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No mês do Orgulho LGBTQIA+, linguistas internacionais e artistas queer brasileiras comentam a importância do Pajubá

Da perseguição e da violência contra a população LGBTQIA+ nasceu uma linguagem que ajudou a salvar vidas durante o regime militar.

No próximo dia 28 é comemorado o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, e para homenagear a resistência e lembrar a importância da luta, linguistas internacionais e artistas queer brasileiras comentam a importância do Pajubá, não apenas como manifestação linguística cultural, mas também, como movimento que ajudou a salvar vidas durante o regime militar no Brasil.

A cada 26 horas, uma pessoa ainda morre no Brasil apenas por ser gay, lésbica, bissexual, travesti, transexual ou sem gênero, de acordo com o Relatório do Grupo Gay da Bahia, que aponta que 297 pessoas foram vítimas de homicídios e 32 de suicídios motivados pela homotransfobia, em 2019. Em 2014, foram passadas a limpo muitas violações de direitos humanos ocorridas nos anos de chumbo no Brasil, que aconteceu entre 1964 e 1985. A versão final do relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV) destacou a perseguição e os abusos cometidos contra gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, apontando que eram alvo de excessos cometidos durante as práticas de torturas, espancamentos e extorsões.

Em meio a repressão, resistência

A repressão deu lugar à uma trilha de resistência, em que a comunidade LGBTQIA+ desenvolveu a própria arte e linguagens corporal e verbal. Hoje, conhecido como uma “linguagem queer”, o Pajubá nasceu como forma de subversão ao sistema, ao mesmo tempo “funcionava como uma estratégia de sobrevivência das pessoas sexo-gênero dissidentes”, explica Carlos Henrique de Lucas, professor e autor do livro Linguagens Pajubeyras: Re(ex)sistência cultural e subversão da heteronormatividade.

De acordo com o pesquisador, apesar de muitos acreditarem que o Pajubá formou-se em meio a Ditadura Militar, ele defende que as linguagens pajubeyras tenham surgido antes desse período através das relações culturais dos praticantes do Candomblé e Umbanda e as vivências não heterossexuais. “Penso as linguagens pajubeyras como como estratégias políticas e culturais de superação de uma realidade que se mostrou tenebrosa para as travestis e as beeshas afeminadas. A importância do Pajubá tem sido constantemente destacada na arte, refletindo a resistência cultural. Recentemente, ganhou projeção internacional com o lançamento do álbum Pajubá, da cantora Linn da Quebrada. Conquistou também outras esferas, como a prova do Enem, por exemplo, mostrando sua importância cultural, histórica, social e política.

“O trabalho de artistas como a Linn da Quebrada é extremamente potente no enfrentamento da violência centrada na sexualidade e no gênero. É um poderoso trabalho que aposta na inauguração de vidas possíveis, na criação de mundos em que os corpos de pessoas sexo-gênero dissidentes possam se mover livremente no interior de uma democracia. É preciso que entendamos o papel da cultura e da arte no enfrentamento da violência contra as pessoas LGBTQIA+. E as linguagens pajubeyras operam exatamente aí”, destaca o professor Carlos Henrique de Lucas.

O Pajubá no mundo

A recente repercussão do Pajubá levou 150 linguistas internacionais do aplicativo de idiomas Babbel – que é considerada uma das empresas de educação mais inovadoras da Europa – a conhecerem os significados das expressões pajubeyras e elegerem as mais brilhantes, segundo tradução literal, contexto e significado. Para isso, Vitor Shereiber, brasileiro que é Gerente de Projetos Didáticos na sede da Babbel, em Berlim, traduziu e contextualizou dezenas de termos e expressões para que especialistas americanos, britânicos, espanhóis, italianos, franceses, alemães, entre outras nacionalidades pudessem eleger as mais criativas.

Formado em Letras Português/Alemão pela UNESP, Shereiber também é fluente em inglês, francês e italiano. Ele comenta: “algumas línguas, como o turco e o indonésio, por exemplo, também possuem linguagens queer, mas a genialidade e o humor contidos no Pajubá são muito particulares”.

As frases eleitas pelos gringos também estão entre as preferidas de artistas brasileiras como Lia Clark e Kika Boom, que apontaram fazer a louca e bater cabelo como as suas preferidas.

“Fazer a louca” e “bater cabelo” são as frases do Pajubá preferidas das cantoras Lia Clark e Kika Boom

Para Lia Clark, seu sucesso hoje é graças também à luta LGBTQIA+ . Sendo negra, homossexual e drag queen, exercer uma posição representativa na sociedade é crucial. “Recebo mensagens diariamente de pessoas agradecendo ao meu trabalho. É gratificante inspirar outrxs jovens que não tiveram essa representatividade”. Para a cantora Kika Boom, por mais que as vozes LGBTQIA+ tenham ganhado amplitude, o discurso do preconceito ainda é muito forte. Ela considera o Pajubá como um recurso acolhedor da comunidade. Apesar de ter surgido em um momento de repressão, permanece vivo. “O Pajubá nos acolhe, mas também nos solidifica como comunidade, que construiu sua comunicação e o seu contexto. Na ditadura, essa linguagem salvou vidas e continua sempre atualizada. Eu utilizo muito no meu dia-a-dia expressões como mona, bater cabelo, mana”, comenta Kika Boom.

Entre as 10 expressões do pajubá eleitas pelos linguistas internacionais da Babbel como as mais criativas, o professor Carlos Henrique de Lucas chama a atenção para uma delas: “a expressão fechação, que prefiro grafar com ‘x’, fexação, tem um aspecto político não mencionado na lista. A fexação é um curto-circuito no gênero, espécie de fio desencapado nos sistemas que se propõem regular e definir quais vidas valem ou não a pena ser vividas. Fexar, assim, tem uma relação intrínseca com a zombaria, ou a gongação, outra palavra pajubeyra poderosa”, finaliza.

Confira a lista com as expressões pajubeyras:

  1. Fazer a egípcia (to play the egyptian)
    Virar o rosto de uma maneira esnobe com o intuito de ignorar alguém.
  2. Bater cabelo (to bang the hair)
    Arrasar na pista de dança. Nos anos 1990/2000, dançar jogando o cabelo fervorosamente era um dos movimentos preferidos das drag queens nos palcos e nas festas.
  3. Queria estar morta (I wish I was dead)
    Originalmente uma citação da cantora Lana del Rey. No Pajubá, a expressão é usada para descrever uma sensação momentânea de desânimo, cansaço ou tédio.
  4. Fazer a louca (to play the crazy one)
    Ignorar consequências óbvias deliberadamente. Frequentemente usada com o sentido de "não tente me enganar" (não faça a louca). É importante notar que, apesar de ser usado principalmente por homens gays, o adjetivo se mantém no feminino.
  5. Fada sensata (reasonable fairy)
    Quem mostra coerência/ lucidez em seus argumentos.
  6. Bofe escândalo (scandal guy)
    Homem extremamente atraente.
  7. Barbie/ Susy
    Barbie é um homem gay e musculoso. Susy é sua contraparte "mais barata", que precisa malhar mais para chegar ao nível Barbie.
  8. Fazer a Kátia Cega (to play Katia The Blind)
    Referência a uma cantora brasileira que ficou famosa nos anos 1980. A expressão significa agir como se não estivesse vendo algo, ignorando alguém ou algum acontecimento como se fosse cego.
  9. Fazer a Angélica (to play Angélica)
    Significa pegar um táxi. A expressão é uma referência a uma cantora e apresentadora de TV. Ela ficou famosa nos anos 1980 cantando uma versão brasileira da canção francesa Joe le taxi.
  10. Fechar/ lacrar (to close/ to seal)
    Fazer uma apresentação de tirar o fôlego, seja em um contexto artístico, social ou profissional. A expressão completa "fechar o tempo" significa "uma tempestade que está chegando". Mais tarde, o termo “lacrar” começou a ser usado no mesmo sentido.







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