhamos menos amigos próximos por conta da falta de contato presencial, mas os amigos que tivermos serão mais confiáveis. Como as atividades em casa serão ampliadas nesse porvir que imaginamos possível, a importância de preservação das famílias será maior e a relação entre seus integrantes também merecerá maior atenção e exigirá mais tolerância e flexibilidade.

Com a possibilidade de as reuniões acontecerem por meio virtual e as pessoas cada vez mais trabalharem em suas casas, os grandes espaços corporativos, prédios comerciais e até mesmo prédios públicos ficarão ociosos e outros usos precisarão ser pensados. O mesmo ocorrerá com muitos hotéis que, possivelmente, não terão utilização suficiente para mantê-los em funcionamento. Deve ser estudada maior flexibilização na transformação de uso de hotéis e edificações comerciais, que poderão ser convertidos em prédios residenciais ou de uso misto. Uma ampla revisão da legislação sobre atividades econômicas, bem como sobre uso e ocupação do solo precisará ser feita. Devemos, igualmente, pensar na possibilidade de mais usos comerciais serem tolerados em unidades residenciais para permitir o trabalho em casa.

Será preciso, ainda, uma adequada formulação para aqueles serviços que, obrigatoriamente, dependam da proximidade pessoal, como é o caso de salões de beleza e atendimento odontológico. Ambientes protegidos serão necessários e equipamentos de proteção individual de alto nível precisarão ser desenvolvidos. A prestação de serviço domiciliar poderá ser incentivada, para evitar o deslocamento dos clientes até as lojas e assim maiores aglomerações. Como o número de clientes atendidos ao mesmo tempo no interior das lojas precisará ser reduzido - o que pode ensejar menor produtividade - a consequência é que será necessário rever preços e custos fixos, como ocorre, por exemplo, em salões de beleza instalados em shoppings centers.

O mesmo deve ocorrer com restaurantes, que poderão se ver obrigados a aumentar espaços entre as mesas e reduzir sua capacidade de atendimento. Talvez a compensação possa vir através da oferta de um serviço diferenciado de delivery. Ou seja, as palavras mais utilizadas nesse processo serão revisão, redimensionamento, reformulação e toda a sinonímia correspondente.

Nesse novo conceito de tempo/espaço o comércio em geral que não conseguir se viabilizar com vendas sob encomenda precisará se reinventar, talvez com atendimento agendado e controle do número de clientes no interior das lojas. Mesmo durante a pandemia já foi possível perceber o enorme potencial de crescimento do comércio pela internet. Segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico -ABComm, de 01 de março a 08 de abril, 04 mil lojas de vendas online realizaram 20 milhões de transações, com valor médio de R$ 474, principalmente nos segmentos de saúde (124%), eletrodomésticos (37%) e alimentos e bebidas (30%). Isso significou aumento médio de mais de 30% em relação ao mesmo período em 2019. A expectativa da ABComm é que a velocidade de crescimento de compras online continue crescendo.

Muitos outros segmentos e atividades precisarão de soluções criativas. É nas crises que oportunidades e melhores respostas costumam surgir para os que tiverem coragem para inovar. Iniciativas que estavam em desenvolvimento se tornarão prioridades e terão que acelerar seu ritmo. É o caso do estudo à distância que, em meio à crise, se tornou realidade e obrigou as escolas a fazerem investimentos nessa área. A rede pública segue na mesma direção, com adaptações, como teleaulas, para o grupo mais vulnerável de alunos, que não tem acesso à internet e computador. Cestas básicas digitais com cartão e senhas de acesso específico ao conteúdo pela internet, expansão da rede gratuita wireless da cidade e a inclusão de tablets no kit de material escolar serão medidas necessárias para permitir que ninguém fique para trás.

Na área da saúde, a telemedicina, com certeza, terá lugar de destaque para acelerar o número de atendimentos, evitar aglomerações em clínicas e hospitais e proteger os profissionais de saúde. Impõe-se priorizar o prontuário único para que todos os pacientes de grupo de risco estejam identificados e possam ser localizados, o que permitirá realizar isolamentos mais específicos em caso de novos surtos. Parte do parque industrial deverá atuar na fabricação de equipamentos e insumos para a área de saúde. A autossuficiência nesse setor mostrou-se estratégica na capacidade de reação de grandes centros urbanos a epidemias.

Em relação à segurança pública, além do monitoramento por câmeras - inclusive para evitar aglomerações - será importante que as guardas municipais sejam preparadas para atuarem como polícias de proximidade, orientando o cidadão sobre novas recomendações, agindo na aplicação das novas normas de transformação da cidade e cuidando da segurança dos logradouros, parques e praças. Com isso a Polícia Militar poderá atuar com maior eficiência em áreas conflagradas, no policiamento das grandes artérias viárias e no combate aos crimes de maior gravidade, cuidando para que não haja agravamento nos índices de segurança pública.

A maior participação do setor público nesse momento inicial da epidemia, garantindo renda básica, salvando postos de trabalho e socorro à micro e pequenas empresas, deverá gradativamente, na retomada, dar lugar novamente à preocupação fiscal, mas com a meta objetiva de criar mecanismos de incentivo e simplificação para que seja possível a maior participação da iniciativa privada nas atividades capazes de gerar empregos e preparar o país para os novos tempos. Numa economia que poderá, durante muito tempo, evoluir em bruscos avanços e freadas, encontrar a medida certa entre maior esforço em investimento público e controle de despesas fará toda a diferença para que a situação econômica nacional não se agrave ainda mais.

Medidas articuladas pelos três níveis de poder como a contratação complementar, por parte das prefeituras, de serviços essenciais como vagas em creches privadas e serviços pontuais na área de saúde suplementar, podem ser necessárias. Da mesma forma a tão esperada política pública habitacional de Estado para instituir programas de desfavelização dos grandes centros urbanos ensejará esforços municipais e estaduais e demandará recursos federais.

Por outro lado, mais do que nunca, será importante que o Poder Público, nos segmentos que por sua natureza já sejam atrativos a investimentos privados, tenha a agilidade de providenciar os marcos legais e o que mais for necessário para que haja segurança jurídica em contratos e concessões, visando à universalização do saneamento básico e avanços em mobilidade urbana. Ambos os setores são prioritários e podem gerar aumento considerável do número de posições de trabalho para a mão de obra com pouca qualificação, que é o segmento da população economicamente ativa que mais precisa de emprego, principalmente em tempos de crise. Essas iniciativas, além de garantir acesso à água limpa, habitação digna e coleta e tratamento de esgoto reduzirão a pressão sobre o sistema de saúde pública, principalmente nesse momento em que paira a ameaça, ainda a ser confirmada, de que o novo coronavírus sobrevive no esgoto e, portanto, potencialmente pode se tornar mais uma doença de transmissão hídrica ainda sem vacina.

Em todas as situações citadas acima e em outras tantas mais difíceis de prever será muito importante a agilidade do gestor público, ouvindo a sociedade, antevendo os problemas e construindo soluções. Muitas delas, indiscutivelmente, passarão ou se iniciarão no Legislativo Municipal, que precisa ser mais ágil e estar aberto para pensar a cidade de uma nova maneira, preparando-a para essa nova realidade que ainda estamos longe de conseguir desvendar. Apenas a imaginamos, sonhando com a possibilidade de construir uma cidade diferente e melhor do que aquela onde nos acostumamos a viver.

(*) Alexandre Arraes é médico e gestor público. É Colunista colaborador de Plurale. E-mail: aarraes@terra.com.br







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1 comentário | Comente

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Vinicius Laureano |
Parabéns pelo artigo. Duas questões estão preocupando muito muitas pessoas: o avanço do controle das liberdades individuais e a quebra de empresas menores, com consequente ocupação do espaço por grandes empresas e formação (ainda maior) de oligopólios/monopólios. Agradeço discorrer futuramente sobre estes assuntos.

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