Atenção

Fechar

Artigos e Estudos

ESPECIAL CORONAVÍRUS - "Crise e oportunidade: relação entre a pandemia, as mudanças climáticas nas grandes metrópoles e a sustentabilidade."

Por Antonio Marcos Barreto (*)

O surgimento do termo Efeito Estufa se deu no século XIX por conta do aumento da industrialização dos países desenvolvidos e emergentes. De fato, o desenvolvimento econômico, necessário naquele momento da história mundial, contribuiu para o lançamento de gases poluentes na atmosfera, tendo como fontes principais as matrizes energéticas conhecidas à época, consideradas como não-limpas, entre elas o carvão mineral e os combustíveis fósseis.

Passaram-se os anos e a humanidade começou a se organizar e a promover ativamente movimentos sociais e ambientais que se transformaram em normas, leis e diretrizes na área ambiental para o desenvolvimento econômico e social sustentável. Em 1984, foi criada a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, pela Organização das Nações Unidas (ONU), que gerou relatório intitulado “Nosso futuro comum” ou “Relatório Brundtland”. Por meio deste documento o termo Desenvolvimento Sustentável foi apresentado oficialmente pela então primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland, em 1987.

Emerge a preocupação com a área ambiental e seus desdobramentos no cenário socioeconômico do planeta. Nessa esteira, os movimentos e os compromissos ambientais mundiais, como o Protocolo de Quioto, foram assumidos tendo como grandes marcos a Eco 92 e, mais recentemente em 2012, a Rio+20.

Em 2015, a ONU implementou os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODSs), cuja meta é aplicar universalmente, até 2030, ações que contribuam com o fim da pobreza e da desigualdade, e que combatam as mudanças climáticas. Todos os objetivos são interdependentes e representam uma grande oportunidade de modificação profunda da nossa sociedade em prol do futuro sustentável do planeta.

Essa linha do tempo demonstra que a sustentabilidade possui três pilares básicos: econômico, social e ambiental.

Ao trazermos o foco para março deste ano, imagens da Nasa revelaram queda significativa da poluição na China e em todos os países afetados pela COVID-19. Diante desse desafio sanitário, as nações foram forçadas a impor quarentena à população e, por consequência, houve a redução das atividades industriais e da poluição atmosférica provocada pelo deslocamento de grandes massas de trabalhadores dia após dia.

Constrói-se, portanto, oportunidade única para a humanidade repensar prioridades e transformar hábitos, conceitos e formas de consumo. Citando um exemplo das medidas adotadas para dar conta do isolamento social, a adoção de home office por boa parte das empresas e órgãos públicos nos mostra diversos ganhos. Diminuição do consumo de energia elétrica e de materiais de escritório nas repartições públicas e privadas, menor lançamento de gases de efeito estufa nos grandes centros, melhor utilização das tecnologias e do tempo, além do aumento da produtividade, são alguns dos impactos positivos advindos das alterações no cotidiano, observados em menos de seis meses de pandemia mundial. Apesar dos reflexos econômicos que irão irromper, são evidentes os benefícios sociais e ambientais do isolamento.

No âmbito das zoonoses que se tornaram doenças humanas, vale citar o livro _“Spillover: Animal Infections and the Next Human Pandemic”_, ainda sem tradução no Brasil, uma investigação minuciosa do autor David Quammen, que viajou o mundo e entrevistou dezenas de cientistas e especialistas sobre a questão. Um dos maiores hospedeiros de vírus e potenciais zoonoses são os morcegos, que servem como reservatórios para vírus potencialmente terríveis ao ser humano. A transmissão dos coronavírus é o exemplo mais prático. Se respeitarmos o habitat dessas espécies de animal, reduziremos consideravelmente a probabilidade de surgimento e de propagação desse tipo de enfermidade.

Devemos entender que as pandemias originárias de zoonoses nada mais são do que a aplicação da lei do retorno pelas ações humanas nocivas ao meio ambiente. Na busca pelo progresso, o homem invade habitats naturais e intervém, de forma desordenada, nos recursos naturais, provocando resultados trágicos, tal qual o surgimento de doenças como a Covid-19. Podemos afirmar que, se não aprendermos a dura lição que esta pandemia quer nos ensinar, teremos mais manifestações de vírus e de outras pragas muito piores. A natureza está dando a resposta e mostrando a relevância das emergências climáticas para a sobrevivência do nosso planeta e da própria humanidade.

(*) Por Antonio Marcos Barreto, atual Subsecretário de Estado do Ambiente, Conservação da Biodiversidade e Mudanças do Clima, da Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade do Rio de Janeiro. É graduado em gestão ambiental pela UAM-SP, pós graduado em direito ambiental pela UCM-RJ e mestrando em ciências do meio ambiente na UVA-RJ. Ex-presidente da ANAMMA-RJ (associação nacional dos órgãos municipais de meio ambiente).







Veja também

0 comentários | Comente

 Digite seu comentário

*preenchimento obrigatório



Ninguém comentou essa notícia ainda... Seja o primeiro a comentar!