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A inércia da CEDAE

Por Alexandre Arraes, Colunista de Plurale (*)

No começo deste ano, a Cedae submeteu a população carioca à maior crise de abastecimento da história recente da cidade: a crise da água suja, que trazia altos teores de geosmina, tornando seu gosto ruim e sua aparência desagradável. Essa substância está presente na água captada por conta da existência de grande quantidade de algas decorrente da alta concentração de material orgânico, leia-se esgoto, na bacia de captação de água. Ou seja, água intragável foi entregue na torneira do carioca e a companhia, mesmo assim, cobrou muito caro pelo seu produto, aliás como sempre, o que a faz praticar a quinta tarifa mais cara do país. Sem alternativa, o carioca foi obrigado a pagar pela água suja e malcheirosa e ainda precisou gastar mais para preservar sua saúde, comprando água mineral engarrafada a peso de ouro.

O governador demitiu o presidente da estatal e jurou que faria investimentos. Pois bem, há poucos dias, o biólogo Mario Moscatelli, através do Projeto Olho Verde, mantido por cariocas preocupados com a grave crise ambiental que o Rio atravessa há décadas, sobrevoou a área de captação de água no Guandu. Constatou que a situação permanece gravíssima, sem qualquer alteração. Isso é, os rios Ipiranga, Poços e Queimados continuam despejando esgoto junto ao ponto de captação da estação principal da Cedae. O biólogo ainda alertou que uma nova crise de qualidade da água pode acontecer a qualquer momento.
Agora ficamos sabendo que a crise que aconteceu no começo do ano não foi provocada pela substância geosmina. O estudo do laboratório de microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, coordenado pelo Dr. Fabiano Lopes Thompson, que investigou, por meio do sequenciamento do DNA, o material genético dos micro-organismos presentes na água coletada no Guandu, mostrou que a situção é muito mais grave e que a substãncia que causou as alteraçõea na água, a 2-MIB (2-methylisoborneol), é derivada de patógenos do intestino e presentes nas fezes humanas e que se encontrava em titulações muito altas nessas amostras.
Na verdade, há relatos de que algumas regiões da cidade já voltaram a receber água suja e intragável em suas torneiras, como é o caso de Parque Leopoldina em Bangu. Até mesmo os projetos paliativos pontuais de desvio dos rios que poluem a bacia de captação de água – os "puxadinhos" de sempre – foram totalmente abandonados. O prometido investimento de R$ 700 milhões foi esquecido. Agora se fala da construção de uma barreira e da colocação de tubulação subterrânea que desviará a água contaminada dos afluentes para o segmento posterior do Sistema Guandu. Melhor dizendo, um outro improviso.

Seis meses após a recente crise da água suja, o que se percebe é que nada aconteceu de fato e que na verdade a situação era ainda mais grave do que o divulgado. Não houve qualquer avanço na neutralização das fontes de contaminação junto à bacia, onde está localizado o ponto de captação da estação de tratamento do Guandu. Foi levando isso em conta que o Projeto Olho Verde passou a recomendar que, em curto prazo, seja criada unidade de conservação no entorno geográfico do ponto de captação, visando a interromper o crescimento urbano informal, e que seja feita a regularização fundiária da região, com a transferência das moradias e demais atividades comerciais atualmente existentes.

Na impossibilidade imediata de uma obra definitiva, o projeto ecológico ainda sugere que, a médio prazo, seja colocado em prática uma solução paliativa com o objetivo de impedir a chegada de esgoto e demais contaminantes, carraedos pelos rios Poços, Ipiranga e Queimados, à bacia de captação. Por fim, preconiza que seja iniciado, o quanto antes, projeto de longo prazo para o saneamento definitivo da bacia hidrográfica do Rio Guandu.

Essas são as medidas mínimas que se espera da concessionária, com prazos suficientes para que saia da inércia em que está mergulhada e aja, se pretende continuar a receber pelos serviços. Vamos cobrar que o Ministério Público exija a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta com essas condições. Se a Cedae não aceitar se submeter não restará outra solução a não ser a rescisão unilateral do esdrúxulo Termo de Reconhecimento Recíproco de Direitos e Obrigações que fundamenta a delegação do saneamento do município para a estatal; ou, até mesmo, a intervenção federal na companhia.

Não é possível que, além da capital, mais seis municípios da Região Metropolitana, envolvendo cerca de nove milhões de pessoas, fiquem à mercê da incompetência da empresa, esperando por algo ainda indefinido que dificilmente chegará. Recordo que o dono da estatal é o Governo do Estado do Rio de Janeiro, que está às portas da falência e em meio a crises que se sucedem: sanitária, política e agora até envolvendo investigação policial.

O carioca e o fluminense já estão cansados das promessas nunca cumpridas da Cedae. Não dá mais para fingir que não há nada acontecendo e simplesmente seguir adiante. Precisamos resolver isso e tem que ser agora. O Rio tem pressa!

(*) Alexandre Arraes é médico, gestor público e presidiu a Frente Parlamentar de Saneamento Municipal.







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2 comentários | Comente

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João Pedro Maya |
Então quer dizer que a água que a CEDAE usa do Guandu para tratar e distribuir para a RMRJ está poluída com esgoto, que por sua vez deveria ser tratado pela empresa de saneamento do estado....a CEDAE?

Edson Pinto |
Srs. as medidas para solucionar a curto prazo estão aí. Vamos pôr mãos-à-obra?