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PLURALE EM REVISTA, EDIÇÃO 70 - Governança: saindo do freio de arrumação

Por Henrique Luz, Colunista de Plurale (*)

Há tempos que o mundo vem tentando enfrentar os enormes desafios sociais e ambientais que se nos impõem, independentemente dos sistemas políticos e econômicos. De repente, somos instados a vivenciar algo que nenhuma organização do globo conseguiu mapear em suas matrizes de risco. Imprevisível e incomensurável, altamente devastador, atingindo mais de 4 milhões de pessoas e ceifando 300 mil vidas até este momento no mundo, o Coronavírus-19 parece também ter chegado para marcar um novo começo.

Refiro-me à maneira pela qual as organizações interagem para assegurar uma convivência pacifica com o próprio planeta em que vivemos, suas fauna, flora e imensa biodiversidade de forma geral. O entendimento pleno de que a vida de todos os seres, inclusive os humanos, é altamente dependente da harmonia e do respeito que devem balizar as relações entre todos.

Com isso, fica mais fácil entender os desafios que estamos enfrentando e, numa agenda positiva, o que precisamos fazer para recolocar o trem nos trilhos.

Um bom sistema de governança visa a assegurar que organizações sejam dirigidas, monitoradas e incentivadas em direção ao seu propósito, por meio de uma relação eficaz entre seus agentes, sejam acionistas e investidores, diretoria executiva, conselho de administração, órgãos de fiscalização e controle ou quaisquer outros de seus demais stakeholders.

A crise está mostrando que nunca foi tão importante ter esta estrutura chamada governança operando de forma harmoniosa, como se uma grande orquestra sinfônica fosse. Entretanto, os dias vão passando e observa-se que a analogia é muito mais com músicos reunidos em uma jam session. A improvisação da criatividade fértil em mãos competentes. A adaptabilidade em alta escala. A coragem de ousar elementos novos.

Todas as crises têm começo, meio e fim. Sabemos que estamos em mais uma. Cruel e de proporções gigantescas, mas com sabido fim. Das primeiras iniciativas de proteção dos colaboradores e seus familiares, da grande adesão das organizações àquilo que se constitui o seu próprio rol de responsabilidade social - ambas levadas a cabo com grande ênfase e efetividade – migraram para a óbvia necessidade de proteção de seus caixas. Resultado econômico contábil, quando ruim, dói. Caixa, quando inexistente, “mata”. Como se o primeiro fosse a tão propalada “gripezinha” e o segundo, o próprio COVID-19.

Bem, mesmo ainda nos estágios acima, as organizações precisam migrar para a arquitetura de suas operações futuras. A visão estratégica que precisa ser desenhada à luz de tudo o que está ocorrendo. E pode-se ter certeza de que o mundo muda de forma relevante após uma crise dessa proporção. E para acompanhar isso, haverá um “novo normal” emergindo, inclusive na governança. Me parece óbvio que os Conselhos de Administração serão bem mais próximos dos seus diretores executivos. A postura, durante a crise, já estabeleceu essa necessidade e mostrou que essa proximidade é positiva para as organizações. O advento das reuniões de conselho e assembleias de acionistas de maneira virtual pode mesmo definir um novo padrão nas relações corporativas e processos decisórios colegiados. Mais do que a tecnologia em si, precisaremos aprender a garantir informação, reflexão, debate simultâneo, confiança e confiabilidade nas tomadas de decisão e deliberações.

No que toca ao mercado de consumo, me parece também definitivo que os consumidores mudam de forma relevante os seus hábitos. Algumas organizações estão antevendo a agilização da tendência, que já vinha em curso, de consumo mais “consciente”, transformando hábitos em relação a alimentos, vestuário e transporte, por exemplo. Na França, cada vez mais consumidores querem consumir menos. Na Suécia, aeroportos indicaram menor tráfego de passageiros no ano de 2019. As pessoas passarão a valorizar mais o consumo de alimentos saudáveis. Menos produtos de origem animal e mais vegetais.

É bem provável que isso nos leve, finalmente, a um encontro da classe empresarial e de investidores com os aspectos ambientais, sociais e aqueles da própria governança, o ASG. Alguns, mais espiritualizados, entendem que essa parada já foi uma conclamação para que todos nós olhemos mais para o modo como temos tratado o próprio planeta, a sua fauna, os seus mares, a sua flora e riquezas naturais. Que assim seja. Certamente, podemos ser muito mais responsáveis com os aspectos ambientais. Da mesma forma, em um país com dezenas de milhões de miseráveis, as grandes zações precisam de ações na dimensão da responsabilidade corporativa social, para contribuir com a amortização dessa grande divida social. Esperar que somente o governo o faça seria como aceitar conviver com enorme violência urbana, derivada de um péssimo sistema de educação básica e de hospitais sem capacidade e preparo para prover adequada assistência de saude a este segmento da população.

Num outro prisma, os investidores continuarão a pressionar – provavelmente com maior veemência – para que as mulheres assumam mais e mais posições em conselhos. No Brasil, somente 9% dos assentos nos boards são ocupados por mulheres. Se extrairmos dessa base as herdeiras e donas de empresas, este percentual cai para 5% - o que é, convenhamos, extremamente baixo, seja qual for o padrão de comparação adotado; tanto em relação à quantidade de mulheres profissionais hoje em dia quanto em relação aos países da Europa ou da América do Norte. Acredito, porém, que essa tendência se deve principalmente, ao fato de que um conselho formado por membros independentes e que expressem diversidade estará sempre mais apto a produzir melhor e de forma mais inteligente do que boards compostos por conselheiros com experiências parecidas, monoformação.

Está mais do que claro, também, que outros aspectos não financeiros além dos já citados - como conduta ética e capacidade de inovação – impactarão, cada vez mais, os resultados e a estratégia das empresas. Se, ainda hoje, poucas empresas incorporam métricas não financeiras aos seus programas de remuneração variável, entendo que o pós-crise vai nos mostrar que muito mais empresas procurarão formas de acelerar a transformação dessa cultura.

De certa forma, e em suma, me parece que as empresas se tornarão mais fiéis aos seus raisons d’ être, aos seus propósitos. Em empresas que servem a um propósito maior, em benefício da sociedade, fica mais fácil pensar na importância de sua longevidade. E é natural que surjam debates sobre qual é o bem maior de uma empresa. Nessas discussões, longevidade tem levado vantagem. Por trás dessa escolha - urge entender - existe, sim, uma equação econômica que a justifique. Parece que, pelos movimentos que temos visto de investidores em todas as partes do mundo desenvolvido, caminharemos em direção a um capitalismo mais consciente, que, espero, delimitará, de maneira mais inequívoca, a nossa nova relação com o mundo a partir deste “freio de arrumação” imposto pelo Covid-19.

(*) Henrique Luz é Colunista Colaborador de Plurale, Membro independente de Conselhos de Admiistração, Conselheiro Certificado do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) e Presidente de seu Conselho de Administração.







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