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Orgulho do povo indígena na Amazônia Legal, estilista We’e’ena Tikuna, do Amazonas, dá os primeiros passos no mundo fashion

Por Luciana Bezerra – Da Revista Cenarium / Parceria com Plurale

MANAUS – Se José de Alencar fosse escritor do século 20, sem dúvida, ele escreveria a história de We’e’ena Tikuna. Uma jovem nascida na reserva indígena Tikuna Umariaçu, no Alto Solimões, localizada no município de Tabatinga (AM), onde se concentra a maior população indígena Tikuna brasileira, com 48 mil habitantes, conforme último balanço do IBGE.

Na língua Tikuna We’e’ena, um nome pronunciado em forma de canto, significa “onça nadando para o outro lado do rio”. Como consta em seu Registro Administrativo de Nascimento Indígena (Rani), emitido pela Fundação Nacional do Índio (Funai).

Foi parafraseando a tradução do seu nome que a bela índia de cabelos mais negros que a asa da graúna [forma em que Alencar descrevia Iracema em seu romance] e de uma voz com sotaque tikuna, desembarcou aos 18 anos da Selva Amazônica, onde foi criada até os 12 anos, na Selva de Pedra da cidade de São Paulo.

A hoje, artista plástica, estilista, cantora, nutricionista, feminista e defensora dos direitos das mulheres indígenas, We’e’na Tikuna, de 31 anos, contou, nesse sábado, 27, a sua história à REVISTA CENARIUM.

Aos 12 anos, sem saber falar a língua portuguesa e acostumada às tradições indígenas do seu povo, onde o único contato era com o dialeto nativo da mãe, a pequena índia sofreu o primeiro impacto da vida longe da floresta. Na época, seu pai resolveu mudar com toda a família para Manaus. Na mala, além dos seis filhos, a expectativa de dar uma vida ‘mais civilizada’ e de oportunidades para as crianças. De acordo com We’e’ena, sua mãe foi contra o desejo do marido, mas não teve escolhas ao pensar no futuro dos filhos.

“No primeiro momento, minha mãe não se acostumou a viver fora da aldeia. Mas meu pai criou a comunidade indígena Wotchimaucu, na Cidade de Deus, zona Leste de Manaus, próxima ao jardim botânico, da cidade. Foi um choque cultural para todos nós, que éramos acostumados a viver livremente na aldeia. Aos 12 anos, fui matriculada na primeira série do ensino fundamental, em uma escola da região, sem saber falar português e sequer, ler. Sofri bullying, preconceito, chorei inúmeras vezes e como tinha dificuldade de me comunicar repeti de ano por duas vezes por falta de paciência dos professores. Eles não me entendiam e eu não entendia eles”.

Assim como We’e’ena, seus irmãos conseguiram se formar e ter uma profissão. Seu irmão mais velho é pedagogo e dá aulas na aldeia tikuna, onde ela nasceu, e a irmã do meio é jornalista e cantora.

“Hoje, o índio pode ser médico, nutricionista, advogado ou o que ele quiser”, enfatiza We’e’ena.

Vale lembrar que o acesso dos índios à educação é uma conquista recente, principalmente depois da criação da Lei de Cotas (Nº 12.711), instituída em 2012 e garante a reserva de vagas em universidades e institutos públicos e federais para os indígenas. Segundo o Ministério da Educação (MEC), todas as universidades federais participantes do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) têm cumprido regularmente a reserva de vagas definida pela lei.

Origem de tudo

De todos os percalços daquele período de mudanças We’e’ena lembra das aulas de artes na escola, onde segundo ela, sempre se destacava. Foi a partir dali que a vida da indígena começou a se transformar na cidade grande. Em 2005, ela ganhou uma bolsa de estudos no Instituto Dirson Costa de Arte e Cultura do Amazonas (IDC), para cursar artes plásticas. We’e’ena não só se formou, como se especializou em pintura acrílica sobre tela sempre expressando à arte indígena.

Atualmente, 12 de suas obras estão no acervo do Estado do Amazonas. A artista plástica também se orgulha de ter trabalhado ao lado de artistas de renome nacional, de ter tido a oportunidade de expor suas obras na Casa da Fazenda de São Paulo, além de ser homenageada como melhor artista plástica indígena pela Sociedade Brasileira de Educação e Integração e pelo Prêmio Quality Internacional Do Mercosul.

Artista nata e com diversos dotes artísticos, We’e’ena é engajada em inúmeras vertentes culturais, além da artes plásticas, como música e moda, é ativista e palestrante. Como cantora, ela é divulgadora cultural do povo indígena, compôs um álbum dedicado a língua Tikuna, com letras que falam da resistência cultural, da identidade e da preservação da natureza.

No cenário nacional, We’e’ena foi a primeira indígena a participar do maior encontro da música popular brasileira, a Festa Nacional da Música 2017 e fez inúmeras aberturas no Rio +20, Itaú Cultural, Palácio do Governo de Brasília, Revelando São Paulo, Jogos Indígenas, Festival de Bertioga, Dia internacional dos Povos Indígenas.

“Eu não vejo como uma vitória pessoal, mas sim coletiva, pois é um passo a mais para a visibilidade do meu povo. ’’, compartilha We’e’ena.

Marca e Grife com raízes indígenas

We’e’ena é a primeira indígena tikuna a assinar profissionalmente uma coleção e a expor suas peças autorais para o mundo fashion em um dos maiores eventos da moda sustentável do País, Brasil Eco Fashion Week, realizado em São Paulo, em 2019.

Segundo a estilista, a ideia de criar uma marca que esboçasse a cultura indígena surgiu há 12 anos, quando ainda confeccionava as peças para uso pessoal. No entanto, o sonho só se concretizou em 2018, quando lançou a primeira coleção intitulada ‘Eware’ (lugar sagrado, na língua tikuna), que nasceu com objetivo de combater o preconceito, o racismo e o não reconhecimento da verdadeira história das suas origens.

Sem incentivo para subsidiar sua marca e a grife, a estilista conta que o maior apoio veio do companheiro, o violonista espanhol, Anton Carballo, que compõem a Orquestra Sinfónica do Rio de Janeiro.

“A ideia veio do meu marido, vendo o interesse das pessoas sobre como eu me vestia. Há mais de 12 anos, faço minhas próprias roupas”.

“A marca trabalha exclusivamente com tecido de algodão e misturas de fibras de tururi, a pintura dos grafismos são manuais, as peças são confeccionadas uma por uma por mim, as pinturas nos tecidos são de tingimentos naturais (jenipapo, urucum) e estamparia com os grafismos nativos, escolhi o algodão por que é orgânico além de desenvolver a criação das modelagem das peças”, destaca.

O estilo dos grafismos nas peças têm diversas simbologias e cada modelo expressa um significado diferente. Imitando a escama de tartarugas e cobras, o peixe bodó e penas de aves, a arte reflete a origem da criadora.

We’e’ena adiantou ainda que recebeu um convite para participar da semana de moda de Milão, que acontece em setembro, mas em decorrência pandemia do novo Coronavírus, não sabe se o evento realmente vai acontecer esse ano. A nova coleção, nomeada de Tururi, trás um viés mais sustentável, já foi desenhada e será apresentada no evento de Milão.

Como Ativista

Atualmente, We’e’ena que também exerce a carreira de nutricionista, e se divide entre o Rio de Janeiro, onde tem um consultório, em Ipanema, e Alter do Chão, no Pará, onde mora.

Como ativista das questões indígenas ela defende a bandeira da visibilidade e da inclusão indígena, e paralelamente aos projetos pessoais, é militante dos direitos do povo nativo.

“Muitos artistas indígenas também fazem sua própria arte. Isso mostra uma mensagem clara que não somos excluídos, estamos nos incluindo na sociedade sem esquecer nossa essência. A história que eu escrevi, vai ficar aqui. A gente vem para a terra, para deixar algo da nossa essência, eu acho que quando meu Deus me levar, vou deixar um recado de resistência através da arte, nossa voz vai ecoar longe pela música e pela pintura”, finaliza.

Como presidente Nacional das Mulheres Brasileiras Indígenas pela Libra (Liga das mulheres eleitoras do Brasil), We’e’ena palestrou em debates e fóruns sobre os direitos indígenas, no Itaú Cultural, FLIP 2019, Universidade de Anhanguera, Rio +20, Museu Do Amanhã, Educação 360, Virada Sustentável Rio de Janeiro e Sesc.

Atualmente, realiza shows e palestras sobre a cultura indígena e o Meio Ambiente como agente ambiental do Instituto Brasileiro de Defesa da Natureza (IBDN).







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Lucia Koury |
Que menina! Que mulher! Que ser humano! Emocionada com a matéria da repórter Luciana Bezerra. Poderia até ser capa da revista de domingo do Globo. Pode ser tudo que ela quiser.